Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > MERCADO EDITORIAL

Eduardo Ribeiro

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

JORNALISMO INVESTIGATIVO

"Brasil terá Associação de Jornalistas Investigativos", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 27/11/02

"Falamos, aqui, neste Jornalistas&Cia – Cenários, semanas atrás, da idéia lançada por Marcelo Beraba, diretor da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, de fundar no Brasil uma Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos, semelhante à Investigative Reporters and Editors – IRE, dos Estados Unidos. Pois bem, a idéia evoluiu e a associação está nascendo. O marco será neste próximo dia 7 de dezembro (sábado), quando cerca de cem colegas participam, na Escola de Comunicação e Artes, da USP, de um seminário internacional sobre jornalismo investigativo, e, ao final, reúnem-se para discutir a crição da associação.

O arcabouço já está esboçado, pois a idéia é constituir uma instituição absolutamente independente, mantida com recursos exclusivamente dos associados, sem nenhum fim lucrativo, que promova congressos, seminários, oficinas especializadas, que cuide do aperfeiçoamento profissional dos jornalistas interessados no tema investigação, que edite livros sobre o assunto e que seja um fórum de trocas de experiências.

A coordenação do seminário está sendo feita por Rosental Calmon Alves, colega com anos de experiência na grande imprensa brasileira e que está há alguns anos radicado nos Estados Unidos, dirigindo o Knight Center for Journalism in the Americas, da University of Texas at Austin (School of Journalism). Rosental coordenou o seminário anterior, realizado no primeiro semestre no Rio de Janeiro, e aceitou a missão de organizar esta nova edição, em São Paulo, agora como um evento preparatório e indutor da fundação da Associação idealizada por Beraba.

O núcleo já existe e é integrado por 120 colegas que responderam ao estímulo e participam de uma lista de discussão que vem funcionando regularmente, a ponto de motivar a realização do encontro e o debate em torno da possível criação da instituição. O Seminário terá uma sessão no dia 6 de dezembro (6? feira) aberta ao público, tendo como debatedores Rosental, Brant Houston (diretor executivo da IRE) e Pedro Enrique Armendares (diretor executivo da Periodistas de Investigación – do México). No sábado, Houston e Armendares farão a abertura do evento falando sobre tendências e práticas do jornalismo investigativo em outros países.

Na seqüência, três workshops simultâneos (e que serão repetidos após o almoço para que cada pessoa possa participar de pelo menos duas sessões) vão abordar as questões: (1) Reportagem, assistida por computador (com Houston); (2) Pesquisa avançada na internet (com Armendares); e (3) Investigando a lavagem de dinheiro (tendo como debatedores Deomar Vasconcellos de Moraes, coordenador-geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal, e Celso Três, procurador da República, com mediação de Fred Vasconcelos, repórter especial da Folha de S. Paulo. Também deverão estar presentes o presidente da associação dos Juízes Federais, Paulo Sérgio Fernandes, e vários colegas que têm acompanhado este trabalho, como Luís Nassif e Márcio Chaer.

O evento, no sábado, será restrito, mas no caso de interesse em participação, o ideal é fazer um contato com a coordenação do projeto, através do site (aqui).

Num país como o Brasil, onde o grau de violência contra a imprensa e contra os jornalistas é ainda lamentavelmente grande, e onde não faltam assuntos para o chamado jornalismo investigativo, particularmente pelo ainda alto nível de corrupção existente, o surgimento de uma Associação de Jornalistas Investigativos, integrada e apoiada por grandes nomes do nosso jornalismo, com o amparo das instituições internacionais, deve ser saudado como mais uma conquista da democracia e do próprio jornalismo.

Mais do que um ganho corporativo, trata-se de uma iniciativa que gerará benefícios diretos para toda a sociedade brasileira. Que seja, portanto, bem-vinda."

CASO PEDRINHO

"De costas, a traição", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 29/11/02

"Vamos dizer que você, caro leitor, seja processado por um motivo qualquer. A gravidade do crime que lhe é atribuído é o que menos importa.

Diz a lenda que você é inocente até que se prove o contrário.

Você terá amplo direito de defesa e irá a julgamento – com advogado, promotor e até juiz -até juiz!!!

Da acusação inicial ao veredicto, da polícia até o fórum, muito se dirá, contra e a favor do que você faz e de quem você é.

Tudo será analisado, até a conclusão.

Você poderá ser considerado inocente ou culpado.

Se for inocentado, seguirá a sua vida e deixará esse episódio para trás – ao menos tentará esquecer e levar a vida dos que nada devem.

