Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > MENTIRA DA AL-JAZIRA

E os 4 mil judeus?

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

MENTIRA DA AL-JAZIRA

Luiz Weis (*)

Quem começou com a história, ao que parece, foi o jornal Resalat, de Teerã, próximo dos setores mais radicais da teocracia iraniana.

Os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, garantiu o diário, citando "especialistas" anônimos, foram cometidos pelo Mossad, o serviço secreto israelense, para levar os Estados Unidos à guerra contra o Islã.

Pior fez a TV por satélite al-Jazira, de Doha, capital do emirado Catar, no Golfo Pérsico. A emissora anunciou que, no dia do atentado, 4 mil judeus não apareceram para trabalhar nas torres que seriam depois destruídas. Tinham sido aconselhados a ficar em casa.

O público da al-Jazira, estimado em 35 milhões de pessoas, se espalha por dezenas de países. A estação, criada em 1996, traz notícias e debates 24 horas por dia. Nenhuma outra TV é tão popular entre os árabes e maometanos em geral.

Depois da tragédia da terça-feira, tem sido cada vez mais sintonizada também nos Estados Unidos, onde o seu sinal chega às casas e escritórios de 150 mil assinantes. A população árabe-americana é de 1 milhão de pessoas.

"Sempre, sempre, sempre, a al-Jazira traz o ponto de vista árabe", explica um espectador, de origem palestina, de Fairfax, Virgínia, citado pelo New York Times. "A TV americana nunca faz isso."

Para a revista britânica The Economist, "ao apresentar conteúdos crus, em vez de pré-digeridos, o canal sem dúvida tem contribuído para as atitudes passionais que crescentemente caracterizam a resposta do público árabe aos acontecimentos".

O caso dos 4 mil judeus é prova disso. A al-Jazira divulgou a infâmia a seco, sem nenhuma ressalva do tipo "não temos como atestar a veracidade da notícia". A TV tampouco levou o ar declarações contestando o absurdo. Não se sabe se alguém foi procurado pela al-Jazira para falar do assunto.

O que se sabe é que a mentira correu todo o mundo muçulmano. "Tem sido aceita como fato por setores de opinião em países islâmicos, propagada por jornais de linha-dura, religiosos e pela internet", informa um recente despacho da agência Reuters.

Segundo uma pesquisa publicada pelo jornal libanês Al Nahar, passada uma semana dos ataques, 27% dos entrevistados os atribuíram a Osama bin Laden ? e 31% a Israel.

"No Paquistão", exemplifica a Reuters, "dezenas de cartas aos jornais perpetuaram a lenda, sem que ninguém a repudiasse ou lhe oferecesse um desmentido".

Para James Zogby, presidente do Instituto Árabe-Americano, ouvido pela agência, "essa é uma história não apenas cruel como bizarra, mas a partir do momento em que coisas assim são desencadeadas e circulam na internet, é muito difícil dissipá-las".

Faz tempo que as ciências do comportamento pesquisam por que pessoas acreditam e passam adiante rumores sem fundamento, por mais absurdos e inverossímeis que sejam.

De seu lado, conhecedores do processo de formação da opinião no mundo muçulmano dizem que ali, em especial, o homem da rua tende a aceitar as versões mais descabeladas, desde que o façam sentir-se bem e sejam coerentes com outras tantas falsidades tidas como fatos. A vida fica mais suportável e o injustificável se justifica.

E, enfim, a noção de que os judeus, na sua infinita perfídia, são capazes de tudo, já deu a volta ao mundo vezes incontáveis. Quem matou Deus e causou uma guerra mundial por que não haveria de rebentar uns prédios?

Mas os motivos por que o caso da notícia 4 mil deveria interessar aos jornalistas são outros. O episódio da calúnia em forma de notícia tem tudo para ser uma sombra o deslumbramento de muitos analistas da imprensa com a al-Jazira ? o rato da notícia que ruge contra os potentados do Oriente Médio, que alcançou notoriedade mundial com a fita em que Osama bin Laden diz a que veio, divulgada assim que começaram os bombardeios dos EUA ao Afeganistão.

A busca de independência da estatal al-Jazira ? em um ambiente político onde os únicos sabores disponíveis são ditaduras e ditabrandas, e onde jornalista serve para falar bem do autocrata de turno e mal de quem ele mandar ? chegou a ser invocada como exemplo para as libérrimas redes americanas de TV, acusadas de dobrar-se às vontades de Washington no tratamento à guerra ao terror, em geral, e a bin Laden, em particular.

