Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Diário de classe de um professor de Jornalismo

Por lgarcia em 03/04/2002 na edição 166

QUALIDADE DO ENSINO

Wellington Pereira (*)

1? Parte. Viagem em torno da sala de aula

Os diários de classe, como a vida, são portadores de signos, marcas de tinta, anotações nervosas, presenças e ausências.

Um diário de classe é a soma aritmética das infinitas notas, sob as quais guardamos as perdas e recuperações das memórias no exercício sonoro das reflexões.

As rasuras num diário de classe transformam-no em diário de bordo, pois constituem índices das viagens do professor pelos mares abissais dos imaginários sociais.

Nas viagens, o diário é aberto com todas as cartografias, apontando ventos transformados em significados, luzes em símbolos e, na maioria das vezes, as constelações do mundo. Tudo isto perfazendo um dos mais importantes exercícios da cultura ocidental: a aula.

A aula é um ritual de apreensão do significado das coisas, mas também a recriação de conceitos, a invenção de novos mundos. É uma viagem que não pode ser construída em sentido unilateral, mas deve ser planejada para que a pluralidade das vozes ponha em circulação os conceitos.

O tempo da sala de aula se conjuga nas formas sociais. Neste sentido, as avaliações são pontos de partida, portos a serem alcançados em futuros longínquos, sem as pedagogias do erro que impedem a navegação das inteligências.

Mas se a aula exige todo este esforço de compreensão, antes mesmo de ser ministrada, o que devemos ensinar? Em primeiro lugar, que todo conhecimento é engendrado na vida cotidiana. Portanto, as teorias, as equações, os sistemas, os procedimentos metodológicos, as ideologias não são maiores do que a arte de viver. Em segundo lugar, todo conhecimento é um bem social e pertence a todos os cidadãos, independente de classe social, religião ou etnia.

Na sala de aula, aprendemos que as formas do conhecimento se apresentam diferentemente uma das outras. Neste caso, para ensinar os cálculos matemáticos, a métrica dos versos, os sons, as imagens é preciso organizar conteúdos e formas. Assim, estabelecemos uma viagem através dos métodos, os caminhos responsáveis pela "pavimentação das estradas do intelecto".

O método é aquilo que nos aproxima dos objetos, quer sejam a estrela, a frase balbuciada na Idade Média, quer sejam as informações televisuais ou os versos produzidos por um compositor popular.

Mas os métodos estão na vida. Então, por que precisamos da sala- de- aula, se cada um pode construir seu próprio método? Porque a sala de aula é o espaço onde os métodos são testados e verificados de acordo com as possibilidades de democratização do conhecimento. Por isto, o diário de bordo, desculpe, o diário de classe de um professor não serve apenas para anotar presenças e ausências, mas registrar os caminhos (métodos) adequados para chegarmos aos objetos estudados.

O professor pode registrar as formas da vida, a partir de uma única metodologia? Não! Porque o amor, a liberdade, o prazer, os sonhos, o devaneio, o nome dos fenômenos naturais exigem metodologias diversas. E o diário de classe não é um livro de certezas.

2? Parte. O ensino de Jornalismo: a geléia do hermeneuta e a biruta do filósofo

Os métodos são importantes para que o professor perceba as diferenças entre as ciências e as sua técnicas, das técnicas ou de suas explicações científicas.

Um dos diários de classe mais difíceis de preencher, do ponto de vista pedagógico, é o diário do professor de Jornalismo. Por quê? Porque há sempre algumas dicotomias a serem consideradas. Quais? A primeira é que o ensino de Jornalismo não é apenas a aplicação das técnicas de construção da notícia, a categorização dos níveis da informação ou a classificação de gêneros jornalísticos. A segunda: o jornalismo como técnica discursiva se legitima através de métodos científicos, e o jornalismo de vulgarização científica se legitima a partir das técnicas discursivas. Ou seja, o jornalismo é científico, pois mesmo que em alguns textos prevaleça o aspecto anunciativo, o jornalista acaba se apropriando dos métodos de outras ciências e adequando-os à lógica informacional.

Os professores de Jornalismo, desde o Decreto-Lei n? 5.480, de 13 de maio de 1943 [IV Semana de Estudos de Jornalismo, São Paulo, SP, ECA, USP, 1972, 244P], que deu fundamentação legal à criação dos cursos de Jornalismo no Brasil, sempre se esforçaram para aproximar o ensino das técnicas jornalísticas das reflexões filosóficas, sociológicas e antropológicas.

