Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > AINDA O ROCK IN RIO

Eduardo Graça

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV

AINDA O ROCK IN RIO

"Rock in Rio III foi programa adolescente com pitadas de música", copyright Valor Econômico, 23/01/01

"Teve sim. Teve fila demais nos banheiros (sem água) e nos postos de venda de alimentos. Teve latas de lixo e ônibus de menos, resultando em sujeira e filas intermináveis para quem ficava até o último show da noite. Mas, se não conseguiram atingir a presunçosa meta exposta no slogan do festival, a organização do Rock In Rio III pôde comemorar uma ‘segunda semana melhor’.

A começar pela qualidade dos shows. Pelo menos dois deles, Iron Maiden e Neil Young, deixaram o público boquiaberto. As expressões mesclavam a vontade de tomar fôlego com a gratidão dos que esperavam pela dose exata de ‘rock and roll.’ A jornada final também revelou a capacidade dos organizadores de resolver emergências.

Foi assim quando, domingo à tarde, uma horda nervosa se espremeu nos portões de entrada da Cidade do Rock. Mais de 250 mil pessoas se apertaram para conferir um cardápio desigual que tinha como sobremesa o Red Hot Chilli Peppers, festejado pelo bom ‘Californication’.

Houve empurra-empurra, gritaria, confusão. Mas ninguém se machucou: a violência passou longe de Jacarepaguá. Pelo menos no que diz respeito à audiência. Ambulantes reclamaram dos achaques de seguranças, que pediam propina para liberar as portas para vendedores não-credenciados. Espera-se que a cena não se repita na próxima edição do festival, confirmada para 2003, com a possível presença do Rush.

De qualquer forma, o recorde de público na saideira – em um dia que ainda contava com o insosso Deftones e os australianos do Silverchair – confirmou outra peculiaridade do festival. Mais do que um espaço para se curtir boa música, o Rock In Rio foi o ponto de encontro do verão para jovens de uma cidade carente de atrações noturnas.

Os ‘xavecos’ foram incentivados pelo patrocinador oficial da festança, que bolou uma série de adesivos de gosto duvidoso que identificavam quem estava mais ‘disponível’ para encontros. O ambiente esteve mesmo mais para chat de internet do que para festival de rock na quinta-feira, a noite ‘teen’. Uma multidão formada por papais, patricinhas e mauricinhos sarados acabaram formando o coquetel mais perigoso das sete noite.

Conflitos foram registradas na Tenda Eletro (onde desenturmadas teimavam em acoplar ao som trance passos mais ‘popozudos’) e o mancebo Júnior (o da Sandy) levou suas garrafadas. Para os que acreditam em bruxas (vá lá, em duendes, como pedia a programação), a queda de Moraes Moreira do trio elétrico que abria os serviços da noite era um mau presságio. Logo confirmado por Aaron Carter, o sósia de Jordy (aquele chatinho francês) que levou para casa o título de espertalhão 2001. Riu muito, ofereceu ao público quatro músicas em playback e foi embora! O playback reapareceu ainda nos shows de Britney Spears e do Five.

A depressão passou na sexta- feira. Os shows impecáveis do Sheik Tosado e do Pavilhão 9 despertam o público para o que já é óbvio: 16 anos depois, o Rock Brasil está mais rico do que quando bandas como Paralamas e Barão estouraram na primeira edição do Rock In Rio. O festival sobreviveu à deserção de bandas importantes da cena atual – Raimundos, O Rappa, Cidade Negra, Charlie Brown Jr., Skank e Jota Quest -, cometeu o equívoco de privilegiar a nostalgia dos 80’s em shows de maior ou menor êxito (Barão, Ultraje, Ira!, Capital) e, ainda assim, fez o público delirar na Tenda Brasil.

Apresentações apoteóticas como as de Tom Zé e Los Hermanos foram secundadas por performances dignas do palco principal, como as de Luciana Mello, Expresso 4Oito, Rumbora, Branco Mello, Pepeu & Armandinho, Max de Castro e Toni Platão.

Quem deixou de lado a Tenda Brasil nos intervalos do Palco Mundo perdeu muito. Inclusive uma das poucas cenas antológicas do festival marcado pelo bom-mocismo. Na sexta-feira, um animado Supla se esguelava no palco quando olhos afiados avistaram um coroa na frente do palco, dançando à vera.

Reconhecido por uma equipe TV, o senador Eduardo Suplicy foi convocado para a tradicional entrevista pós-show. A conversa descambou para política e o senador assumiu sua candidatura presidencial. Supla então roubou o microfone e avisou que a estrela era ele. E terminou dando um refresco, com a minúscula garrafa de água de R$ 2, no cocoruto do senador."

Volta ao índice

Qualidade na TV – próximo texto

Qualidade na TV – texto anterior

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem