Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Dos Ratinhos ao Dr. Strangelove

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

CASO TIM LOPES

José Adalberto Ribeiro (*)

Haja pieguismo na imprensa em geral ao repercutir a morte do jornalista Tim Lopes! O espetáculo continua. A tônica das abordagens é centrada no chamamento à repressão e à presença do Estado-Polícia.

Insuflar apenas a repressão e relevar a questão econômica e social faz lembrar a frase do general colonizador na África ao combater guerrilheiros: "Matem as negras buchudas porque elas vão parir guerrilheiros". Nos morros, nas favelas e nas periferias sem emprego, as mulheres buchudas continuam a parir delinqüentes, biscateiros e informantes da polícia. Os intelectuais Ratinhos e as Ratinhas de todas as classes continuam a parir candidatos a justiceiros. O comissário do povo Boris Casoy julgará os pecadores no Juízo Final a ser convocado pela Igreja Universal do comerciante da fé, Edir Macedo.

O sistema de exclusões econômicas e sociais está parindo sem parar, todos os santos dias e todas as santas noites, os sem-previdência, sem-futuro e sem-esperança. As estatísticas revelam que a mortalidade infantil diminuiu nas classes mais pobres. A mortalidade juvenil aumentou em todas as classes. Os jovens morrem de susto, de bala ou de vício. Não se diga que há impunidade para os delinqüentes pés-de-chinelo. A repressão é feroz, eles se matam entre si mesmos, são presos ou extraviados. A repressão mata hoje, eles renascem amanha. A vida é farta no mundo do crime e da pobreza. Falar em Estado paralelo da bandidagem é fantasia. O que existe é o mundo-cão da delinqüência, alastrando-se na sociedade.

A indústria da impunidade está montada para servir às elites e aos remediados. Estes, os remediados, são depenados quando cometem atos delituosos e caem nas malhas da indústria da impunidade. A indústria da impunidade não tem chaminés. Tem escritórios e gabinetes bem-equipados. (Quando será que o ex-juiz Lalau será julgado? Se for absolvido ou condenado, transitado em julgado, vão matar a galinha dos ovos de ouro. Quantos hoje estarão pendurados nas tetas do ex-juiz Lalau?).

O terrorismo maior é a estagnação econômica, é a condenação ao desemprego e à falta de perspectiva das populações. Os moradores honestos dos morros e favelas submetidos hoje à tirania dos traficantes e à repressão policial podem ser comparados aos sertanejos nordestinos no tempo do cangaço: eram dominados e massacrados pelos cangaceiros e também aterrorizados pelas volantes policiais.

O que acabou com o cangaço nordestino não foram as volantes policiais. Foi o sopro de prosperidade econômica que chegou ao sertão depois da Revolução de 1930. Quando Lampião morreu, em 1938, não deixou "herdeiros" porque o "mercado de trabalho" deixou de ser atrativo para os bandoleiros. Nos tempos atuais, só o desenvolvimento social e o emprego podem neutralizar os campos minados da delinqüência. Por mais bem-intencionados que sejam, os ativistas das ONGs e movimentos sociais estão fazendo apenas o trabalho de enxugar gelo. Sem crescimento econômico não haverá misericórdia.

Cavalgada em campo minado

Sem redenção social, o mundo criminoso será invencível, mesmo que o Estado-policial instale um quartel em cada esquina e os policiais sejam armados até os dentes com mísseis e bombas atômicas. Na verdade, o aparelho policial já funciona a contento. O que não funciona, ou funciona às avessas, é o Poder Judiciário. É mais fácil decretar o "impeachment" do presidente da República, cassar deputados e senadores, do que questionar os atos dos homens da capa preta.

O general Ernesto Geisel fechou o Congresso Nacional, cassou parlamentares, demitiu um ministro do Exército, mas não conseguiu fazer a reforma do Judiciário. Digamos que setores do Poder Executivo e do aparelho policial estejam minados pela corrupção. Os grandes caloteiros não pagam as dívidas ao Banco do Brasil. O remédio legal no Estado de Direito seria recorrer ao Judiciário para extirpar a corrupção e cobrar a dívida dos caloteiros. Você acredita que vai funcionar? Estaremos diante de um novo Absolutismo, para o bem e para o mal, nas mãos do Poder Judiciário? A violência, a delinqüência e a impunidade no Brasil passam por esses caminhos, penso eu.

Apesar dos atos de barbárie cometidos pela bandidagem, os fundamentos da liberdade de imprensa continuam sólidos, como diria o ministro Malan com seu sorriso de Monalisa. Alguns bandidos serão enjaulados ou fuzilados e tudo voltará à "normalidade" de sempre. O que poderá comprometer a liberdade de imprensa são liminares assinadas em palácios com telhados de vidro para acobertar a bandidagem de alto coturno.

No mais, a escalada da violência dos bandidos e a repressão do aparelho de Estado sugerem o "equilíbrio do terror" de que falava o personagem Dr. Strangelove nos tempos da Guerra Fria entre os impérios capitalistas dos Estados Unidos versus a "cortina de ferro" da União Soviética. O Dr. Strangelove cavalgava uma bomba atômica. A sociedade brasileira hoje cavalga num campo minado.

(*) Jornalista em Recife/Brasília

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