O relatório da IV Semana de Estudos de Jornalismo promovida pela Universidade de São Paulo (USP), em 1972, procurou enfatizar que a habilitação de Jornalismo deveria capacitar os jornalistas para interpretar os fatos considerando: 1) aspectos fenomenológicos; 2) manejo adequado das linguagens e das práticas que aperfeiçoam sua expressão; 3) interpretação das culturas [idem].

Evidentemente que o processo de consolidação do ensino de Jornalismo percorreu um longo caminho, desde a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, pelo Decreto-Lei n? 972, de 17 de outubro de 1969, até as tentativas de "precarização" da profissão de jornalista.

A sistematização do processo informativo através da imprensa estabeleceu, em nosso país, um violento conflito entre práticas jornalísticas distintas. De um lado, as formas arcaicas do latifúndio, hoje travestidas de globalização, tentando empregar os avanços tecnológicos para vender informações, mas sempre favorecendo os sistemas totalitários. De outro, patrões das empresas de comunicação, vendendo informações no ritmo fragmentado da sociedade pós-moderna, mas seguindo os princípios do autoritarismo informacional: a manipulação de conteúdos.

O ensino de Jornalismo deve se configurar, em meio às práticas técnico-empresariais, como exercício didático-pedagógico que deve resolver problemas técnicos e epistemológicos. Em geral, contraditoriamente, o "jornalista-técnico" e o professor de "técnicas jornalísticas" estão mais próximos da doxa, do conhecimento produzido através das experiências pessoais. Nada contra! Desde que não se propague o preconceito contra a sistematização dos saberes, a episteme, o que dificultaria a compreensão dos fatos sociais.

Os cursos de Jornalismo precisam superar este conflito maniqueísta entre a prática e a teoria, demonstrando que o ensino de Jornalismo se legitima a partir de práticas sociais que exigem mais do que o domínio das técnicas discursivas, pois se faz necessário, sobretudo, entender que os fenômenos sociais se renovam, não apenas no sentido da reestruturação do tempo social, mas da recriação de novas cadeias semânticas para facilitar a compreensão dos fatos sociais.

O diário de classe de um professor de Jornalismo, no espaço referente ao registro das aulas, não deve ser "preenchido" com teorias que sejam ineficazes ao campo jornalístico, mas com procedimentos pedagógicos capazes de ampliar a construção da informação jornalística [o termo campo jornalístico, aqui, se aplica de acordo com a visão de Nelson Traquina, em seu livro O estudo do Jornalismo no século XX: (…) "concebido o termo campo jornalístico como o conjunto de relações entre agentes especializados na elaboração de um produto específico conhecido como a informação", P. 20].

Mas a noção de campo jornalístico também pode ser ampliada a partir da observação feita por Pierre Bourdieu:


"O campo jornalístico constituiu-se como tal, no século 19, em torno da oposição entre os jornais que ofereciam antes de tudo noticias, de preferência sensacionais, ou melhor, sensacionalistas, e jornais que propunham análises e comentários, aplicados em marcar sua distinção com relação aos primeiros afirmando abertamente valores de objetividade (…) Como o campo literário ou artístico, o campo jornalístico é então o lugar de uma lógica específica, propriamente cultural, que se impõe aos jornalistas através das restrições e dos controles cruzados que eles impõem uns aos outros e cujo respeito (por vezes designado como deontologia) funda as reputações de honorabilidade profissional (…)". [Bourdieu, Pierre, Sobre a Televisão. Tradução: Maria Lúcia Machado, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997]


A partir destas considerações sobre o campo jornalístico, podemos perceber que o ensino de Jornalismo pode significar a legitimação de um projeto pedagógico capaz de fornecer ao futuro jornalista condições para ler os signos sociais, ora através da restrição dos códigos lingüísticos que constituem a linguagem jornalística, ora ampliando a capacidade de aplicar procedimentos metodológicos pertencentes a outros campos do conhecimento para interpretar os fatos sociais.

O caráter do ensino de Jornalismo é sempre epistemológico, porque nos ajuda a perceber as relações existentes entre as formas sociais distintas.

Ao reconhecer que a difusão da informação, a partir dos jornais impressos, das revistas, do rádio ou da TV exige cada vez mais solidez na interpretação e construção dos relatos jornalísticos, considerar que a formação acadêmica para o exercício da profissão de jornalista não é importante significa se distanciar da realidade ou falsear a vida cotidiana.

Ensinar Jornalismo não deve se limitar ao "repasse" das técnicas redacionais, mas demonstrar como as correntes filosóficas explicam a reordenação e conceituação dos fenômenos socioculturais.