"Cultura da vitimização"

É sabido que a estação de Doha tem o elogiável costume de distribuir dores de cabeça a torto e a direito na região. Ela procura fazer o bem (contar umas verdades) sem olhar a quem (essas verdades possam ser inconvenientes).

E é sabido que o jornalismo ousado da al-Jazira escandalizou os árabes pelas entrevistas com autoridades e intelectuais israelenses sobre a questão palestina. O canal quebrou um tabu histórico ? algo que nenhuma congênere egípcia se abalou a fazer, embora o Egito reconheça o Estado de Israel desde 1979.

Esse retrospecto autorizava esperar que, se a al-Jazira achasse apropriado incluir na sua pauta o que teria sido a mais extravagante e criminosa "conspiração sionista" de todos os tempos contra o Islã, seria para ridicularizar a invencionice ? como fez, quem diria, a TV do Kuwait.

Pelo que disse e pelo que deixou de dizer, portanto, a al-Jazira perdeu o direito a essa espécie de Prêmio Pulitzer moral que lhe foi concedido apressadamente por jornalistas e jornalólogos agastados com o que lhes parece ser o facciosismo submisso da imprensa americana.

Em vez de se exceder nos elogios ao canal do Catar, melhor teriam feito eles se, aproveitando o momento, denunciassem o duplo padrão com que a imprensa dos Estados Unidos e as que lhe são vassalas sempre trataram dessa catástrofe insuportável que é o morticínio recíproco de palestinos e israelenses.

Por anos a fio, o tom dominante do noticiário americano sobre a tragédia do Oriente Médio ecoou a grosseira simplificação de que Israel, sem o menor vestígio de culpa em cartório, só quer viver em paz com os seus vizinhos, e que os palestinos são uma horda de fanáticos, incapazes de reconhecer a procedência da causa daqueles a quem apenas querem eliminar.

Tantas fez e tantas aprontou Israel em seu quase ininterrupto deslizamento para a direita, desde o assassínio do primeiro-ministro Itzhak Rabin, por um bin Laden judeu, que ficou cada vez mais difícil para a imprensa americana de massa sustentar essa caricatura dos fatos.

Mesmo assim, só não verá quem não quiser que, nas TVs dos Estados Unidos, um civil israelense morto por um terrorista palestino ainda "rende" muito mais tempo e emoções do que a morte de seu contraparte palestino, em território palestino, abatido pelo exército de Israel.

Pode-se pensar o que se queira dos árabes em geral e dos palestinos em particular. Mas não se pode negar, com um grama de honestidade, que eles têm razão de se queixar dos dois pesos e das duas medidas utilizados habitualmente na cobertura do interminável conflito com os judeus.

Dono de uma padaria em Alexandria, Virgínia, o libanês-americano Sleiman Kysia, resumiu perfeitamente o problema, numa reportagem do New York Times. "A maioria dos americanos simplesmente não consegue entender a profundidade da frustração que sentimos pelo fato de nunca a imprensa daqui reconhecer o ponto de vista palestino."

A importância da al-Jazira no atual conflito levou o secretário de Estado Colin Powell e a assessora de segurança nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, a procurarem a TV para serem entrevistados. Os entrevistadores, louvados sejam, não lhes deram colher de chá.

Do mesmo modo, quando se deixou sabatinar pela emissora, ao passar por Doha, há duas semanas, o primeiro-ministro britânico Tony Blair sentiu na pele a tão falada agressividade dos seus jornalistas, quando acusou o Iraque de produzir armas químicas e bacteriológicas. "Por que é aceitável", devolveu de bate-pronto o entrevistador, "que Israel tenha armas de destruição em massa e um país árabe não?"

Quando será que a al-Jazira irá entrevistar ? com a mesma saudável contundência ? Osama bin Laden, em vez de apenas transmitir os seus pronunciamentos?

Nada supera, de qualquer forma, a difamação anti-semita que a TV levou ao ar. A sua gravidade é proporcional à penetração da emissora no mundo muçulmano e o seu malefício maior foi ter contribuído para nele perpetuar a "cultura da vitimização" ? a mãe de todos os sonhos de vingança do Islã.

(*) Jornalista

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