Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Eduardo Nunomura

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

TV CULTURA EM CRISE

“A luta diária para salvar a TV Cultura”, copyright O Estado de S. Paulo, 11/05/03

“Nos estúdios e corredores da TV Cultura, trabalha-se muito. Nos setores de entretenimento, jornalismo ou operação, há funcionários dedicados lutando para manter a programação no ar. Formam um exército de profissionais, em que cada um assume o papel de guardião da TV pública.

Operam máquinas, mas na verdade fazem milagres. O telespectador reconhece esse esforço e faz dela o maior símbolo de uma televisão de qualidade, digna de ser vista por crianças, jovens e adultos a qualquer hora do dia. Se tudo isso é verdade, por que a emissora está imersa numa profunda e melancólica crise? Porque tem sido assim em 34 anos de vida.

Em fevereiro de 1972, o Estado já publicava: ?Há muitas reclamações na Fundação Padre Anchieta contra o processo de liberação de verbas. O orçamento atual está aprovado, com um déficit de 4 milhões e sem condições para investimentos. E cada vez que há um pedido de verba ao governo (duas a três vezes por mês), é necessário um grande empenho pessoal do diretor econômico, que já não consegue fazer o orçamento funcionar.? A primeira crise ocorreu três anos após o início da operação da TV. Faltava, como falta hoje, dinheiro.

Na quarta-feira, o telespectador do Jornal da Cultura soube da notícia, mas não viu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicar os motivos de sua escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal. O som estava inaudível.

As fitas de vídeo estão velhas e desgastadas. Produzem imagens distorcidas (no jargão técnico, drop-out).

?É um problema que vem aumentando com o tempo. Nossa qualidade é analógica.

Estamos na vanguarda dos anos 80?, reconhece Nivaldo Freixeda, editor de Qualidade da TV Cultura. Não há exagero. A emissora ainda possui câmeras de válvulas adquiridas em 1986, que não são mais fabricadas. Dos 55 aparelhos, 45 foram comprados até 1994. Só há duas máquinas digitais.

Vergonha – Muitas câmeras apresentam defeito no visor. O que se vê nele é diferente do que está sendo gravado. Para acertar o foco, a luz e as cores, os funcionários operam intuitivamente. Como são aparelhos antigos, necessitam de uma iluminação reforçada, a cruzeta ou luz de fogo. Quando ligam a luz, atrapalham as gravações das outras emissoras.

?É uma vergonha. Só damos o máximo de nós por amor ao que fazemos?, diz o cinegrafista Leomi Batista. Há duas semanas, Eliseu Ferreira, 26 anos como cinegrafista da emissora, foi xingado enquanto gravava um concerto na Sala São Paulo. Irritada, uma mulher armou um escândalo por causa do fone de ouvido da câmera, que fazia muito barulho.

Hoje, é impossível ter todas as equipes trabalhando ao mesmo tempo. Faltam aparelhos. Muitos estão na manutenção. Como são equipamentos obsoletos, a TV Cultura está criando um verdadeiro time de arqueólogos eletrônicos. São especialistas em desmontar aparelhos quebrados para manter outros em funcionamento.

O técnico de vídeo Eliezer de Paula Pereira, de 36 anos, é um deles. Por ironia, ingressou na emissora em março de 1986, quando um incêndio destruiu diversos equipamentos. Percebeu que seria útil na reconstrução do patrimônio destruído. Só não sabia que continuaria, 17 anos depois, tendo de consertar aparelhos tão antigos quanto os daquela época. ?Às vezes, temos de despir um santo para cobrir outro.? Para não se desatualizar, trabalha também no SBT, onde conhece outra realidade. Lá, a tecnologia é digital.

A precariedade, antes limitada às condições de trabalho, começa a ser sentida na casa do telespectador. Por falta de válvulas, transmissores espalhados em diversas cidades não podem ser consertados. Em 2002, muitos pontos na periferia de São Paulo deixaram de receber o sinal da TV Cultura.

