Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES >   MEMÓRIA / MANOEL DOS REIS ARAÚJO

Eduardo Ribeiro

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

PERSPECTIVAS 2003

“O que esperar de 2003 – Parte II”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 2/01/03

“Comentei aqui no último artigo deste Jornalistas&Cia – Cenários a significativa dependência de nosso mercado ao desfecho do caso Gazeta Mercantil. O que é explicável, tendo em vista que as expectativas para 2003 são na melhor das hipóteses de um crescimento muito moderado. É óbvio que uma turbulência maior – como seria o caso do fechamento da Gazeta Mercantil – num cenário como esse, poderia realmente abalar o mercado.

Não se espera muito de 2003, no campo da mídia. As empresas trabalham, em suas projeções, com números muito tímidos e tudo faz crer que continuarão conservadoras mesmo com ventos a favor.

Peguemos a publicidade, por exemplo, que é um dos principais termômetros para o jornalismo. Ela encolheu a olhos vistos e continua encolhendo, numa briga tão ou mais ingrata do que a dos jornalistas. As agências nunca enfrentaram inferno astral como esse que vimos em 2003. As verbas minguaram e migraram e nada faz crer que retornem aos mesmos patamares. E isso é uma das coisas que preocupam todos os que dependem desse mercado. É que as empresas decidiram destinar parte de suas verbas para outras ações promocionais, interessadas em fidelizar clientes e em ter um corpo a corpo com eles.

Com isso, descobriram que podiam diminuir seus investimentos na mídia de massa, sem conseqüências desastrosas nas vendas. E se esse preceito for verdadeiro, é muito pouco provável que essas verbas retornem ao meio. Outro aspecto, ainda sobre as agências, é que elas tiveram de renegociar seus fees e comissões, já que os anunciantes não mais se mostravam dispostos a ?engolir? os tais 20% de lei, pagos sobre as veiculações. Isso foi um baque na indústria da publicidade e tem feito estragos impressionantes, sobretudo em termos de emprego. Também lá, as demissões ocorreram em massa.

Outro dado que devemos olhar é o endividamente das organizações jornalísticas. As três maiores, respectivamente nos segmentos de televisão (Globo), revistas (Abril) e internet (UOL), têm dívidas cavalares, (Globo e Abril em dólar), e sem a mínima perspectiva de solução no curto prazo. O caso da Globo é o mais sintomático, pois jamais o mercado poderia esperar que as organizações da família Marinho um dia chegassem às portas da moratória, como chegou. Essas empresas, portanto, continuarão vivendo um bom período de inferno astral, e mesmo buscando novas oportunidades não se deve esperar que afrouxaram o nó do enxugamento e da contenção de custos. Qualquer centavo será importante para diminuir o buraco. E muitos desses centavos são conseguidos, infelizmente, às custas de empregos. A tábua de salvaç&atilatilde;o poderia ser o capital internacional, mas este anda avesso a investimentos no Brasil, como se vê.

Se pegarmos os últimos meses, vamos ver que apenas uma empresa jornalística mostrou-se otimista e com disposição de empreender. A Editora Três, de Domingo Alzugaray, é a única que garantiu que fará investimentos novos em 2003. Durante o evento que promoveu há alguns dias em São Paulo, numa promoção conjunta de suas três semanais – IstoÉ, Dinheiro e Gente -, com a presença de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, Alzugaray disse que sua editora vai lançar uma quarta semanal em 2003, mas não disse em que segmento. A má notícia, no caso da Três, é que a empresa trabalha com equipes enxutíssimas, o que quer dizer que mesmo sendo uma semanal não se devem esperar grandes arroubos em termos de contratações. Mas elas certamente ocorrerão.

Da Editora Globo pouco se deve esperar, pois foi a empresa que mais sacrificou seus quadros, para conter os crescentes prejuízos e tem uma situação de muito pouco prestígio dentro das Organizações Globo.

A Símbolo, hoje super enxuta, parece preparada para retomar o crescimento e é uma das que certamente preparam lançamentos para 2003. Mas, a exemplo da Três, ficou escaldada com a crise vivida, e certamente será muito moderada em todos os sentidos.

