Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Eduardo Martins

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

DICIONÁRIOS

"Aurélio e Houaiss ganham concorrente de peso", copyright O Estado de S. Paulo, 16/10/01

"Um projeto de mais de 200 anos finalmente ganhou forma este ano em Portugal e acaba de chegar ao Brasil: a edição do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, lançada pela Verbo.

Dividida em dois volumes e com cerca de 4 mil páginas, a obra contém 70 mil verbetes (ou ?entradas lexicais?) e 240 mil vocábulos ?e suas combinações do português falado em quatro continentes?. Com ela, a Academia cumpre o objetivo traçado na fundação da entidade, em 1779, ?a produção de um dicionário que, à semelhança do caso espanhol e francês, constituísse um padrão para o uso do idioma?.

A primeira tentativa de publicação do dicionário durou 14 anos e, em 1793, saía o primeiro volume, que abrangia somente a letra A. Como ele terminava no verbete azurrar (equivalente a zurrar), o trabalho da entidade não escapou de comentários mordazes na época. Problemas políticos tornaram impossível a continuação do projeto, retomado quase 200 anos depois, em 1976, sob a direção do professor Jacinto do Prado Coelho. Um novo primeiro volume, embora reformulado, também conseguiu completar apenas os verbetes da letra A.

Doze anos – A edição atual teve início em 1988. Depois de 12 anos de trabalho, a Academia das Ciências de Lisboa pôde finalmente concretizar o sonho de mais de dois séculos. O dicionário já atingiu os 30 mil exemplares, em três tiragens de 10 mil. Coordenada pelo professor e filólogo João Malaca Casteleiro, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da academia de letras de Portugal, a obra resultou do esforço conjunto dos membros do instituto.

O dicionário contém pelo menos uma inovação importante em relação aos congêneres de língua portuguesa: a explicação, em caracteres de linguagem fonética, da pronúncia de cada palavra que constitui entrada de verbete, diferentemente do que ocorre nos livros de referência brasileiros, nos quais figuram apenas pronúncias especiais. E toda palavra tem também sua origem registrada, mesmo que ela seja derivada do verbete anterior.

Outro destaque da obra é a presença de mais de 33 mil abonações (exemplos do uso das palavras) colhidas em autores de língua portuguesa. ?A referência literária é fundamental, pois é por meio dos escritores que encontramos documentada a passagem de umas a outras fases da língua?, justifica o professor Malaca Casteleiro.

Entre os autores citados, estão os portugueses Luís de Camões, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, José Régio, Alves Redol, Agustina Bessa Luís e José Saramago e brasileiros como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Rui Barbosa, José de Alencar, Castro Alves, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.

Amplitude – Se o recém-lançado Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa consigna mais de 228 mil verbetes nas suas 3.008 páginas, por que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa ficou nos 70 mil? ?Tivemos em conta palavras de uso geral e corrente, e não as muito novas?, explica o professor Malaca. ?A amplitude dos verbetes, em vez do seu número, foi o nosso objetivo.? O filólogo considera ?muito boa? para a língua portuguesa a concorrência entre as várias novas opções do gênero: ?Durante muitos anos, o idioma quase não tinha dicionários.? E é importante lembrar, assinala, ?que não existe um dicionário perfeito, único?.

Nessas escaramuças entre os novos léxicos, merecem menção, em Portugal, o dicionário da Academia e uma edição atualizada do Cândido de Figueiredo. Entre os brasileiros, o Michaelis, o Aurélio e o Houaiss, só para citar os de grande porte.

O professor Malaca dá mais alguns números a respeito do dicionário: 90.793 exemplos (além das abonações já citadas), 240.680 vocábulos (incluem flexões verbais e variações das palavras), 167.556 acepções (significados), 22.169 combinatórias (grupos de palavras como sala de jantar e pedra preciosa), 3.407 locuções, 10.756 expressões idiomáticas ou fraseológicas, 85.842 sinônimos e 16.097 antônimos.

