Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / BETTY MILAN

"Editores não investem no escritor brasileiro"

Por Deonisio da Silva em 06/06/2001 na edição 124

ENTREVISTA / BETTY MILAN

Betty Milan vem renovando nossa prosa de ficção há muitos anos. Deixando de lado tradicionais amarras de romances e contos excessivamente documentais, ela inova nos temas e problemas de que trata, recuperando a literatura como prazer de ler, entretenimento, aventura de linguagem e oportunidade de fundas reflexões sobre a condição humana.

Já publicados também no exterior, seus romances destacam-se no cânone da literatura brasileira contemporânea pelo refinamento da linguagem, a complexa articulação dos temas e uma teia sempre bem tecida nas tramas. Depois de livros marcantes como O Papagaio e o Doutor, A Paixão de Lia, O que é o Amor e Paris Não Acaba Nunca, ela volta às livrarias com O Clarão, romance cujo tema ordenador das tramas é a amizade, concebida em domínio conexo com o amor.

O romance, cujo personagem principal foi inspirado no publicitário Carlito Maia, está revolucionando também a forma de receptividade. A autora e sua nova editora, a paulista Cultura Editores Associados, apostaram num lance ousado: fazer o lançamento em mais de uma dezena de capitais de estados.

O que a escritora está fazendo ? ir ao encontro dos leitores ? foi feito com sucesso extraordinário na primeira metade do século passado por Monteiro Lobato, com uma diferença: ele não ia. Armou, entretanto, formas de distribuição do livro que romperam o círculo de ferro em que estavam confinadas nossas poucas e incipientes livrarias, fazendo com que casas comerciais ? incluindo armazéns, farmácias e até açougues ? fossem transformados em pontos de venda de livros a partir de indicações feitas pelos chefes das agências de correio.

Na segunda metade dos anos de 1970, depois de emblemático encontro em 1975, no Teatro Casa Grande, no Rio, inconformados com a falta de divulgação para seus livros, vários escritores passaram a percorrer o país falando a universitários e a estudantes do ensino médio, discorrendo sobre suas próprias obras e sobre obras alheias, rompendo a indiferença que rondava os novos autores e construindo via alternativa às notórias imposiçôes da censura naquele período histórico-literário.

Destacaram-se nessas verdadeiras maratonas escritores como João Antônio e Oswaldo França Jr (já falecidos), Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres e Márcio Souza, entre outros. Esses autores, com seus livros e sua presença, estimularam também diversos professores que passaram a organizar encontros de escritores em escolas e universidades, embriões de iniciativas de que o maior exemplo são as Jornadas de Literatura de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, realizadas desde 1981 sob a coordenação de uma equipe liderada pela professora Tânia Rösing ? a quem um dia o escritor Antonio Callado, depois de falar para milhares de pessoas em Passo Fundo, propôs para o cargo de "ministra do planejamento nacional".

Pois a terceira grande iniciativa de aproximação de autor e público é obra solitária de uma escritora que, no papel de Dom Quixote de nossas letras, investe contra os moinhos da indiferença. Loucura dela? Não, da maioria das editoras nacionais, que insistem em velhos chavões do mercado livreiro, mendigando resenhas no exíguo espaço a elas dedicadas na imprensa, cujos suplementos culturais dedicam-se quase que exclusivamente à música, com raríssimas exceções.

Nesta entrevista, Betty Milan, com sua costumeira conversa clara e poder de síntese, dá precioso depoimento sobre a nova realidade com que se deparou nesse périplo pelo Brasil.

Você mora meio ano em Paris, meio ano em São Paulo. Viver alternadamente na França, a nação do livro por excelência, segundo título recentemente outorgado pela Unesco, e no Brasil, onde há tão poucas livrarias, que ainda por cima confinam o autor nacional em estantes lá no fundo das lojas, desperta em você algum tipo de raiva, exasperação, melancolia, tristeza? Ou isso serviu de estímulo para você partir para este ato, que eu considero heróico, de inventar novas formas de encontrar o leitor?

Betty Milan ? Desperta raiva. Por ser mais uma forma de desperdício. Como se nós pudéssemos nos dar esse luxo, como se houvessem muitos escritores sérios, com projetos literários conseqüentes. Os editores não investem no autor brasileiro. Compram os livros para se valerem deles como brasão, para não serem criticados por só terem autores estrangeiros, os únicos em quem eles investem verdadeiramente. Na maratona de lançamentos que estou fazendo, constatei que há pouquíssimos banners relativos a livros de autores brasileiros nas livrarias. Já um Puzo tem banners e folders publicitários em todas as livrarias. Para Shire Hite também não vai faltar, ainda que ela diga que a liberdade sexual é diretamente proporcional à capacidade de ganhar dinheiro. Ainda há quem compre essa idéia!

