Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > REALITY SHOW

Eduardo Cintra Torres

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

REALITY SHOW

“?Surpreende-me, outra vez?”, copyright Público, Lisboa, 3/2/03

“Nos Estados Unidos, a TV-realidade tornou-se nas últimas semanas um pilar da televisão generalista que ameaça alterar as próprias formas de trabalhar das grandes cadeias televisivas. Na semana de 20 de Janeiro, os programas de ?realidade? atingiram o top de audiências nos EUA pela primeira vez com consistência, conseguindo nas quatro ?networks? 15 primeiros lugares e três segundos lugares com programas do estilo Survivor, Big Brother ou Academia de Estrelas. Os executivos entenderam a mensagem: há muito público a querer TV-realidade. Não se saber até quando, mas quere-a hoje. No próximo Outono, a NBC terá pelo menos 10 ?reality-shows? no ar e a CBS oito. Esta nova opção industrial põe em causa as encomendas de programas de ficção para a próxima época. Em Portugal, vem aumentando a quantidade de tempo e programas de TV-realidade e, mesmo se as audiências nem sempre compensam, os canais generalistas, incluindo o do Estado, continuam a insistir no género.

Os espectadores sabem que a ?realidade? dos programas televisivos também é uma ficção, construída e apresentada em casa ao espectador através do écrã. Mas então porque a preferem à ficção tradicional (chamemos-lhe assim) das séries e dos telefilmes?

A preferência pela realidade em vez da ficção não é de agora, é de sempre. Há dois séculos e meio, William Burke dava no seu ?A Philosophical Enquiry? (1757) o exemplo mais cabal desta escolha: ?Escolhei um dia para representar a nossa mais sublime e tocante tragédia; escolhei os actores favoritos; não poupei custos nos cenários e decorações (É); e quando tiverdes reunido a vossa audiência, no preciso momento em que os espíritos estão com as expectativas mais altas, deixai saber-se que um criminoso de Estado de alta categoria está a ponto de ser executado na praça ao lado: o vazio da sala num instante demonstrará a comparativa fraqueza das artes imitativas e proclamará o triunfo da real afinidade.?

Estudos empíricos demonstram que as ?emoções provocadas pelo drama são mais fracas que as emoções quotidianas? (Jeffrey Goldstein, ed., Why We Watch, 1998), pelo que muitos espectadores prefeririam o contacto com experiências ?reais? do que reconhecidamente ficcionadas.

Podemos estar a viver apenas uma fase da relação entre a criatividade e o público como a do naturalismo na literatura nos finais do século XIX. Como escrevia o seu arauto Émile Zola em 1881: ?de momento, trata-se de constatar simples factos. Pouco a pouco, produziu-se a evolução científica e vimos a personagem abstracta desaparecer [da literatura] para dar lugar ao homem real, com o seu sangue e os seus músculos.? Pela televisão de ?realidade?, alguns espectadores entram pelo écrã adentro, passam ao outro lado e representam as suas ficções privadas ?com o seu sangue e os seus músculos?. E, com isso, temporariamente, agrada-se mais do que com estórias ficcionais tradicionais, totalmente manipuladas, em que actores representam pessoas diferentes de si mesmos, como que ?falsificando? o sangue e músculos de outrem.

Além disso, a TV-realidade é uma ficção a fazer-se. É em directo. A ficção dum ?reality-show? está a acontecer e vive na expectactiva da desinteireza da evolução da intriga: a dimensão de jogo e de narrativa só em parte escrita deixa uma margem de dúvida que é atraente. Numa palavra: suspense. A TV-realidade, por mais aborrecida que seja, tem uma capacidade que a actual ficção televisiva em grande medida perdeu: a capacidade de supreender.

É famosa a frase do empresário artístico russo Sergei Diaghilev a Jean Cocteau: ?Étonne-moi?, ?surpreende-me?. Diaghilev repetia o que dois séculos antes escrevera o homem de letras Denis Diderot num dos seus Ensaios: ?Touche-moi, étonne-moi, déchire-moi?, ?toca-me, surpreende-me, dilacera-me? – isso era para Diderot tão importante que ele achava poder-se ?sacrificar um pouco na técnica? para ?não afectar o mínimo da expressão, o efeito do tema? (tal como na TV-realidade?).

Em Portugal, a ficção televisiva chamada de ?grande público? é hoje, em geral, fraca, e o mesmo sucede noutras indústrias audiovisuais. Extremamente previsível, essa ficção só confirma o que já se sabe. E em troca não dá magia, bons diálogos, belas imagens, etc. Muitas vezes podemos adivinhar desde os primeiros segundos o final de cada um e do último de 13 ou 26 episódios. As intrigas e os diálogos são previsíveis não só na evolução como nas frases e até nas próprias palavras. As situações são pouco imaginativas. Os personagens são ?consensuais?. Tudo é feito segundo um padrão previamente pensado, um modelo, quase um formulário. Em grande parte, os telefilmes não fogem deste esquema quando se destinam ao que se pensa ser o gosto do ?grande público?.

Feita assim, a ficção assemelha-se à criatura do Dr. Frankenstein: todos os pedaços estão certos, mas o conjunto é um monstro. Cada personagem parece feito para agradar ao ?grande público?, os ?settings? são escolhidos um a um para agradarem ao ?grande público? e por aí adiante: mas, no final, o ?grande público? prefere a TV-realidade. A série industrial frankensteiniana, mal amanhada, não surpreende nem um bocadinho, surpreende menos que o pontapé do Marco, a gritaria do Bombástico ou a presença de familiares junto de assassinos no Eu Confesso.