Condenado, vai ter de carregar o ônus determinado pela lei.

Mas vamos temperar a sua história: o crime de que você é acusado tem contornos cinematográficos – ênfase no drama, no suspense ou até mesmo no terror.

A lei o protege de uma condenação sumária. Assim é nos países (ditos) civilizados.

Mas a acusação é saborosa para o público. É muita emoção para ser desperdiçada…

Os jornalistas sabem disso. Vestem o jaleco e passam a servir a refeição. O prato é barato, para eles e para o público.

Para eles porque não precisarão de muito fosfato para ir atrás de algo ?interessante?. É a lei do menor esforço. Pra que ir atrás de outras notícias -quiçá muito mais relevantes- se já se tem uma nas mãos, um pacote com o espetáculo, a vendagem, a audiência?

Quanto ao público… Bem, nada mais ?catártico? do que chafurdar no mal alheio.

?Bla-bla-blar? a (suposta) miséria dos outros é um dos meios mais conhecidos de fugir da própria mediocridade (ressalvo os cidadãos que imergem na repulsa, na indignação que constrói uma sociedade melhor. Mas esses costumam perseguir o bom senso).

Temos, pois, um set completo: a televisão chegou para divulgar o absurdo.

Você, que pode ou não ser inocente, já foi condenado pelo tribunal da superexposição.

Juízes e advogados de acusação, há aos montes, pelas esquinas.

Pode ser seu ex-namorado (ou ex-namorada), o ex-marido, a ex-mulher, a ex-empregada, o ex-cachorro mal alimentado…

Alguns jornalistas não gostam muito dessa história de distinguir.

Um exemplo: no Domingo Legal passado – o showzinho do Gugu no SBT- pegaram uma mulher que conviveu (pelo menos é o que dizem) com a tal cidadã acusada de seqüestrar bebês nas maternidades. De costas para a câmera, a ?testemunha? (ou será a ?promotora??) contou detalhes embaraçosos da vida conjugal da ?acusada? e do marido morto – que, por sinal, não pode mais se defender- e deu sua sentença, provocada pela repórter (?ou assistente de acusação??): ?Vilma é uma Judas?.

Assim. De costas, em rede nacional.

Já pensou se fosse com você, caro leitor? Se alguém – por exemplo – com quem você discutiu certa vez, por um motivo fútil, ?ajudasse a esclarecer? o seu caso, de costas, chamando-o de Judas dentro da casa de um corpo de jurados de vários milhões de pessoas?

?Mas e o meu julgamento lá no fórum??- perguntará você.

?Bobagem?- responderão os ?jornalistas-advogados-promotores-juízes-carrascos?: o kit da verdade.

Ainda sobre esse caso. No mesmo programa, a tal repórter – que para mim não precisa ter nome pois só reflete um pensamento dominante no meio televisivo- mostra a casa da família que criou Pedrinho.

Vai entrando, entrando… O portão está aberto, parece que não há ninguém em casa.

O câmera aproveita e, pela janela, invade a sala com um close.

Não se esqueça, leitor, podia ser a sua casa…

A repórter fala aquelas coisinhas de sempre, até o momento em que chegam as familiares de Pedrinho (incluindo, acho -pois não ficou claro-, a irmã que estaria vivendo um drama ?biológico-familiar? idêntico).

Pausa: imagine você, leitor, que não cometeu crime algum – antes, pode ter sido a vítima de uma vida inteira de mentiras- sendo perseguido diuturnamente por ?repórteres que só querem melhorar a sociedade?… Imagine o que é enfrentar o seu dia-a-dia -em meio a um drama como esse- e ainda ter de ficar mostrando a cara para o mundo inteiro, sem que possa escolher, se quer ou não escancarar sua vida…

Em frente: a jornalista vai para cima, em busca de seu ?furo?. As moças que acabaram de chegar reagem mal, expulsam-na da área da casa. A repórter só reproduz aquele famoso: ?Não me encoste, estou fazendo o meu trabalho?- sempre com aquela cara de vítima que só os atores e os repórteres sabem fazer tão bem.

A discussão se avoluma e, no fim das contas, uma das mulheres da casa acaba cuspindo na repórter.

Ponto para o Ibope: a repórter conseguiu o que queria: tornou-se ?mais vítima ainda? e mostrou ao Brasil um ?bando de desequilibrados? (a expressão e as aspas são minhas).