Temos aí uma boa perspectiva em relação aos títulos da Bloch. Caso se consolide a aquisição por parte de Marcos Dvoskin (ex-diretor geral da Editora Globo) – que venceu o leilão -, teremos, aí sim, uma nova editora no mercado, que vai gerar um número considerável de empregos e muito trabalho. Dvoskin poderá relançar títulos fortes como Manchete, Fatos&Fotos, Pais&Filhos, Ele&Ela, Desfile e Amiga, entre outros, o que seria realmente um fato alvissareiro para o mercado jornalístico. Ele, sozinho, não terá obviamente cacife para bancar uma empreitada dessa magnitude, mas certamente não faltarão interessados em se associar ao projeto, pois as perspectivas de ganhos são reais e absolutamente factíveis.

No campo da televisão, a Globo aparenta estabilidade. E, das demais, a única que sinaliza timidamente com investimentos no campo do jornalismo é o SBT. O problema é que a emissora de Sílvio Santos – por influência direta dele – usa o jornalismo como sanfona, investindo e desinvestindo ao sabor dos humores e dos ventos. O que quer dizer que por lá nada é muito seguro.

Um outro campo que poderá continuar a trazer boas surpresas é o da comunicação corporativa, particularmente se as agências de comunicação conseguirem avançar em seus propósitos de pegar um naco das verbas de comunicação do serviço público. É muito dinheiro e tem muito trabalho pela frente. Caso consiga negociar bons contratos, certamente será uma intensa empregadora de mão-de-obra jornalística, como aconteceu recentemente com a Lide (uma das maiores agências do País), que, para dar conta de um único contrato com uma subsidiária da Petrobras (a Transpetro), abriu 31 novas vagas.

Aos leitores do Comunique-se e, em especial, deste Jornalistas&Cia – Cenários, os votos de um 2003 com muita saúde e sucesso. E, de preferência, com os empregos de volta. Não vai ser fácil, mas temos esperança.”

 

JORNALISMO & COTIDIANO

“Nós, os escravos das notícias ordinárias”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 2/01/03

“Toda virada de ano me vem o tal pensamento: para os otimistas, mais um ano vivido; para os pessimistas, menos um, na contagem regressiva que nos conduz ao fim da linha.

Flerto com a segunda assertiva. Melancólica, é verdade, mas inspiradora de uma interpretação tranqüila e nem por isso menos realista dos fatos que vivemos dia após dia.

Trata-se de um exercício honesto de observação. Pois, o que quer que idealizemos, nada será capaz de nos privilegiar: seremos, sim, testemunhas da inexorabilidade de um papel há muito definido pela engrenagem da natureza. Assim foi, assim é e assim será. Poderemos clonar corpos, jamais a consciência imanente a cada um de nós. Temos, portanto, a certeza da finidade da experiência histórica do indivíduo – histórica, repito, já excluindo do debate as considerações metafísicas, tema caro mas estrangeiro à proposta deste artigo.

Estender o olhar para longe do cotidiano é um privilégio. Torna tudo mais aceitável. Não se trata de uma fuga, mas de saber pesar as experiências, sem roubar para mais ou para menos. Por vezes, o que julgamos inaceitável não é mais do que um arbítrio de nossos caprichos.

O apego ao ?tecnicamente correto?, expressado por um ?então? chefe de redação, muitas vezes nada mais é do que… o apego ao ?tecnicamente correto? do ?então? chefe de redação largamente influenciado pelo contexto histórico, sócio-econômico e cultural. Um falso líder que carece de formação filosófica que lhe propicie essa visão que os antropólogos classificam de ?estranhamento?. A conseqüência é paupérrima: fazem-se seres práticos com objetivos a cumprir. E nada mais.

