Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÃO 2002

Dora Kramer

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

ELEIÇÃO 2002

"O eleitor, este eterno perdedor", copyright Jornal do Brasil, 11/12/01

O Brasil está indo para a quarta eleição direta da era pós-redemocratização sem que a imprensa tenha encontrado uma forma eficiente de relatar o que se passa nas campanhas, os pensamentos dos candidatos e o comportamento do eleitor. Depois da descoberta das pesquisas dos marqueteiros e das alegorias das declarações de impacto de candidatos, ficamos dispensados de usar a cabeça. Principalmente a parte de dentro, na qual o ideal é que haja inteligência.

E, de preferência, cultivada com carinho, esforço e empenho solitário e coletivo. O problema é que seu uso implica o risco do erro, o que torna bem mais fácil a padronização dos trabalhos, tanto da parte dos veículos quanto no que diz respeito aos profissionais encarregados de transmitir a informação eleitoral.

Esta, hoje, muito mais preocupada em mostrar como cada candidato pretende, tática e estrategicamente, se sobrepujar ao outro, do que em desvendar e pôr à prova razões e capacidades para governar. O exemplo, gasto, mas inevitável por clássico, foi o da eleição de Fernando Collor de Mello.

Péssimo prefeito de Maceió – em cujo currículo havia 5.000 contratações feitas nos últimos dias de mandato -, sofrível governador de Alagoas – entre outros motivos por ter falido o Estado com um acordo pelo qual os usineiros estavam dispensados de pagar ICMS até sobre mercadorias vendidas em butiques de suas filhas – Collor foi tratado pelos meios de comunicação como um ”fenômeno”.

De quê, de competência administrativa ou política? Não, de desempenho nas pesquisas. Tudo o que dele se dizia no Estado era atribuído à ação dos adversários, do coronelato, morto de medo daquele moderníssimo espécime de paladino da moralidade. A partir de abril de 1989, quando Collor efetivamente deslanchou nas pesquisas, aí mesmo é que não se aprofundou mais nada.

Discutia-se, no máximo, primeiro, os nomes daqueles que iam aderindo por gravidade – buraco em que por um triz não se enfiou o PSDB – e depois os personagens que eventualmente fariam parte do governo. Tanto não houve inteligência para somar A com B nos meios e modos das contradições do ”fenômeno” que, no dia seguinte à eleição, pegou todos de surpresa com um confisco de fazer corar argentino.

Na era Fernando Henrique debateu-se um tema só, que era a derrubada da inflação. Importantísssimo, mas quem não prestou atenção nem questionou o significado – aqui de juízo de valor – de uma aliança com o PFL, perdeu o direito depois de ficar dizendo-se decepcionado com as concessões da socialdemocracia aos liberais pefelistas. Pressupunham o quê, que o acordo teria mão única?

Sobre Luiz Inácio Lula da Silva ocorre o mesmo. Há 12 anos ele muda de posições a cada campanha – tentando ampliar o eleitorado – e o que continua se discutindo é se sua força de largada nas pesquisas é suficiente para garantir a vitória na reta de chegada. Tanto que a opção do partido para que fosse mais uma vez candidato baseou-se nos tais 30% e, não, na capacidade de despertar no eleitorado a confiança de que ali há um governante competente, avançado e coerente.

A suspeita é a de que não há, porque pelas declarações que produz e pelas admirações mundiais que exibe, ainda tem concepções com prazo de validade há muito vencido. Mas não se pode questionar muito Lula, sem correr o risco da acusação de governismo explícito. Por isso, segue ele à vontade em seu simbolismo de lutas passadas, sem que o eleitor saiba direito, afinal de contas, o que significa eleger Lula.

Justiça seja feita, também não sabe direito por que eleger Ciro Gomes ou Itamar Franco – a não ser pelo horror que ambos nutrem por FH -, Anthony Garotinho – pleno de promessas, carente de comprovações -, Roseana Sarney – até agora bem-sucedida pelo fato de ser mulher -, ou mesmo um candidato tucano, a não ser pelo risco menor de mudanças bruscas no rumo do país.

E não há muito jeito, a não ser atribuir essa responsabilidade a nós, que trabalhamos com informação, mas tratamos o eleitor como percentual de pesquisa ou pilotos de provas de marqueteiros. Não foi uma nem duas vezes neste país em que, quando se arriscou a investir na reportagem, elas apresentavam realidades inteiramente diferentes daquelas antecipadas pelas pesquisas.

A vitória de Maria Luiza Fontenelle para a Prefeitura de Fortaleza é um exemplo. Como este, há inúmeros. Só que quando acontece, a tendência é culpar os institutos por erro, o candidato vencedor por fraude ou o eleitor por produzir o imponderável.

Este, pobre criatura, continua desinformado, votando ao sabor das circunstâncias locais ou da impressão – em geral falsa – que o candidato causa nos horários gratuitos de televisão. Não recebe sequer uma única proposta de debate a respeito da obrigatoriedade do voto, assim como também ninguém lhe explica o que muda em sua vida o voto distrital ou a fidelidade partidária. Está tão alijado dessa discussão quanto distante dos critérios que deveriam valer numa eleição."

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