Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > 2.

Desonestidade intelectual e sofisma

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

ORIENTE MÉDIO

José Arbex Jr. (*)

O jornalista e professor Luis Milman é um bom polemista. Argumenta bem. Apresenta fundamentos históricos. Diz muita coisa com as quais eu concordo. Estranho, por isso, que para polemizar tenha recorrido aos condenáveis expedientes da desonestidade intelectual e do sofisma.

1.Sobre a desonestidade intelectual

Milman tenta provar que o repórter é "anti-semita". Cita, como suposta prova, o texto "Nazisrael?", publicado pela Caros Amigos em 1998, em que o autor parte de uma denúncia publicada pelo jornal Sunday Times (e reproduzida pela Folha de S. Paulo), segundo a qual Israel estaria fabricando uma "bomba étnica".

Milman diz: "Dias depois de sua publicação no Sunday Times, descobriu-se que a notícia reproduzia parte uma novela de ficção de terceira-linha, jamais publicada e escrita por um ex-funcionário de um instituto de pesquisas israelense."

É possível. Milman não diz quantos dias depois. Nem diz aquilo que está no artigo:

"E Washington sabia da existência do projeto de fabricação da arma, como afirma o Sunday Times: ?O secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, revelou que havia recebido informações de que alguns países estão trabalhando para criar ?certos tipos de agentes patogênicos que seriam especificamente étnicos?. Uma alta fonte de espionagem ocidental confirmou na semana passada que Israel era um dos países aos quais Cohen se referiu.?"

Milman também não diz outra coisa que está no artigo: "Dedi Zucker, membro do Parlamento israelense, denunciou sábado a pesquisa: ?Moralmente, com base em nossa história, em nossa tradição e em nossa experiência, esse tipo de arma é monstruoso e deve ser rejeitado?." O governo israelense, obviamente, nega a existência do projeto da bomba étnica, ainda que para isso tenha que fingir ignorar uma profusão imensa de declarações e evidências. É difícil avaliar, no momento, como a história se desenvolve."

Portanto, não apenas é citada a reação do governo de Israel, como também a reação indignada no Parlamento de Israel. Qual a razão para Milman ter ocultado essas informações? Resposta: Milman quer "pintar" o repórter como um monstro anti-semita, pronto para pegar carona em qualquer denúncia contra Israel, por mais absurda que pareça. Só que se a denúncia fosse tão absurda assim não teria merecido os comentário de William Cohen e a reação de Dedi Zucker.

Dizer, quatro anos depois, que nada se comprovou, e querer com isso desqualificar o adversário, é algo muito primário. Havia elementos para um debate (proposto no Parlamento de Israel), mesmo porque Israel, durante muitos anos, negou que tivesse criado um arsenal nuclear. Milman preferiu fingir que anda disso estava escrito no artigo.

Que feio, sr. Milman, que feio!!!!

2.Sobre a prática de sofisma

Milman monta a seguinte equação: semita = judeu = israelense = Estado de Israel = governo, de tal forma que todo aquele que ataca o governo israelense é imediatamente qualificado como "anti-semita", "favorável ao Holocausto" e tolices semelhantes, não importa a natureza da crítica. Qualquer crítica se confunde com "anti-semitismo".

Para montar o sofisma, Milman é obrigado a ocultar outras afirmações contidas no texto que critica, conforme vem a seguir:

"Em síntese, Israel tem que decidir, finalmente, se é um Estado judeu ou um Estado de judeus. São coisas radicalmente diferentes. O Estado judeu é bíblico, fundamentalista, religioso, mandatado por um Deus que teria adotado os judeus como povo escolhido. Desse ponto de vista, que é o da extrema-direita israelense (religiosa ou não), qualquer concessão territorial, qualquer acordo com os árabes equivale a trair uma determinação sagrada. É impensável. Essa convicção fanática explica o sorriso tranqüilo do jovem terrorista judeu que assassinou Yitzhak Rabin, estampado nas telas de televisão em todo o mundo: ele não se julga um criminoso, mas um instrumento da justiça divina.

Já conceber Israel como um Estado de judeus abre uma série de alternativas interessantes, pluralistas e democráticas. Se encarado como um Estado qualquer, laico, livre do mandato divino, Israel pode conviver, perfeitamente, com a idéia de que terá que negociar com os seus cidadãos palestinos e com os seus vizinhos árabes para sobreviver em paz. Isso implica também fazer concessões territoriais e renunciar, ao menos no plano da política institucional, à idéia de serem os judeus eleitos de Deus. É, enfim, o caminho da interlocução.

(…) Os judeus, em particular, têm colocado diante de si um gravíssimo desafio, face ao qual a consciência é, necessariamente, obrigada a se manifestar. O Estado de Israel da bomba étnica, o Estado de Binyamin Netanyahu nada tem a ver com a tradição judaica melhor representada por gente como Sigmund Freud, Hannah Arendt, Albert Einstein, Baruch Spinoza, Karl Marx, Leon Trotsky, Walter Benjamin, Franz Kafka e tantos, tantos outros que com seu trabalho, suas idéias e sua coragem dignificaram o estatuto do humano. É chegado o momento de, em nome dessa tradição, novamente derrotar Adolf Hitler… antes que seja tarde demais."

Portanto, não apenas o repórter não é anti-semita, como assume uma identidade com uma determinada linhagem de intelectuais semitas e, em nome dessa identidade, opõe-se a determinadas políticas do Estado de Israel.

Milman esconde essas afirmações, para chegar à conclusão ridícula de que Caros Amigos (não apenas o repórter, mas toda a Caros Amigos) é anti-semita! Não vale a pena responder a tamanho disparate.

Finalmente, Milman não se refere às afirmações que faço quanto aos vínculos do Estado de Israel com o regime do apartheid, nem com outras ditaduras como a de Pinochet. Ou será que isso também é "anti-semitismo", "nazismo disfarçado" etc.?

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