Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > A GUERRA (1914-1918)

Distanciamento e jornalismo de reflexão

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

A GUERRA (1914-1918)

A Guerra (1914-1918), de Julio Mesquita, 4 volumes e em CD-Rom, co-edição O Estado de S.Paulo/Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2002; <www.terceironome.com.br>, telefone (11) 3483-0333

Durante quatro anos ? de agosto de 1914 a outubro de 1918 ? o jornalista Julio Mesquita escreveu uma análise semanal, ao mesmo tempo jornalística e reflexiva, sobre o desenrolar da Primeira Guerra Mundial. Julio Mesquita, primeiro diretor do jornal O Estado de S.Paulo, é o cronista que vê a guerra de longe, distante do palco do conflito. Mas, exatamente por vê-la de longe, consegue mostrá-la com a exatidão e a isenção que só o distanciamento permite.

Quando a guerra estourou, o desafio de informar e, principalmente, explicá-la aos leitores do jornal foi assumido por ele. Suas crônicas, reencontradas recentemente durante uma pesquisa para escrever a história do Estado, formam o único documento brasileiro ? e um dos poucos em língua portuguesa ? sobre o fato mais importante do início do século 20, com repercussões que até hoje vivenciamos.

A edição é assinada por Ruy Mesquita Filho, bisneto de Julio Mesquita, com edição executiva de Mary Lou Paris, responsável pela Terceiro Nome, com a participação dos jornalistas Fernando Portela e José Alfredo Vidigal Pontes. Cada ano da guerra traz um texto sobre o conflito naquele ano, assinado pelo historiador Fortunato Pastore. O jornalista e escritor Gilles Lapouge, correspondente do Estado em Paris, assina um texto sobre a importância das crônicas de Mesquita. O jornalista Napoleão Sabóia, também correspondente do jornal em Paris, escreve sobre a evolução da fotografia durante o período, e o historiador Jorge Caldeira sobre o papel de Julio Mesquita na história do jornalismo brasileiro. As legendas são de Antonio Buarque Ferreira.

O projeto gráfico do livro é de Diana Mindlin; a versão eletrônica (CD-Rom e adequação para o portal do Estado, <www.estado.com.br>) foi desenvolvida pela Tempodesign e Desenho Gráfico, de Ricardo Van Steen e Arthur Lescher.

O projeto contou com o apoio do Ministério da Cultura por meio da Lei Rouanet, e com o patrocínio da Camargo Corrêa, do Itaú, da Petrobras e da Unip (Universidade Paulista). Parte dos exemplares será doada a bibliotecas e instituições de ensino, mas também será possível comprar o livro e o CD-Rom nas livrarias.

A seguir, alguns dos textos que constam da obra. Primeiro, o prefácio de Ruy Mesquita Filho. Nas páginas seguintes, os artigos de Gilles Lapouge e Jorge Caldeira.

 

Ruy Mesquita Filho (*)


Descendo de modestíssimas famílias transmontanas que, com certeza, nunca puseram os pés plebeus nas escadas de mármore e nos tapetes vistosos e fofos dos suntuosos paços dos reis, em Lisboa. Os meus antepassados viveram e morreram esquecidos na longínqua província, talvez de enxada em punho, desde a madrugada até a noite, ao vento e à chuva, ao sol e à neve, cavando desesperadamente os seios ingratos da terra madrasta, por não morrerem de fome e por não se verem na dura necessidade de transmitir aos netos uma nódoa infamante. Julio Mesquita


Nove décadas. Este é o espaço que nos separa do começo dessa história, a primeira grande conflagração mundial, quando foram mobilizados cerca de 65 milhões de homens; onde morreram 8 milhões; e outros 21 milhões ficaram mutilados.

Tudo isso em nome da liberdade, de um mundo novo. Foi nessa época que começaram a desmoronar os grandes impérios coloniais e que o desenho do mapa geográfico da Europa ficou mais ou menos como o conhecemos hoje. No final, apesar da vitória dos países que lutaram por um mundo livre e democrático, a Europa mergulhou no obscurantismo com o advento do comunismo soviético e de todos os ismos que foram surgindo para combatê-lo: salazarismo, franquismo, fascismo, nazismo. Só muito depois, nos anos 80, com a queda do Muro de Berlim, é que a Europa conseguiria livrar-se de todos esses males.

