Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Economistas erraram feio, jornalistas mais ainda

Por lgarcia em 20/05/1999 na edição 67


SALVATORE ALBERTO CACCIOLA deu um baile – nos senadores-inquiridores e na mídia. Aproveitou seus talentos histriônicos e a bateria de holofotes montada na CPI dos Bancos para fazer exatamente tudo o que tinham feito com ele: juntou meias verdades com meias mentiras, rebateu alguns coices, lustrou tudo com o charme ítalo-carioca e devolveu o bumerangue acionado pela mídia a partir das “testemunhas” apresentadas por Veja.

Não nos interessa o caso em si. Interessa aqui apenas a leviandade de acusações infundadas montadas em “fontes” que depois se revelam suspeitas e precárias. Com este tipo de “jornalismo investigativo” qualquer malandro ganha atestado de bons antecedentes. O nome certo seria “jornalismo de canos furados”, porque baseado em vazamentos.

Reparem na última edição de Veja (nº 1598): depois de três semanas sem testemunhas-bomba, o semanário volta a atacar com informantes anônimos denunciando uma suposta rede de empresas de Cacciola no Uruguai (págs. 50-51). Pode ser verdade. Mas pode não ser. As denúncias do ex-diretor do Marka que não queria ser identificado só terão valor jornalístico ou legal se a revista tivesse despachado alguém para checá-las em Montevidéu. Mas no Brasil jornalismo investigativo não investiga, recebe dicas e manda bala.

E por que o ex-diretor do Marka não quer ser identificado? Tem culpa no cartório?

A questão das fontes suspeitas e dos vazamentos desacompanhados de investigação deveria preocupar jornalistas e editores responsáveis. A fonte não tem compromissos com a sociedade. A fonte pode estar sendo movida pelas melhores ou piores intenções. Cabe ao veículo jornalístico estabelecer a diferença. Uma denúncia só é válida quando acompanhada de evidências. Ou pelo menos de indícios.

O resto é panfletagem,

Outro dado curioso sobre o circo Cacciola na CPI: as suas críticas à mídia foram publicadas fragmentaria e seletivamente. Cacciola atacou Veja duramente – apenas O Globo publicou o ataque (14/5/99, pág. 24). Cacciola revelou que O Globo e O Dia tinham aplicações no Banco Marka, embora não exista nada de ilegal fazer aplicações no mercado de capitais. O certo seria que veículos responsáveis que costumam falar em nome da mídia publicassem essas críticas na íntegra. É o mínimo que poderiam fazer em respeito aos seus leitores.

Respeito aos leitores é romantismo. O negócio é tascar. E fazer barulho.

 

DEPOIS DE FAZER UMA SÉRIE DE BURRADAS dos dois lados do Atlântico ao longo de 30 anos, o francês Regis Debray, agitador, autor, filósofo e, ultimamente crítico de mídia, pisou na bola novamente: resolveu mostrar que a imprensa européia está errada ao apoiar os bombardeios da Otan e que Milosevic não é o que dele se diz.

Despachou-se para a Sérvia, lá ficou dez dias para mostrar os erros da imprensa européia (não confundir com a CNN e as agências de notícias americanas que comandam o nosso noticiário) e, na edição de 13/5/99 do Le Monde, publicou uma longa carta ao presidente Chirac (tentando repetir Émile Zola) instando-o a mudar sua política com relação à ex-Iugoslávia.

Para ele, Milosevic é um democrata, não fez limpeza étnica e os aviões da Otan destruíram 300 escolas. No mesmo jornal, Debray foi questionado no dia seguinte e acabou reconhecendo que não checou as informações do governo sérvio e que das 300 escolas destruídas só viu três. O Liberation chamou um grupo de profissionais para verificar as acusações de Debray (informações a partir de matéria da Folha de S.Paulo, 16/5/99, pág. 1-24).

Condenar os bombardeios da Otan e a guerra em geral é uma coisa. Ser pacifista hoje não é apenas uma questão moral, é compromisso com a sobrevivência da humanidade. Mas colocar-se a serviço de um ditador e aceitar suas informações é, no mínimo, leviano.

Acontece que Debray não é apenas um militante político. Como qualquer intelectual francês , é cartesiano, racional e “científico”. Não contente, resolveu criar uma nova ciência, a “médiologie” (em português seria midialogia) dentro da “Association pour le Développement de la Recherche en Médiologie” que edita Les Cahiers de Médiologie, do qual é diretor e já está na sua sexta edição.

Debray, na realidade, é um “media-critic”, um “media-watcher” ou, para quem não entendeu, observador da imprensa ou da mídia. A plumagem pseudo-científica vai por conta da incontrolável tentação pós-moderna para as “imposturas intelectuais” (para usar o título da obra de Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas Intelectuais, Record, 1999).

Simpatizar com Milosevic é direito seu. É também um indicador da sua antiga inclinação totalitária. Mas observador não se engaja em facções, não toma partido. Sua função, especialmente quando se assume como “cientista” (portanto eqüidistante) é observar o desempenho da mídia – no terreno ou junto dos destinatários. Ao converter-se em cruzado, desqualifica-se como observador.

 

EL PAÍS É UM DOS MELHORES JORNAIS do ocidente, verdadeira instituição cultural. Uma das iniciativas deste magnífico jornalão em formato tablóide é o “Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo”. Agora, na sua 16ª edição, foram concedidos cinco prêmios e o peruano Mario Vargas Llosa ganhou o prêmio máximo por um texto publicado em 8/11/98 naquele jornal e em outros 22 jornais latino-americanos (entre os quais o Estado de S.Paulo) intitulado “Novas Inquisições”.

Ao receber o prêmio, declarou Vargas Llosa:

“…[o jornalismo de escândalos] é uma deformação planetária. A informação que busca divertir e entreter na base de recursos escabrosos, de mexer na intimidade e brincar com vidas privadas alimentando a morbidez, pode ter conseqüências trágicas… O amarelismo não se acaba com leis que possam reprimir a liberdade de expressão. Esse é um fenômeno que só se extirpa através de mudanças culturais…”

O amarelismo, citado por Vargas Llosa, origina-se de uma antiga expressão do jargão americano, “yellow press” (imprensa amarela, designação dos tablóides sensacionalistas de Nova York, que no fim do século passado encartavam um suplemento em papel amarelo com as historietas em quadrinhos). No Brasil “imprensa amarela” foi convertida em “imprensa marrom” em 1960, no Diário da Noite (Rio), num pitoresco episódio do qual participei junto com o jornalista Calazans Fernandes, já contado em diversas ocasiões.

Amarelismo ou marronsismo, não importa: o quadro só se reverte quando o jornalismo voltar a ser atividade intelectual.

 

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