É uma falta que contamina o grupo com conceitos definitivos, com ?corolários? jornalísticos tão a gosto dos personalistas sabe-tudo. Desse saco de preceitos saem as recompensas e as punições. Autômatos julgam autômatos, com um chicote metálico nas mãos. Os que estão embaixo na pirâmide contentam-se em construir outras pirâmides – dentro e fora das redações. Propalam-se conceitos como ?reengenharia?, ?eficiência e eficácia?, ?amoralidade do lucro?, ?rabo preso com o leitor?, ?respeito absoluto aos manuais?, ?ética? (mas só para os outros), ?tolerância zero? com os erros (dos outros)…

Tome-se esta frase extraída do livro ?Hiroshima?, de John Hersey (Companhia das Letras, p. 012). O trecho versa sobre os hábitos do padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão que se tornou cidadão japonês com o nome de Makoto Takakura (Kleinsorge era um hibakusha, um sobrevivente da bomba atômica lançada pelos americanos em Hiroshima): ?O padre Hasegawa, um japonês que o visitava de quando em quando, admirava seus esforços para levar sua naturalização à perfeição, mas sob muitos aspectos o achava inabalavelmente alemão. Se algum obstáculo o impedia de alcançar seu objetivo, o padre Takakura tendia a insistir com maior empenho, enquanto um japonês tentaria, mais diplomaticamente, encontrar outro caminho?.

Parece que temos muitos ?alemães? nas redações brasileiras. Almas obstinadas pela tradição e pela ?nova tradição?, à retaguarda de suas viseiras douradas. Vêem apenas o que ?o leitor?, ?o ouvinte?, ?o telespectador? precisam ver – interprete-se: o que o ?mercado? deseja (mais, mais, cada vez mais e mais…).

Para além da história e do cotidiano, todos nós, jornalistas ou não, deveríamos tentar enxergar o infinito. Mais do que nos vaporizar pelo abstrato, entenderíamos melhor o hodierno.

Em uma viagem para o exterior, vi-me nutrido, num punhado de meses, de uma estranha sensação: eu poderia não ter nascido, não ter nem sequer conhecido o Brasil. Esse sentimento, revalidado a cada dia na distância de minha cultura natal, esvaziou a importância de muitos de meus embates de início de carreira (contra pessoas que, covardemente, tentaram me barrar os passos). Não que eu passasse a desprezar o resultado das altercações – traduzidas em experiência e – como bem diz o Nietzsche – na afirmação da minha vontade de potência – amparada pelo que eu julgava correto naquele momento histórico. Mas algo me chamou a atenção: a distância e a relativização do binômio tempo-espaço fizeram definhar, em minha consciência, a relevância dos ?ditadores? do status, de certos diretores que se supunham – e ainda se supõem – a fina-flor do jornalismo mundial, no jardinzinho regado por capatazes sôfregos. No entanto, em meu insight, era como se nunca houvessem existido.

Precisamos refletir…

Uma sugestão – para quem não tem tempo nem dinheiro para uma pausa em nossa cultura de reprodução vazia: o livro ?O Mundo Assombrado pelos Demônios – A Ciência Vista Como uma Vela no Escuro? (Companhia das Letras), do cientista Carl Sagan, autor, diretor e apresentador da série ?Cosmos? – disponível em boas locadoras de vídeo. Os escritos e as produções audiovisuais de Sagan – um ?cético esperançoso?, um cientista de ?mente aberta? nos conduzem, didaticamente, a uma viagem crítica pelo universo – nem o jornalismo escapa, acusado de incentivar, veicular e lucrar com as superstições.

Precisamos de ciência e de filosofia…

Em sua primeira edição de 2003, o site Observatório da Imprensa publicou um excelente artigo de Ulisses Capozzoli, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor da revista Scientific American Brasil. Sob o título ?O sentido de estarmos aqui?, o autor nos convida a ?recuperar alguns valores da vida?. Dois trechos capitais:

a) ?Uma das funções do jornalismo, ao menos do jornalismo impresso, certamente é a de discutir o que o professor João Battistioli, da PUC-SP, chamou outro dia, num debate sobre clonagem transmitido pela TV Assembléia, de ?niilismo profundo?, evocando reflexões de Nietzche e Schopenhauer. Do interior do niilismo, o mundo não faz sentido.

Mas as redações são, na maioria dos casos, elas próprias espaços de negação. Jornalistas, talvez mais que outro tipo de gente, são prisioneiros do universo cartesiano. Trabalha-se em fins de semana, dias santos e outros feriados. Diariamente, a cada final de semana, todo fim de mês, dependendo da publicação, é preciso fechar uma edição. Não sobra tempo para reflexão?.

b) ?Também as estrelas nascem, vivem e morrem. Se um observador não levar em conta nada disso, certamente terá perdido a melhor parte da experiência de estarmos aqui. Daí a vantagem deste balanço de fim de ano e a perspectiva de se vivenciar o que os gregos antigos chamaram de ?cosmos?, o sentimento de harmonia, de pertencer ao Universo e não apenas o sentimento de derrota por não ser um super-homem ou uma supermulher. Até porque, para cada um deles, também há uma porção de kriptonita?.