No estúdio, o ?jornalista? Gugu, formado pela Cásper Líbero, em São Paulo, aconselha, com aquele ar consternado, preocupado mesmo:

?Essa é a família que criou o Pedrinho?. Em seguida: ?Tire suas próprias conclusões?. Mais adiante, repete: ?Tire suas próprias conclusões?.

A minha eu já tirei, Gugu. O que você e a sua equipe fizeram é algo mais do que desprezível: é criminoso.

Mas você não está sozinho: o seu é apenas um entre tantos tribunais covardes.

Tire, leitor, as suas próprias conclusões…"

CRIMES NA MÍDIA

"Crimes do desejo", copyright Jornal do Brasil, 29/11/02

"Depois de Suzane, Gustavo. Os fatos são conhecidos e reconhecidos, pois são noticiados e re-noticiados sem cessar, mas mesmo assim eu faço aqui uma breve retrospectiva. Vamos lá.

Segundo a polícia, Suzane é cúmplice do assassinato de seus pais, Manfred e Marísia Richthofen, que foram mortos a pauladas, enquanto dormiam, na noite de 31 de outubro. Daniel, namorado de Suzane, e o irmão dele, Christian, executaram o crime. Minutos depois, Suzane e o namorado foram para um motel.

A história de Gustavo é parecida. Na madrugada de domingo, depois de consumir 26 papelotes de cocaína, matou a avó e a empregada. Como Suzane, confessou seus atos. E disse que, se a mãe estivesse em casa, ele a teria matado também.

Suzane tem 19 anos. Gustavo, 22. Moravam em boas casas. Ela estudava Direito. Ele também, mas havia desistido: planejava cursar Educação Física. Não passavam necessidade. Não lhes faltava conforto material. Suzane diz que matou por amor. Os pais, supostamente, eram contra o seu namoro. Gustavo diz que matou porque exagerou no consumo de coca. Está deprimido na cadeia.

Conclusão dos fatos: a morte espreita os pais pelos olhos de seus filhos. É uma conclusão apavorante demais. Por isso, logo após os fatos, vêm as explicações. As explicações são fundamentais. Legistas, psicólogos, delegados, astrólogos, advogados e comentaristas de TV sempre têm uma chave que desvenda o mistério do parricídio em famílias ricas. Por que esses jovens matam? A teoria mais lugar-comum afirma que as novas gerações, educadas no consumismo, não sabem conviver com limites e com frustrações. Eu, pobre de mim, não posso explicar nada. Nem me meto a explicar nada. Mas eu posso pensar, isso eu posso, sobre a necessidade que o público parece ter dessas explicações.

Quase todas são explicações ideológicas reconfortantes. Logo se aponta um ?distúrbio? na família que sofreu a brutalidade e esse ?distúrbio? a diferencia de todas as outras famílias. Assim, a família vitimada é ao mesmo tempo tornada pública e tornada atípica. Ela se torna conhecida de todos e, ao mesmo tempo, diferente de todas as famílias ?normais?. Ao descrever a tragédia dessa família ?diferente? como uma sintomatologia de doença, de deformidade moral ou hormonal, o texto jornalístico reforça o sentido de proteção que experimentam aqueles que se imaginam dentro dos padrões da ?normalidade?. (Um artigo de Maria Rita Kehl, publicado no domingo no caderno Mais! do jornal Folha de S. Paulo, toca, ainda que rapidamente, nesse mecanismo ideológico. Vale a pena ler.)

Há algo de mais profundo aí. Todo discurso – inclusive o discurso jornalístico, podemos pensar – cumpre uma função ordenadora ou disciplinadora. Pense no que significa noticiar um acontecimento. Pense, agora, nas implicações ordenadoras que existem no ato de noticiar. Noticiar, além de ser a divulgação de informações em primeira mão, é também a divulgação de uma fala que disciplina, que ordena as coisas. Noticiar é separar o saudável do doentio, o lícito do ilícito. Noticiar, muitas vezes, é separar o dizível do indizível, é estabelecer o que deve ser pensado e o que não cabe no pensamento. (O filósofo francês Michel Foucault se interessava por estudos de assuntos como esse, como se sabe. Gilles Deleuze também. Aos interessados, vai aí uma dica: logo no início de 2003 chegará às bancas o livro de Mayra Rodrigues Gomes, O poder no jornalismo: discorrer, disciplinar, controlar, pela Hacker Editores, de São Paulo, que aprofunda bem o tema.)