A presença dos sinônimos e antônimos chama a atenção não apenas pela abundância e diversidade, mas também pela distribuição desses vocábulos no interior do verbete: eles estão incluídos na definição de cada um dos sentidos da palavra. No verbete arrasar, por exemplo, para a definição n.? 4, ?causar ou sofrer grande prejuízo, deixar ou ficar em ruínas?, sugerem-se os sinônimos aniquilar, arruinar, desfazer, destruir, estragar. Para a definição n.? 6, ?provocar grande desgosto, causar grande abatimento moral, deixar deprimido?, propõem-se os equivalentes abater, deitar abaixo e os contrários animar, levantar a moral. Esse verbete, arrasar, tem 45 linhas.

Para atingir a amplitude citada pelo professor Malaca, a obra não se limita a tomar por base o uso da língua em Portugal, mas reúne mil africanismos, 150 termos asiáticos e 6 mil brasileirismos. Estes foram recolhidos no ?dicionário básico, em autores brasileiros e nos jornais?. Também, ?alguma coisa das novelas?, poderoso instrumento de renovação do idioma em Portugal. Exemplos? Bacana, bóia (comida), grana, jaburu (pessoa feia), legal (excelente), etc. Considere-se, porém, que entre os brasileirismos estão palavras não usadas em Portugal com o mesmo sentido: ônibus (autocarro), bonde (eléctrico), banheiro (casa de banho), delegacia (esquadra), refrigerador (frigorífico), time (equipa), trem (comboio), terno (fato), etc.

Estrangeirismos – ?Os jornais são laboratórios vivos da língua?, diz o professor Malaca, para justificar o grande número de citações colhidas na imprensa portuguesa. ?Os estrangeirismos aparecem pela primeira vez nos jornais e revistas.? Essa questão das palavras de outras línguas mereceu atenção especial.

Durante oito anos, a Academia levantou, nos principais jornais portugueses, mais de 4 mil vocábulos ?importados? de uso corrente. Do total, 75% eram de origem inglesa, mas provenientes na maioria dos Estados Unidos, 20% provinham da França e 5% procediam de outras línguas, como o espanhol, o alemão e o italiano. Economia, administração, informática e novas tecnologias foram identificadas como as áreas em que os estrangeirismos são usados com maior freqüência sem que haja substituição por termos de língua portuguesa.

Os especialistas que trabalharam na obra garantem ter procurado evitar ?cair nos extremos do purismo? nessa questão. O professor Malaca considera que o português deve estar aberto à entrada de estrangeirismos ?como condição fundamental para continuar a desenvolver-se?. E assinala: ?Este espírito de abertura, aliás, sempre marcou o percurso histórico do nosso idioma. Veja-se, por exemplo, o ocorrido durante a época dos descobrimentos e da expansão portuguesa.?

Os estrangeirismos constam da obra ou na forma original (copyright, design, internet, leasing, software) ou na de origem, mas com remissão para um equivalente vernáculo (check-up, exame geral; hobby, passatempo; teenager, adolescente; ranking, classificação; know-how, saber-fazer; round, assalto).

No caso de palavras aportuguesadas, indica-se, como se faz no Brasil, a forma original: abajur (do fr. abat-jour); uísque (do ingl. whisky); lóbi (do ingl. lobby); tróica (do rus. troika); vendeta (do it. vendetta).

Surpresas – Os aportuguesamentos respondem por algumas das surpresas que o dicionário reserva aos brasileiros. Com base na pronúncia portuguesa, na qual o e do grupo inicial es praticamente não soa, o s inicial seguido de outra consoante em inglês foi mantido, adaptando-se o restante da palavra: scâner (scanner), stande (stand), stresse (stress). Outra aclimatação de vocábulo ao idioma, porém, poderia servir de exemplo ao Brasil: faxe e telefaxe (afinal, box não resultou em boxe?).