Perderam a opção de uma programação educativa e cultural para ficar com Ratinho, João Kléber e companhia. Atualmente, o problema se concentra no interior. As transmissões estão comprometidas em Presidente Prudente, Dracena, São José do Rio Pardo, São Manuel, Mirante do Paranapanema e Cajuru. Em Jundiaí, a potência de 1.000 quilowatts despencou para 50 kW.

O diretor-técnico José Munhoz vive rodeado dessas e de outras preocupações.

Cita a falta de um sistema de ar-condicionado. Há quase US$ 500 mil em aparelhos comprados, mas que permanecem nas caixas por falta de instalações adequadas. Ou a caixa d?água que apresenta fissuras. Ou ainda a falta de piso e forro nas salas de computação gráfica e de corte de imagens. Não há sensores de fumaça para detectar incêndios. Para pôr toda a casa em ordem, segundo as contas de Munhoz, a TV Cultura precisa de US$ 15 milhões em investimentos na Grande São Paulo e US$ 10 milhões na rede do interior.

Como em qualquer lar brasileiro que, sem recursos, adia a troca da TV, da geladeira ou do fogão antigos, a Fundação Padre Anchieta vive remediando problemas com o que tem. Do domingo passado até ontem, a Cultura levou ao ar 149 horas de programação, 59% delas de reprises. Não entram nessa conta os programas novos reapresentados em outros dias da semana. É uma política que se repete há quase oito anos. Quando mantinha uma programação original, como com Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da Lua, chegou ao segundo lugar em audiência, com 12 pontos no horário nobre, e virou referência para a TV brasileira.

A atual gestão admite as dificuldades financeiras, mas defende o modelo de reprises. ?Se estou reprisando, na verdade dou oportunidade para que outras pessoas possam assistir?, diz o diretor de Programação, Walter Silveira.

?Não é à toa que o Mickey Mouse faz 60 anos e é o maior amiguinho da minha neta?, afirma o presidente da fundação, o jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima.

Ansiedade – O Vitrine é um dos programas que vêm sofrendo adiamentos sucessivos. O último inédito foi ao ar em dezembro. De lá para cá, só reprise. Deveria voltar com material inédito em março.

Depois, maio. A última previsão, junho. Mas a nova versão já poderia ter estreado. As oito pessoas da equipe de produção estão ansiosas. Já são mais de 15 horas gravadas. ?Está demorando demais, é uma espera angustiante.

Estamos sofrendo com essa crise de ansiedade?, diz Nico Prado, diretor do Vitrine. ?Mas a gente entende que, com essa reestruturação, é preciso esperar.?

Dinheiro pode ser o motivo e a solução da atual crise. Mas há outros ingredientes nessa discussão. A fundação depende de recursos do Estado. De cada R$ 10,00 que entram nos cofres da emissora, R$ 7,00 vêm do governo estadual. Seria uma moeda de troca valiosíssima. Houve épocas em que isso aconteceu, com grosseiras intervenções no conteúdo político da programação.

Só que hoje há uma compreensão de que o governador não manda na rádio, nem na televisão. E o conselho curador manda, mas não tem dinheiro.

Ao deixar de repassar recursos, o governador pode pressionar por mudanças na direção da fundação. É o que estaria ocorrendo, acreditam muitos funcionários, inclusive o de cargos de chefia. Para o governo, os orçamentos da rádio e televisão estão sendo mal-administrados (veja na página seguinte).

Lançamentos – Alheio às discussões dessa crise que se tornou pública, o ator e diretor de programas infantis Fernando Gomes produz a terceira edição do Cocoricó. Com uma equipe de 40 pessoas, usa a criatividade para baratear a produção. Um exemplo: para fazer o boneco Júlio encher uma bexiga, Gomes poderia pensar em usar os recursos de computação gráfica. Preferiu um pedaço de mangueira de jardim. O resultado é perfeito.

?O recurso técnico mirabolante muitas vezes não alcança os resultados esperados. Além disso, a pressão é muito maior quando se está trabalhando com muito dinheiro.? E tudo é feito com a criteriosa supervisão de dois professores e um psicólogo.