Pois bem, ao lidar com o parricídio, o jornalismo, seja ele mais ou menos sensacionalista, tende a reconstruir as bases ideológicas da família, bases que são destroçadas nesse tipo de crime. Daí que os especialistas entrevistados, o encadeamento das frases, a seqüência de fotos e de imagens, a satanização natural e inevitável dos culpados (?Afinal de contas, olha só a atrocidade que eles cometeram!?), tudo concorre para recompor o alicerce da família como um alicerce de amor e não de ódio, de bem e não de mal, de união feliz e não de esquartejamento louco. Quando o parricídio ocorre em bairros pobres, só o que se verifica é que o sensacionalismo deita e rola. O sensacionalismo se delicia, e só, pois não tem de explicar coisa alguma. Nesses casos, o mal dos infelizes é o seu fracasso econômico e ponto final. Outras explicações se fazem dispensáveis. Mas quando o crime acontece na camada dos abastados, a operação é mais cuidadosa e mais delicada. O mal, aí, tende a precisar de um parecer abalizado, mais ?científico?, mais específico, mais tópico. Surgem então as enfermidades psiquiátricas, as dependências, as possessões. Tudo para reconfortar o público. ?O crime aconteceu?, imagina o leitor, o telespectador, o ouvinte, ?porque eles sofrem de um problema que eu não tenho, de um distúrbio que não me acomete.?

Pronto, estão todos salvos de novo.

O cidadão do público precisa de um discurso que o proteja da extrema liberdade dos que matam por pressa de prazer, dos que matam a avó porque ela é chata, dos que matam os pais porque eles não deixam namorar. Precisa de um discurso que o encarcere, feito um carro blindado, de um discurso que o catalogue como ?normal?. Precisa do conforto de não ter de pensar no desejo, no desejo que não admite barreiras e que nos assombra sem ser nomeado. Precisa, por fim, do conforto de acreditar que a violência não brota do desejo, mas apenas da necessidade ou da doença. Dos outros."

MERCADO EDITORIAL

"W11 pretende lançar 60 livros em 2003", copyright O Estado de S. Paulo, 30/11/02

"Na semana que começa amanhã, chegam às livrarias os primeiros 11 títulos da editora W11, sociedade dos jornalistas Wagner Carelli e Sonia Nolasco. Os livros devem ser distribuídos a partir de quarta-feira até o próximo sábado. O lançamento oficial da editora e dos títulos ocorre na sexta-feira, dia 6 de dezembro, no Centro Brasileiro Britânico (Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros, tel. 3814-7050), às 19 horas.

O projeto de Sonia e Carelli começou a ser idealizado há um ano, depois da saída de Carelli da Editora Globo. Segundo ele, o investimento na empresa gira em torno de US$ 100 mil.

?Nossa idéia é avançar com mais rigor ao longo do ano; achamos que a editora tem potencial e vamos ver como o mercado reage?, afirma Carelli.

Inicialmente, a W11 espera publicar 60 títulos em 2003.

A W11 nasce com quatro selos diferentes: o Francis, pelo qual sairão livros de ficção, ensaio e biografia, o Religare, para obras de psicologia, filosofia e religião, o Novo Paradigma, para obras de desenvolvimento pessoal (auto-ajuda) e administração, e o W11, para literatura juvenil, infantil, livros ilustrados, guias e manuais.

?Achamos que a adoção de selos diferentes permite ampliar nossa linha editorial sem perdermos a identidade; diferentemente do que ocorre muitas vezes no mercado, nossos selos terão uma linha editorial muito clara.

O selo Francis começa publicando os dois primeiros romances do jornalista que lhe empresta o nome, Paulo Francis, morto em 1997 e marido de Sonia Nolasco. A editora planeja, a partir de Cabeça de Papel e de Cabeça de Negro, relançar a obra completa do jornalista (os dois romances de Sonia serão publicados no início do ano que vem).

O selo Francis lança ainda os romances Lisboa, noir do fotógrafo J.R. Duran, Tunturi, do escritor português António Vieira, Eleanor Marx, Filha de Karl, de Maria José Silveira, e Dona Deusa e Seus Arredores Escandalosos, de Eliziário Goulart Rocha, e o livro de contos O Último Sábado, de Orlando Bastos.

Pelo selo Religare, a W11 vai lançar A Inveja Criativa, de Carlos Byington.

Pelo Novo Paradigma, as obras de estréia são O Poder do Perdão, de Fred Luskin, e Um Retorno ao Amor, de Marianne Williamson. E o selo W11 inicia sua vida com Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos, também de Eliziário Goulart Rocha."

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