Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS

Dois pesos e duas medidas. Por quê?

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS

Carlos Eduardo Pestana Magalhes (*)

A suspensão da ONG Repórteres Sem Fronteira (RSF) da Comissão de Direitos Humanos da ONU tem causado alguma discussão e surpresa no Brasil. Especialmente pelo fato de o país ter votado a favor da saída da RFS, junto com mais 27 países ? contra, votaram 23, e houve 4 abstenções.

O jornalista Cláudio Julio Tognolli, na matéria “Um tiro no pé da brasilidade”, publicada neste Observatório [remissão abaixo], não gostou da atitude do Itamarati.


“O voto do Brasil pela punição da RSF foi um tiro dado no próprio pé da política externa brasileira … Somos filhos espirituais da contra-reforma católica: que se mandem à fogueira os homens da RFS porque deles é a culpa de lastrearem, como bons jornalistas que são, violações de direitos humanos e de direito à informação, inclusive de processos judiciais que acabam gerando, diretamente, essas 97 petições que correm contra o Brasil na OEA”.


Seria perfeito tudo isso, se não fosse por uma coisa. Independentemente de se apoiar ou não a atitude brasileira, cabe a seguinte discussão a respeito do papel da RSF: se toda denúncia ? prisão de jornalistas, restrições à liberdade de imprensa, maus tratos, prisões injustas, censura, manipulação da informação etc. ? que a ONG tem feito contra Cuba e Líbia é justa e necessária, por que não fez a mesma coisa, com a mesma intensidade e clareza, contra a imprensa e o governo norte-americanos, por ocasião da invasão do Iraque?

Salvo o episódio do assassinato de dois jornalistas no Hotel Palestine, em Bagdá, por tropas americanas, as denúncias contra a manipulação e o controle das informações pela imprensa dos EUA e a censura imposta pelas forças armadas aos veículos não tiveram o mesmo peso que as queixas contra Cuba e Líbia. Não houve manifestações frente às embaixadas americanas em Paris, Londres ou em Brasília, por exemplo.

O estranho de tudo isso é que a RSF tem sido acusada de receber dinheiro da inteligência americana; Cuba e Líbia são inimigos históricos dos governos americanos ? e não é uma questão de defesa dos dois países. A RSF não usou todo o seu peso político na denúncia das fraudes e mentiras que foram publicadas em vários veículos de imprensa dos EUA antes e durante a guerra, na utilização da mídia como agência de propaganda por parte do governo Bush, na censura praticada pelas forças armadas americanas, na utilização de imagens da guerra sempre em proveito dos exércitos ianques e britânicos ? alvo de denúncia da entidade americana de defesa dos direitos humanos Human Right Watch ? etc.

Parece que para RSF há “dois pesos, duas medidas”. Por quê? Não caberia um questionamento sobre esse fato, também?

(*) Jornalista

Leia também

Um tiro no pé da brasilidade ? Cláudio Julio Tognolli

 

Os argumentos do colega são irrespondíveis quando ele sustenta que “o estranho de tudo isso é que a RSF tem sido acusada de receber dinheiro da inteligência americana”. Caro colega: o artigo escrito por este observador se baseia em números ? variegados, aliás ?, não na porta larga do “ouvi falar”, que é a base de sustentação de vossas linhas. Por favor, mostre provas de que RSF come na mão do governo americano. Aí, então, entramos no mundo da razão. O que peço é o mesmo que meio mundo pediu, esses meses, a Bush e a Blair: por favor, mostre as provas. Caso contrário, trocaremos a razão argumentativa pelo “liberou geral”, que é aliás o substrato que embasa tua argumentação.

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