Já disse que precisamos de reflexão, de ciência e de filosofia. A combinação que nos apresentará a humildade, em nossas atitudes e, também, no reconhecimento de que estamos subjugados pela roda-viva de uma mesmice presunçosa, pela escravidão de um modelo de ?profissionalismo? asfixiante e por um arcabouço noticioso engessado e comprometido com a intrigante monotonia de nossa era: muito se faz e muito se diz sobre muitas coisas; pouco se pensa sobre como tudo isso pode ser descartável – apesar da pose de ?importante?, da fachada onde se lêem palavras como ?imprescindível?, ?competente? e ?superior?.

Resumindo: como diria meu avô húngaro, quanta ilusão…”

 

MEMÓRIA / MANOEL DOS REIS ARAÚJO

“Centenário do jornalista Manoel dos Reis Araújo”, copyright O Estado de S. Paulo, 5/01/03

“Será celebrada amanhã, às 19h30, na Igreja de Santa Tereza, na Rua Clodomiro Amazonas, missa de centenário de nascimento (1903) do jornalista Manoel dos Reis Araújo, que durante décadas trabalhou no Estado. Natural de Santa Rita do Passa Quatro, foi admitido no dia 26 de novembro de 1931, para exercer as funções de correspondente deste jornal em São José do Rio Preto, na Alta Araraquarense, indicado pelo dr. Ibanez de Morais Salles, diretor de O Estado.

Em 1934, assumiu o cargo de oficial de gabinete do secretario da Agricultura na Interventoria do dr. Armando de Salles Oliveira. Embora não integrasse o quadro de redatores do jornal, o jornalista Manoel dos Reis Araújo continuou prestando a sua colaboração ao Estado. Tentou manter uma coluna – Atividades rurais -, registrando informações de interesse de agricultores e criadores.

Porém, os interventores do jornal, na ditadura de Getúlio Vargas, resolveram suprimir a coluna que só foi restabelecida quando o jornal voltou às mãos da família Mesquita. Diretor de Publicidade Agrícola, da Secretaria da Agricultura, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Na ocasião. entre outros, o ex-governador Roberto de Abreu Sodré enviou mensagem, dizendo a certa altura: ?… Seu passado de profissional honrado, eficiente e democrata constitui a garantia de que o orgão sindical continuará a prestar relevantes seviços ao regime.?

Ao longo de sua vida de jornalista colaborou em diversos jornais de Rio Preto. Como diretor de A Notícia, publicava os ideais da Revolução de 32, naquela cidade, participando também como soldado do Regimento. Em 1951, em Bruxelas, participou da comissão brasileira ao IX Congresso Internacional de Organização Científica, tendo sido secretário do X Congresso, no mesmo ano, em São Paulo. Em 1958, fez o curso da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, tendo sido também presidente do Instituto de Organização Racional do Trabalho – Idort. Dedicado a assuntos do interior, o Maneco, como carinhosamente era conhecido na redação, antes de sua morte, escreveu a Arte do vinho na região de São Roque, artigo em que discorria sobre a enologia com a mesma proficiência com que tratava todos os assuntos. Sugeria que o curso sobre enologia que seria ministrado em São Roque fosse estendido a outros municípios que também produziam bons vinhos.

Meses depois do falecimento, no dia 25 de janeiro de 1966, o jornalista Adriano Campanhole, já falecido, que também foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, em discurso pronunciado no II Econtro Indústria Biblioteca, disse a certa altura: ?… Quando eclodiu a Revolução de 31 de março, Maneco se desdobrou num esforço tremendo, perante as autoridades competentes, da polícia civil e do Exército – ele que possuia curso da Escola Superior de Guerra, curso que reduzido número de homens têm gabarito para fazer – no sentido de livrar companheiros nossos de complicações daqueles dias inquietos e imprevisíveis.?”

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