Há várias maneiras de fugir ao predomínio da TV-realidade. Uma é esperar que o público mude e se farte, o que tem custos enormes para a ?ficção ficcional?. Outra é fabricar produtos como a publicidade, ajustando-os às expectativas de grupos de consumidores, caso da actual telenovela da TVI centrada em jovens. Um terceiro caminho é repensar a ficção de modo a que ela volte a surpreender. Regressar à perfeição formal e às técnicas narrativas. Inventar. Não recear a criatividade só porque ainda não se testou a inovação com o crivo do agrado pelo ?grande público?, como se faz com o detergente.

A ficção é fundamental ao equilíbrio da existência. Ela coloca os problemas da humanidade, grandes e pequenos, de forma mais completa e por sua vez mais acessível do que a informação e a ?realidade?. Todas as sociedades, da mais simples à mais complexa, recorrem à ficção para cimentar e passar valores, lidar com tabus, questionar-se. A ficção é fundamental à vida e, portanto, à televisão. Se a TV comercial prefere dedicar-se à TV-realidade, cabe à televisão que tem obrigações públicas manter acesa a chama do ?étonne-moi?.

É preciso varrer os preconceitos do passado sobre o que querem as audiências e o ?grande público?, quebrar os lugares comuns que dizem ser melhor gastar um milhão de contos com a Operação Triunfo do que com ficção portuguesa, ou ser melhor 10 por cento de audiência com Preço Certo em Euros do que 5 por cento com o Processo dos Távoras. Não é. É muito mais importante, em termos de servir o público, dar-lhe boa ficção do que TV de realidade sofrível e abundante nos canais comerciais.?”

“Ficção ameaçada”, copyright Folha de S.Paulo, 2/2/03

“Quem ainda tem esperança de que ?Big Brother? e congêneres sejam apenas uma onda passageira, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Pelo menos na TV norte-americana, que em muitos aspectos serve de bússola para a nossa, os ?reality shows? não apenas vieram para ficar como estão ocasionando mudanças radicais na estrutura da indústria televisiva.

De acordo com uma contundente reportagem publicada na semana passada no ?The New York Times?, as quatro grandes redes norte-americanas (ABC, CBS, NBC e Fox) chegaram à conclusão de que é muito mais lucrativo apostar em programas como ?American Idol?, ?Joe Millionaire? e ?The Bachelorette? do que nos chamados ?scripted shows?, que poderíamos traduzir como ficção televisiva ou teledramaturgia (novelas, sitcoms, seriados, telefilmes).

É fácil compreender a equação. Os custos de um seriado ficcional são incomparavelmente mais altos que os de um ?reality show?. Além disso, sua produção é mais complicada e o retorno ao investimento é mais demorado (muitos só se pagam com as reprises e com as vendas ao exterior).

Com isso, a TV americana, filha bastarda do cinema, está deixando de assentar prioritariamente seu entretenimento na teledramaturgia. Roteiristas e atores já temem perder seus empregos, enquanto vêem as grandes redes inventarem ou comprarem novos ?reality shows?.

A NBC, por exemplo, prepara ?Around the World in 80 Dates? (?Volta ao Mundo em 80 Namoros?), em que um rapaz procura parceiras em outros países. A ABC, por sua vez, vai produzir a versão americana do sucesso britânico ?Wife Swap? (?Troca de Esposas?), no qual duas famílias trocam suas mães por duas semanas.

No Brasil, a tendência ainda é incipiente, e é muito cedo para saber se ganhará a mesma dimensão dramática.

De todo modo, nossa televisão, embora influenciada pela norte-americana (e importadora de uma boa parte de seus produtos), é muito diferente dela. Para começar, a TV brasileira não nasceu do cinema, mas sim do rádio. Não por acaso, seu produto de maior êxito, a telenovela, é um derivado da velha radionovela.

Além disso, aqui há um virtual monopólio da audiência da TV aberta, enquanto nos EUA o público se divide mais democraticamente entre as várias redes, sem contar que lá o peso relativo das TVs por assinatura é muito maior.

Por fim, a teledramaturgia brasileira alcançou um tal grau de sintonia com o imaginário popular que é impossível conceber nossa televisão sem ela, ou com ela relegada a segundo plano. Um dos efeitos indesejáveis dessa mudança seria nossa transformação de exportadores de novelas em meros importadores de fórmulas como ?No Limite? e ?Big Brother?.

É provável que aqui o efeito dos ?reality shows? seja menos bombástico sobre a indústria da TV. Possivelmente afetará, digamos, a periferia do sistema. Por exemplo, as emissoras que concorrem com a Globo terão ainda menos ânimo para investir em produção própria de ficção. É mais fácil e barato explorar as mil possibilidades ?mundocaninas? da chamada realidade. A própria Globo talvez diminua os investimentos na ficção, cortando projetos de minisséries e congêneres, em favor dos ?reality shows?.

Seja como for, escritores, dramaturgos e atores que batalharam anos a fio para conseguir um lugar ao sol no panteão televisivo devem estar se sentindo lesados pela concorrência desleal dos anônimos que se tornam celebridades da noite para o dia só porque várias câmeras acompanham todos os passos de seu insosso dia-a-dia. Pois, como diz Millôr Fernandes, hoje, para ser alguém, não é preciso ser ninguém.”

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