Você encontra afinidades com quais escritores de sua preferência?

B.M. ? Os escritores da minha preferência são aqueles com quem tenho afinidades. Como Monteiro Lobato, por exemplo. Pela irreverência dos personagens e também porque ele acreditava no livro. Sabia que o livro não muda o mundo, mas muda as pessoas e que as pessoas podem mudar o mundo.

A mulher passou de personagem à autora em nossas letras, no século passado. Você acha que, por isso, há uma literatura feminina no Brasil?

B.M. ? Acho sim que há uma literatura feminina no Brasil e no mundo. Porque há certos temas que só as mulheres abordam, os homens não. Pelo simples fato de que a nossa relação com o gozo é diferente, mas também por razões culturais. Seja como for, a existência de uma literatura feminina só pode ser benéfica para os homens. Porque as mulheres estão autorizadas a falar da falha e da falta e os homens ainda não. Salvo alguns como você, que é um escritor e inventou a categoria do homem lésbico.

Como você escreve? Qual é a disciplina que você se impõe?

B.M. ? Basta sentar na cadeira e esperar um pouquinho que a frase chega direto na mão. Depois eu leio e releio mil vezes até chegar ao texto definitivo. Freqüentemente faço isso em voz alta, gravando e ouvindo depois. O menor desvio de ritmo me incomoda e muito. Acho mesmo que sou mais poeta do que pareço. O Flavio Loureiro disse que O Clarão é um poema em prosa, o mais longo da nossa literatura. Essa idéia me convém.

Qual é calcanhar de Aquiles do escritor brasileiro?

B.M. ? O regionalismo. A falta de crítica que impede o escritor de melhorar. A falta de editor que o leia até levá-lo ao melhor texto que ele pode fazer. Acho que isso é decorrente da vaidade do editor e do escritor, que obviamente sai perdendo. No dia em que nós fizermos pouco do beletrismo, nós vamos escrever melhor. Hoje mesmo eu me disse que não é a literatura que me interessa, mas a escrita. Digo isso como se poderia dizer que não é a igreja, mas a religião que interessa. A literatura tem mais a ver com a convenção literária do que a escrita e o artista tem que romper a convenção.

Por que nós jamais ganhamos um Prêmio Nobel, vez que temos escritores cujo talento é reconhecido em numerosas traduções? O Chile, por exemplo, teve dois Prêmios Nobel.

B.M. ? Porque a nossa literatura é desvalorizada aqui e conseqüentemente no exterior. O Brasil foi o país homenageado pelo Salão do Livro de Paris, em 1998. No ano seguinte, nem estande do Brasil havia e isso causou uma grande perplexidade na França. Eu que moro lá vi a literatura portuguesa se impor em dez anos e chegar ao Prêmio Nobel enquanto nada se passava conosco. Porque o Brasil não aposta nos seus escritores. Rubem Fonseca é publicado pela maior editora francesa mas não é lido. Clarice Lispector tem existência mas não vende mais do que cinco mil exemplares de cada livro. Jorge Amado vendia apenas o dobro. Só quem entrou verdadeiramente no mercado francês foi o Paulo Coelho e isso não teria acontecido sem um marketing impressionante. No ano em que o Brasil foi o país homenageado pelo Salão do Livro, ele fez uma festa para mil livreiros no Louvre.

Por que o cadáver do modernismo continua insepulto? O modernismo deu-nos bons poetas, mas nenhum romancista emblemático. Ou estou enganado?

B.M. ? Gosto demais do Mário de Andrade e do Macunaíma para concordar com você. Acho mesmo que se tivesse que salvar um livro brasileiro escolheria este. E, se tivesse que salvar uma personagem, ficaria com a Emília. Me interesso mais por ela do que por Capitu com os seus olhos de ressaca.

Você não acha que o Brasil tem medo do novo? Levado ao divã, já que você, além de escritora, é psicanalista, que patologias mais afetam nosso país e como seria o tratamento?

B.M. ? O medo do novo é universal. Até acho que nós brasileiros somos mais receptivos a ele. E, seja como for, o papel do escritor é inovar, introduzir temas novos na literatura e reinventar a língua. Mas isso está se tornando cada vez mais raro. Os escritores de hoje estão mais para secretários-executivos dos editores que só querem biografias e livros de auto-ajuda. Tudo menos a verdadeira literatura, que não existe sem o recurso à poesia ? no romance, na crônica e mesmo no ensaio.

    
    
              

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