US$ 3 milhões – Segundo Fernando Guedes, diretor da editora responsável pela obra, a Verbo, o projeto custou cerca de US$ 3 milhões, provenientes da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministério da Educação (que pagou os salários dos especialistas) e da própria editora. A Verbo, garante Guedes, ?tem muita experiência no mercado de grandes obras de referência? (como uma enciclopédia de 23 volumes).

Um de seus carros-chefes é um dicionário de Direito e Economia, em cinco volumes. Uma enciclopédia da literatura de língua portuguesa já está no terceiro volume, dos cinco previstos. Diferentemente do Houaiss, impresso na Itália, o dicionário da Academia é produto do trabalho da Tilgráfica, empresa de Braga, em Portugal.

Numa próxima edição da obra, o professor Malaca Casteleiro admite incluir o texto do acordo ortográfico vigente em Portugal e um amplo quadro sobre as diferenças do português falado e escrito nos dois lados do Atlântico."

 

PRÊMIO / SIP

"Jornalistas do ?Estado? recebem prêmio da SIP", copyright O Estado de S. Paulo, 17/10/01

"As jornalistas Marisa Folgato e Andrea Portella, da editoria de Cidades do Estado, foram homenageadas ontem com o prêmio de Direitos Humanos e Serviços à Comunidade da Sociedade Interamericana de Imprensa por uma série de reportagens sobre a favela Heliópolis, publicada entre os dias 19 e 25 de março de 2000.

Menção – Valeria Rossi e a equipe da editoria de Cidades do Estado receberam uma menção honrosa na categoria de Cobertura Noticiosa, por uma reportagem sobre os sem teto que se abrigam sob os viadutos e pontes da cidade, publicada no dia 23 de julho de 2000.

Também homenageado com menção honrosa foi o caricaturista José Carlos Santos por um trabalho sobre o presidente do banco central dos Estados Unidos, Alan Greenspan.

Os prêmios foram entregues ontem durante o banquete de encerramento da 50.? Assembléia-Geral da SIP, que reuniu cerca de 300 proprietários de jornais e revistas, executivos, acadêmicos, editores e profissionais de todas as Américas durante quatro dias no hotel J.W.Marriott, na capital americana.

Crise – O assunto que esteve presente nos seminários, discussões e conversas nos corredores foi a crise econômica que o setor enfrenta em todos os países, em função tanto dos deslocamentos provocados pelos novos meios eletrônicos de comunicação como pela retração da publicidade, e que tende a agravar-se em conseqüência do impacto econômico dos ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos.

Liberdade – O Grande Prêmio de Liberdade de Imprensa da SIP foi compartilhado pelos jornais peruanos Comercio e La Republica, de Lima, La Industria, de Trujillo, e pela revista Caretas, por seu trabalho em favor da restauração da democracia do país.

O diretor do Estado, Júlio César Mesquita, que já foi presidente da SIP e dirige atualmente o Instituto de Imprensa da organização, foi o único representante brasileiro no encontro.

Num contraste com encontros do passado, marcados pela repetição das queixas sobre tentativas de limitação e de violação da liberdade de imprensa na América Latina, o presidente da SIP, Danilo Arbilla, do Uruguai, incluiu os Estados Unidos entre os faltosos.

Preocupação – ?Registramos com alarme algumas decisões judiciais que nos preocupam e que, em nosso entender, violam a liberdade de imprensa e conspiram contra os princípios mais sagrados desta nação?, disse Arbilla.

Ele se referia ao caso de Vanessa Leggett, uma escritora aspirante que está presa há três meses em Houston, e poderá ficar mais 15 meses na cadeia, por recusar-se a revelar a um grande júri informações confidenciais que apurou ao investigar um crime sobre o qual pretende escrever um livro. Apesar de todas as apelações, até agora Vanessa não conseguiu demover a justiça americana de obrigá-la a cumprir pena."

    
    
                     
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