Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO & LITERATURA

Edição, objetividade e sensibilidade

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

JORNALISMO & LITERATURA

Lúcio Flávio Pinto (*)

As editoras brasileiras levaram uns 40 anos para se lembrar de mandar traduzir e publicar Hiroshima, a reportagem que John Hersey escreveu e a revista The New Yorker publicou, exatamente quando o bombardeio atômico da cidade japonesa pelos Estados Unidos completou um ano, em agosto de 1946.

O trabalho era tão bom, em todos os sentidos, que virou livro e provocou enorme impacto na opinião pública norte-americana. Teve, em relação ao ingresso da humanidade na era da bomba nuclear, a importância que a reportagem de outro jornalista americano, John Reed, tivera em relação à revolução comunista na Rússia, 30 anos antes.

Mas é inegável que o texto de Hersey é tão superior ao de Reed quanto os ataques a Hiroshima e Nagasaki, encerrando tragicamente a Segunda Guerra Mundial e colocando nos ares a permanente ameaça de extinção da espécie, superam, em seu significado macabro, o fim do czarismo e a instauração do primeiro governo socialista como o início de uma utopia de igualitarismo proposta pelos bolcheviques e por eles mesmos anulada.

A primeira edição de Hiroshima em português foi tirada pela Record, do Rio de Janeiro. Quando? Nem o livro indica: como era praxe na editora de Sérgio Machado, não há a mais remota referência à data de lançamento da publicação. Suponho, sem tempo para maior pesquisa, que foi bem no início da década de 80.

Uma segunda edição, muito melhor cuidada e mais encorpada, graças a melhor apresentação do trabalho pela Companhia das Letras, saiu agora [veja remissão abaixo]. Está sendo saudada, com justificado júbilo, por todos os que consideram a reportagem de Hersey uma das melhores escritas até hoje, se não a melhor.

É impossível não se impressionar com a narrativa de Hersey e a rara combinação que consegue, de objetividade e sensibilidade, para reconstituir o que aconteceu naquela manhã de 6 de agosto de 1945 e os dias subseqüentes ao uso da arma mais mortífera já criada pelo homem, pela primeira vez usada contra alvos humanos. Ao invés de um inquérito exaustivo ou profunda análise, o jornalista-escritor segue a vida de seis personagens da tragédia, como se o narrador não existisse e como se estivesse dentro das suas criaturas, reproduzindo até seus sentimentos mais íntimos sem precisar, um momento sequer, recorrer a adjetivos. Graciliano Ramos não faria melhor se tivesse ido aos escombros de Hiroshima.

A impressão mais forte que me ficou da acuidade de John Hersey, a lição que continuo tentando aprender até hoje de sua capacidade de observação, é ter percebido que as pessoas alcançadas pela radiação química da detonação sofriam e morriam em silêncio, como se naquela incrível sociedade morrer só tivesse grandeza se fosse na quietude da resignação. Membro da sociedade dos vencedores, John Hersey conferiu, com esse "detalhe", dignidade à sociedade dos perdedores. Derrotados, sim, mas só naquele momento.

Prazer de pensar

Se não houvesse The New Yorker, teria havido John Hersey? Ou, de outra forma: se no jornalismo não existissem publicações dotadas de convicções editoriais, dispostas a colocá-las em prática, mesmo arrostando os determinismos das leis comerciais, surgiriam e desabrochariam vocações para um jornalismo de nível superior?

A sofisticada revista americana e John Hersey são apenas um capítulo numa longa história, que remonta praticamente às origens dos tipos móveis inventados por Gutenberg. Não é jornalismo de primeira o que Daniel Defoe produziu no século 18 e Balzac no século seguinte? Claro que é: jornalista não precisava de diploma de curso de comunicação social (e não precisa até hoje, exceto no Brasil, eterno inventor da roda).

Mas ele precisa de um lugar no qual suas idéias e realizações se transformem em letra de forma. De preferência, sendo pagos para isso, quem sabe, o suficiente para poderem se dedicar à desgastante tarefa de pensar, conjeturar, andar, viajar e conversar sem ter que vender o almoço para comprar o jantar. Um lugar onde o editor publica o que seu leitor quer, mas também lhe impõe o que precisa ter, seguindo a trilha das pesquisas mercadológicas sem nunca esquecer que jornalismo também é formação de mentalidade, defesa de tese, trincheira de luta ou reduto de defesa de conquistas sociais.

Outro dia li entrevista na qual Oliveiros S. Ferreira, um dos principais jornalistas de O Estado de S.Paulo e ao mesmo tempo acadêmico da ciência política da USP, se referia à sua função de editor das capas dos cadernos de publicidade do jornal. Fez-me lembrar do tempo em que separava essas capas, que encobriam páginas e páginas de fornidos anúncios classificados, para lê-las no momento certo, em que se precisa de certa paz para refletir.

Nessas capas li pela primeira vez um ensaio de Isaac Deutscher, que abriu para a minha geração uma percepção mais crítica da revolução russa. Não importa que o público para esse tipo de seção seja pequeno. É preciso dar oportunidade a todos, inclusive à elite pensante, que move a roda da consciência e planta as sementes da nova cultura, disposta e habilitada às mais exigentes aventuras do mais autenticamente humano dos prazeres: o de pensar.

Se Sheilas e Romários têm seu espaço, que é o dominante e o mais caro, a imprensa não pode esquecer do pão, que é o fermento do mundo. Só circo avilta. E, terminado o espetáculo, o que fica?

(*) Jornalista em Belém (PA), editor do Jornal Pessoal

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