O assunto do jornalista Julio Mesquita é, justamente, o começo de tudo isso, o que se convencionou chamar de Primeira Guerra Mundial. Entre outras análises quase premonitórias, ele prevê a Revolução Russa, a derrota da Alemanha, o surgimento do nazismo e a Segunda Guerra, pois, como disse, "este conflito não termina agora". Julio Mesquita era um democrata convicto, não era de concessões, apresentava-se sempre como um inimigo feroz do militarismo. Como o leitor verá, tinha um estilo claro, leve, preciso, recheado de sofisticadas referências culturais. Seus artigos sobre a Grande Guerra, que saíam todas as segundas-feiras, continham a "carta geográfica" do conflito, iam da América do Sul ao Oriente Médio, além de acrescentar aos comentários sobre as batalhas informações sobre a diplomacia, a cultura, a história, ou mesmo sobre temas pouco explorados, como a "propaganda", por exemplo. Na verdade foi o único jornal brasileiro que soube dar a verdadeira dimensão do conflito que tanto o horrorizou. Durante todos aqueles anos, nunca deixou de demonstrar seus pensamentos, que por si só bastariam para outro livro.

Era rara a semana em que ele não abria um parêntese onde expressava suas convicções, que nos norteiam até hoje, para fazer seus comentários sobre as atrocidades daquela guerra, que pela primeira vez tomava uma proporção jamais vista pelo homem, e que tanto o afligia. Para facilitar a compreensão do leitor, vamos destacar (durante todo o trabalho) esses trechos.

A Primeira Guerra foi uma catástrofe. Os mortos, em sua grande maioria, eram jovens cuja falta teve profundas conseqüências, principalmente na Europa. O número de viúvas chegava a centenas de milhares. Os homens que se salvaram voltaram marcados para sempre pelo que tinham passado, estavam destruídos, física ou moralmente.

A Guerra também destruiu as bases monetárias e a estabilidade econômica, já que os governos acumularam dívidas enormes para custeá-la. Nada disso escapava dos comentários do jornalista, que tinha uma visão global do conflito, ao contrário de seus colegas europeus que só se preocupavam com a guerra de seus respectivos países, como acontecia, na verdade, com os exércitos: não havia uma coordenação, o que só acontece no final.

Gilles Lapouge, filho de um combatente, e que prefacia este trabalho, foi quem melhor definiu a obra de Julio Mesquita, quando decidimos enfrentar esta empreitada:


"Bem entendido, o jornalista que viveu em 1914 tinha, da guerra (uma guerra enorme, complexa, monstruosa), uma visão mais elaborada, mais fluida que a que nós podemos ter hoje, depois de cinqüenta anos de estudos do mais alto nível. Em compensação, o jornalista restitui dois elementos essenciais: de uma parte, o frescor da sensação (o espanto, o pavor, o nojo, o entusiasmo diante de um determinado episódio). Julio não sabia como ‘seria a continuação do romance’, e nós, no nosso século XXI, conhecemos o final. Em resumo, Julio leu o romance pela primeira vez e, cada noite, quando ele fecha o livro, ele ignora o que lerá no capítulo seguinte. Nós, ao contrário, no século XXI, nós relemos a Guerra pela segunda ou pela décima segunda vez, pois nós já sabemos como cada capítulo se conclui."


Algumas, poucas, de suas informações contêm pequenas incorreções, justificadas hoje pela extrema dificuldade em obtê-las, pela precariedade dos serviços telegráficos da época e mesmo das agências de notícias, que, além de sofrerem uma forte censura, não primavam pela objetividade. Era preciso saber decifrar ou interpretar o que chegava, e isso só um profundo conhecedor dos problemas do mundo, da época, como ele, poderia fazer, ou seja, dar a real dimensão do que estava acontecendo. Ele sabia, porém, que podia estar cometendo erros de avaliação, justamente pelo fato de não poder contar com a precisão das informações que recebia e pela distância física que o separava do centro dos acontecimentos.

A idéia de publicarmos seus relatos e comentários sobre a Primeira Guerra, cobrindo quatro anos e alguns meses de trabalho, surgiu no momento em que iniciamos a pesquisa para a edição de um livro sobre a história do jornal O Estado de S. Paulo. É um material que não poderia continuar nos nossos arquivos, inédito diante da História. Tinha mesmo de ser divulgado.

O projeto de editar os quatro volumes, por outro lado, também não é original. Em 1920, um grupo de amigos de Julio Mesquita resolve homenageá-lo publicando, à sua revelia, um livro com as crônicas do primeiro ano da guerra. A intenção era editar mais três volumes. O homenageado, no entanto, homem despido de qualquer vaidade, avesso a promoções pessoais, abortou a seqüência do projeto.

Resgatamos a idéia, fomos para o arquivo onde, para nossa surpresa, encontramos cinco exemplares daquele primeiro volume. Em seguida fomos atrás das antigas edições. A obra foi recomposta: a história do dia-a-dia da Primeira Guerra Mundial, vista por um jornal brasileiro. Finalmente, nove décadas depois, aquela homenagem é prestada, com a publicação do trabalho na íntegra, como queriam seus antigos companheiros.

(*) Jornalista, diretor de redação do Jornal da Tarde

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