Os professores de Jornalismo, os mais técnicos entre os teóricos ou os mais teóricos entre os mais técnicos, devem procurar associar ao ensino das técnicas jornalísticas o domínio das metodologias das ciências humanas, das categorias estéticas, a partir de textos filosóficos, utilizando os conteúdos disciplinares para o entendimento das diferenças socioculturais dos povos. Se isto não for possível, perderemos a razão, como o filósofo que não sabe explicar a função da biruta nos aeroportos, e o hermeneuta tentando decifrar o gosto da geléia, cujo rótulo não tinha indicação de sabor. Portanto, é preciso respeitar as especificidades do campo jornalístico, mas promover a idéia de que o jornalista, antes de produzir informação, deve saber ler o que dizem os atores sociais.

3? Parte. O porquê de uma escola para jornalistas

O jornalismo na sociedade contemporânea não se limita apenas a reportar, anunciar ou denunciar os fatos. Por isso, faz-se necessário uma formação acadêmica para que ele não seja traído pelo fluxo de informação, renovado a cada segundo pelo tempo da sociedade de consumo.

A partir dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, percebeu-se que o mundo não é regido apenas por leis econômicas. Nesse momento, um sentimento trágico passou a ser veiculado pelas mídias do mundo inteiro.

As câmeras da CNN, rede americana de TV, instaladas em pontos estratégicos da cidade de Nova York, reproduziram o fato, mas não houve interpretações. Novamente, na cobertura jornalística, prevaleceu a opinião dos poderosos patrões ocidentais que anunciaram um novo Apocalipse.

Os telejornais, semanas depois dos atentados, ainda demonstravam total ignorância sobre o Islã e todo o povo muçulmano. Misturaram os signos de uma cultura milenar, de uma religião rica, semanticamente, aos atos de terroristas profissionais. Mataram a cultura de vários povos com a idéia, talvez mal traduzida do Oriente, de que uma imagem vale mais do que mil palavras.

Pode uma escola de Jornalismo nos ajudar a compreender como a manipulação de conteúdos faz parte de uma estratégia de dominação dos imaginários sociais? Como? Através de uma leitura crítica da mídia ou de uma pedagogia dos meios de comunicação. Mas isto é ensino de Jornalismo? Claro! Porque assim podemos entender as nuanças do jornalismo industrializado.

O jornalismo industrializado se configura na produção de mercadorias em tempo continuo. Ele se afirma nos paises de economia periférica vendendo espetáculos ou veiculando denúncias que, na maioria das vezes, só contribuem para a negação do Estado.

A lógica do jornalismo industrializado é unificar as estratégias de consumo e mecanismos de reprodução da realidade.

Na escola de Jornalismo podemos compreender que vender informações é diferente de realizar uma leitura dos processos sociais. Mas o jornalista trabalha para uma empresa? Bom, caso ele tenha recebido uma boa formação, o mínimo que faz é verificar, analiticamente, os fatos e a historicidade que os une. Neste caso, a escola pode demonstrar que as técnicas utilizadas na construção da informação jornalística pertencem a um tempo histórico e são orientadas por ideologias.

Na criação de um Curso de Jornalismo, o compromisso sociocultural deve ser enfatizado, porque na verdade existem o professor-jornalista e o jornalista-professor, ambos fazendo parte de um processo dialético que foge aos cânones do conhecimento-regulação, como nos explica Boaventura de Souza Santos:


"No projeto da modernidade podemos distinguir duas formas de conhecimento: o conhecimento-regulação, cujo ponto de ignorância se designa por caos e cujo ponto de saber se designa por ordem, e o conhecimento-emancipação, cujo ponto de ignorância se designa por colonialismo e cujo ponto de saber se designa por solidariedade." [Santos, Boaventura de Sousa,? A crítica da razão indolente ? contra o desperdício da experiência, São Paulo, Cortez, 2000]


No ensino de Jornalismo, o conhecimento-regulação se legitima quando as técnicas são exercitadas sem procedimentos pedagógicos que possam diminuir a distância entre os cidadãos e os fenômenos sociais. Esta deve ser uma das principais funções das escolas de Jornalismo. No mais, é refletir sobre as palavras do educador Paulo Freire, em sua luta contra a opressão, sobretudo aquela gerada por conteúdos que descontextualizam a vida e o diário de classe:


"A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres vazios a quem o mundo encha de conteúdos; não pode basear-se numa consciência especializada, mecanisticamente compartimentada, mas nos homens como corpos conscientes e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo." [Freire, Paulo, Pedagogia do Oprimido, 10? edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981]


Esperamos que, nas escolas de Jornalismo, a técnica não sufoque as sensibilidades.

(*) Doutor em Sociologia, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba

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