Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO FITEIRO

Dora Kramer

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

JORNALISMO FITEIRO

“De cachimbos e bocas tortas”, copyright O Estado de São Paulo, 4/02/03

“O episódio da gravação, e divulgação da fita, da reunião do ministro Antônio Palocci com a bancada de deputados federais do PT na semana passada foi de um reconfortante didatismo.

É fato que nunca se viu o PT, institucionalmente falando, recorrer ao expediente do grampo. Mas é verdade também que cansamos de ouvir petistas defendendo a utilização do meio para justificar a necessidade do fim: o direito da sociedade à informação.

Quando na oposição, não foi uma nem duas vezes que gente do PT se valeu de gravações para sustentar denúncias contra adversários políticos e, não raro, criar situações artificiais embasadas em frases truncadas que levavam a suposições dúbias.

Para sorte do governo, o ministro da Fazenda não tem nada a esconder: disse numa reunião reservada exatamente o que vem dizendo em público. Portanto, o problema aqui não foi de conteúdo. A gravidade reside, antes, na forma.

E esta é que desde há muito, quando a confecção de dossiês e a operação de fitas magnéticas passaram, com a conivência da imprensa, a ser instrumento de suposto aperfeiçoamento ético do poder público, precisa de uma discussão franca, despida de farisaísmo e corporativismo.

As tentativas feitas até agora foram sempre apontadas como ações para acobertar malfeitores quando, na realidade, buscavam apenas a defesa do direito constitucional à privacidade e a observância da lei que proíbe gravações sem autorização da Justiça ou o conhecimento do alvo.

Agora a indignação, muito justamente, toma conta do governo e da direção do PT. Cobram-se punições que, segundo o presidente nacional do partido, José Genoino, podem chegar à expulsão, caso fique comprovado que o autor, ou autora, da gravação foi um integrante da legenda.

Genoino aventa também a possibilidade de o gravador ter sido posto na sala de reuniões sem o conhecimento de ninguém ou até de ter havido um acerto com quem, naquele momento, operava o sistema de som da Câmara. Seja o que for, teve o mérito de expor a evidência de que madeira que bate em Chico bate também em Francisco. Urge, portanto, que se abandone – políticos e jornalistas – o uso dessa prática disseminada, festejada e nefasta, por incompatível com o exercício da democracia.

O recurso ao ilícito não se justifica sob hipótese alguma. Até por não ter como resultado revelações graves nem constrangedoras, o caso presente é ainda mais ilustrativo do quão agressivo ao instituto da confiança entre seres humanos é o uso de expedientes sorrateiros.

Ontem os alvos foram diversos integrantes do governo Fernando Henrique; hoje são deputados do PT e um ministro da administração Luiz Inácio Lula da Silva. Amanhã, pode ser qualquer um de nós que trabalhamos com informação.

Uma hora apresenta-se a razão do depuramento ético, outra recorre-se à alegação da transparência e sempre há, do lado de cá, a questão da concorrência. Se um veículo não publica determinado material que lhe é oferecido ou por ele produzido, haverá com certeza quem o faça.

E assim continuará sendo enquanto algum fato extremamente grave e lesivo aos preceitos democráticos, incluindo a liberdade de expressão, não introjetar definitivamente na consciência geral o princípio de que não há sociedade civilizada que se sustente sob o signo do vale-tudo.

Ou seguimos todos, e ao mesmo tempo, o fundamento básico do respeito ao próximo, ou assumimos de vez que transparência de métodos e conduta é valor de caráter meramente simbólico. Cobrança que só se faz da boca e da porta de casa para fora. E sem direito a reclamação quando a recíproca não se configurar verdadeira.

De castigo Oficialmente, o PT não instalará processo de investigação para saber quem foi o responsável pela gravação na reunião com Palocci.

Na prática, porém, a bancada petista teve suspensos seus direitos de pedir audiências coletivas a integrantes do governo até que se esclareça devidamente o caso.

A avaliação é a de que não será difícil chegar rápido a um desfecho, dada a limitada amplitude do universo de possibilidades.

Tiro no pé Ao agradecer, em plena sessão da Câmara, o ?empenho? do ministro da Casa Civil nas negociações para a formação das Mesas Diretoras do Congresso, o líder do PT, deputado Nelson Pellegrino, acabou confessando o inconfessável.

A alegada isenção palaciana poderia ter dormido sem essa.”

“Guerra em família”, copyright Folha de São Paulo, 4/02/03

“Em vez de ficar falando mal da imprensa e reclamando de jornalistas que criticam o amadorismo do primeiro mês do mandato de Lula, o governo deveria olhar para dentro da sua própria casa: o PT.

José Dirceu fez das tripas coração para articular uma paz interna no PMDB que permitisse a eleição de José Sarney para a presidência do Senado e do petista João Paulo Cunha para a da Câmara. Está na hora de o PMDB lulista cobrar: ?E aí? Nós seguramos os nossos radicais. Quando vocês vão segurar os seus??.

Dirceu e o presidente do PT, José Genoino, há anos se digladiam com os radicais para definir o comando partidário e os rumos petistas no Congresso e no Brasil. Mas parece que andam perdendo a guerra, agora que chegaram ao poder federal.

Jornalistas criticarem governos é o que se pode chamar de trivial. Está na essência da relação entre os dois. A mesma imprensa acusada de ?petista? pelos tucanos durante o governo FHC começa a ser chamada de ?tucana? pelos petistas. É da vida.

Muito mais divertido é: 1) Heloísa Helena não aparecer para votar em Sarney, avisando que não apóia as ?oligarquias? que o PT sempre combateu; 2) um deputado petista gravar uma reunião fechada com o ministro Palocci, como faria contra um ministro de FHC; 3) a fila de deputados e senadores que criticam desde a política econômica até a reforma da Previdência do ?seu? governo.

Petista e radical de longa tradição, o jornalista e ex-deputado Milton Temer deixou a Câmara e começou ontem um programa diário de rádio, o ?Faixa Livre?, da Bandeirante, batendo em Palocci e alisando o radical Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário). À tarde, por telefone, Temer criticou a cúpula partidária: ?O Genoino é presidente do PT e não líder do governo no Congresso!?.

Governos e jornalistas são de famílias diferentes, mas o governo Lula e o PT são da mesmíssima família. E, neste caso, não duvide: vai todo mundo meter a colher na briga de marido e mulher. Pior para Lula.”

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