Com a nova realidade, a atual administração da TV Cultura vem batalhando por recursos alternativos. As co-produções de documentários são o exemplo mais bem-sucedido, acreditam os dirigentes. Até meados dos anos 90, a emissora produzia uma média de três documentários por ano. Muitos eram traduções.

Hoje, o índice saltou para 70. Mágica? Para o gerente de documentários Mario Henrique Borgneth, não. Hoje, qualquer pessoa com uma boa idéia tem de levar também um projeto. Com isso, forma-se uma parceria em busca de patrocínios.

A exibição? Na tela da Cultura.

Cunha Lima afirma que a emissora tem a melhor relação custo-benefício entre as TVs brasileiras. Significa que para obter uma média entre 2 e 6 pontos no Ibope gasta-se proporcionalmente muito menos do que os canais comerciais. Só que poucos sabem disso.

Dois jornalistas acreditam que é preciso romper com a desinformação. Sugerem divulgar a emissora, fazendo campanhas publicitárias em jornais, revistas e outdoors. ?As pessoas precisam saber que existe um bom produto na Cultura?, diz o apresentador e editor-executivo do Diário Paulista, Ederson Granetto, de 47 anos e há 20 anos fazendo televisão. ?Precisamos aproveitar a imagem positiva que ainda temos?, diz Celso Zucatelli, de 30, apresentador do Edição de Sábado.

Enquanto nada disso acontece e a crise persiste, os 1.177 funcionários da fundação vão travando batalhas diárias. ?As dificuldades estão aí, mas não significa que estamos sentados, esperando. Vamos trabalhar mais e mais para superar tudo isso?, diz Zucatelli.”

***

“Polêmica sobre verbas chega a R$ 11,5 milhões”, copyright O Estado de S. Paulo, 11/05/03

“Até a caixa d?água da emissora, com rachaduras, entrou na discussão: governo garante que repasse vem crescendo nos últimos anos

A solução da maior crise da história da TV Cultura, que parecia próxima de um fim, ainda promete novos capítulos. Em reuniões realizadas na semana passada entre representantes da emissora e do governo, muitos dos impasses de liberação de recursos teriam sido eliminados. Mas na sexta-feira e ontem, os discursos entre Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, e de Andrea Calabi, secretário de Planejamento, voltaram a se desencontrar.

Na sexta-feira, Cunha Lima afirmou que o governo teria concordado em liberar R$ 3,5 milhões para verbas de custeio e discutir a concessão, este ano, de R$ 8 milhões para investimento em equipamentos. No mesmo dia, o secretário de Planejamento, Andrea Calabi, disse que não estaria acertada a liberação das verbas de custeio, cuja cifra seria de R$ 1,6 milhão, e os recursos de investimento poderiam não chegar aos R$ 8 milhões, nem saírem este ano. ?É necessário ver se precisam de toda essa quantia. Dinheiro tem.?

Calabi apresentou planilhas do orçamento mostrando que a Fundação Padre Anchieta tem recebido recursos crescentes nos últimos quatro anos. Para este ano, a Fazenda estadual deveria repassar R$ 89,9 milhões, 31% a mais que o valor de 2002. Já a previsão de crescimento do orçamento do Estado é de 10%.

Ele criticou o fato de dados alarmantes serem tornados públicos para pressionar o governo a não reter 10% das verbas de custeio ou bloquear outras.

?Marola pública como instrumento de pressão é inadequada para a própria TV Cultura?, afirmou o secretário, admitindo que a atual administração da fundação ?pode ter feito menos do que o desejado, mas fez o possível?.

Calabi acredita que problemas como o risco de a caixa d?água da sede da emissora desabar poderia ser resolvido com soluções emergenciais, como remover a água e abastecer o prédio com carros-pipa. Ou que a regravação de fitas de arquivo é um mau sinal: ?Se estão gravando, é porque houve erro de gestão.?

Cunha Lima afirmou ontem que, em relação à liberação de recursos represados, a questão já teria sido resolvida nas reuniões da semana passada. ?Quanto às insinuações de caráter político e moral a mim atribuídas não preciso dar resposta nenhuma porque minha lealdade aos ideais éticos e políticos do governador Geraldo Alckmin datam da eleição de (Franco) Montoro ao governo do Estado, 21 anos portanto, e foram comprovados em todas as posições em que fui alçado nesse período.?

Cunha Lima estranhou que a sinalização dada por Calabi de que a liberação da verba de investimento não está acertada. ?Os R$ 8 milhões são absolutamente indispensáveis, até porque foi mínimo o investimento feito nos últimos nove anos, um período de profundas transformações tecnológicas. Ocorreu a migração do sistema analógico para o digital.?

Sobre a afirmação de que pode ter havido ?erro de gestão? nos sete anos em que está na fundação, Cunha Lima rebateu: ?Estou tranqüilo pelo fato de que no período aumentei de R$ 5 milhões para R$ 39 milhões os recursos próprios da fundação e consegui, apesar de todas as dificuldades, conquistar os maiores prêmios da TV nacional e mundial, incluindo três dos quatro Emmys que o Brasil ganhou em 45 anos de TV.?

Um dia antes, Cunha Lima afirmara que tem reduzido custos de produções e, segundo uma pesquisa, ampliado a audiência da emissora nas classes A e C.

?Meu legado não é caixa d?água, mas uma TV pública e programação de qualidade.?

Recursos – O professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Laurindo Lalo Leal Filho, que publicou o livro Atrás das Câmeras, sobre a TV Cultura, acredita que o momento é adequado para repensar a forma de financiamento da TV pública. Ele sugere a cobrança de aluguéis das emissoras comerciais, como Globo, SBT e Record, pelo uso do sinal público. Essas taxas constituiriam um fundo para as redes de televis&atatilde;o pública.

A presidente da TVE Rede Brasil, Beth Carmona, defende a busca de recursos próprios, mas diz que as emissoras públicas não podem abdicar das verbas do Estado. ?O dinheiro do governo é dinheiro do contribuinte. A TV pública é um bem necessário porque ela estabelece parâmetros, dá o ponto de equilíbrio, forma profissionais e oferece uma opção ao telespectador.?

Beth foi diretora de Programação da Cultura quando a emissora chegou a atingir o segundo lugar de audiência com alguns programas. Na época, com a chancela de ?apoio cultural?, empresas financiavam a produção de programas com a simples contrapartida de exibirem seus nomes. A fundação arrecadava US$ 4 milhões por ano. Atualmente, a empresa Connect, responsável pela venda de espaço publicitário da TV Cultura, arrecada R$ 12 milhões (US$ 4 milhões, na cotação atual). E são exibidos comerciais, como nas emissoras privadas.”

***

“Ato em defesa da TV Cultura”, copyright O Estado de S. Paulo, 8/05/03

“O Sindicato de Radialistas de São Paulo promoveu na tarde de ontem um ato em defesa da TV Cultura, que vive a sua pior crise desde l995. Em campanha salarial, a reivindicação por reajustes maiores foi somada a outras duas bandeiras: mais verba do governo do Estado para manter a emissora no ar e a saída do presidente da Fundação Padre Anchieta, o jornalista e escritor Jorge Cunha Lima.

Não houve participação expressiva dos funcionários no apitaço. A situação, conforme o Estado divulgou no domingo, é crítica e vem comprometendo as operações da emissora. Há equipamentos sucateados, a qualidade de transmissão está sendo prejudicada e até fitas de gravação com antigos programas estão sendo reaproveitadas.

O impasse ocorre porque o governo do Estado já cortou, neste ano, 18,6% do orçamento da emissora, algo em torno de R$ 18 milhões. Para tentar solucionar o problema, houve a demissão recente de 256 funcionários, mas a Fundação não recebeu a contrapartida por essa economia. Funcionários da emissora dizem que o corte de verbas está acontecendo porque o governo estadual não estaria contente com a atual administração da Fundação, mantenedora da TV Cultura, e quer forçar a saída de seus dirigentes. Apenas o Conselho Curador pode destituir a atual direção.”

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