Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ASSESSORIA & JORNALISMO

Eduardo Ribeiro

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

ASSESSORIA & JORNALISMO

“O decálogo de Kotscho e Kucinski”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/1/03

Um dos assuntos mais polêmicos que tive a oportunidade de trazer para este Jornalistas&Cia – Cenários foi a discussão sobre o enquadramento profissional da atividade de assessoria de imprensa. O artigo despertou críticas e elogios – esses surpreendemente em maioria – exatamente por abrir uma discussão que tem ficado muito nos escaninhos do jornalismo ou inteiramente presa aos ambientes corporativistas, através das entidades de classe.

Seria a assessoria de imprensa uma atividade jornalística? Não, em minha opinião. E não só minha, mas de um signicativo número de profissionais de todo o País e de várias partes do mundo.

Complemento a defesa de meu ponto de vista, argumentando que jornalistas exercendo a atividade de assessoria de imprensa continuam sendo jornalistas, continuam valendo-se das técnicas jornalística e continuam pensando e atuando como jornalistas, mas numa atividade claramente não jornalística, que foi criada para – com toda a legitimidade – dar vida, visibilidade e voz a setores organizados da sociedade, sejam eles empresas, governos, instituições, artistas etc. Em síntese, assessoria de imprensa vale-se de todas as técnicas jornalísticas para fazer bem feito um trabalho e ganhar espaços gratuitos nos veículos de comunicação para um determinado empregador ou para um determinado cliente – caso das agências.

Não há nenhum demérito nisso. É apenas um modo de definir com clareza a diferença de funções e de responsabilidades de cada um dos lados em questão e de jogar luz sobre uma antiga discussão, que atinge sobretudo colegas que deixaram a grande imprensa para trabalhar ?do outro lado do balcão?. E isso é tão verdadeiro que essa própria expressão ficou consagrada entre os jornalistas.

Ora, quem deixou a redação deixou temporariamente o jornalismo, mas não deixou, por isso, de ser jornalista. Ao contrário, vai até poder desenvolver melhor suas funções de assessor exatamente por ser jornalista, por conhecer as necessidades dos colegas das redações, por saber o poder que a mídia tem na imagem de qualquer corporação, enfim pelos compromissos éticos e profissionais que vivenciou e defendeu ao longo da carreira.

Vou aqui tomar a liberdade de citar uma pérola utilizada por Ricardo Kotscho, Secretário de Imprensa da Presidência da República, em reunião que teve com sua equipe de Comunicação na última semana.

Disse Kotscho: ?De cara, vamos deixar bem claro que jornalismo, de forma geral, e assessoria de imprensa, em particular, não são ciências exatas. Não existe uma fórmula científica, nem tese acadêmica que garanta o nosso êxito nessa função. Por isso, conto com a ajuda de vocês para que, a cada dia, ao longo do governo, possamos construir juntos uma política de comunicação com a imprensa e a sociedade que seja realmente de utilidade pública. Muitos de vocês, como eu, passaram a carreira do outro lado do balcão, reclamando dos assessores de imprensa. Agora, temos a oportunidade de mostrar na prática que é possível fazer aquilo que cobramos dos outros. Em apenas três semanas na Secretaria de Imprensa e Informação, já aprendi que nós não devemos deixar de ser repórteres se quisermos bem desempenhar nossa função de assessores. A diferença, agora, é que devemos exercer esta missão em duas vias. Ou seja, apurar o que acontece no governo para informar à sociedade por meio da imprensa e, ao mesmo tempo, ficar atento para o que acontece na sociedade para informar o governo. Se possível, devemos sempre nos antecipar às solicitações da imprensa, tomando a iniciativa da divulgação, e não só quando se tratar de notícias favoráveis ao governo.(….)?

Reparem que mesmo sem preocupações acadêmicas ou de precisão da qualificação profissional ou da atividade, Kotscho utiliza a mesma linha de raciocínio que a colocada acima, embora possa até discordar de tudo o que estou escrevendo. Ao falar, claramente, que jornalismo, de forma geral, e assessoria de imprensa, em particular, não são ciências exatas, ele já dá a entender aos interlocutores que são, sim, coisas distintas, embora próximas. Mais à frente ele diz: ?Muitos de vocês, como eu, passaram a carreira do outro lado do balcão, reclamando dos assessores de imprensa.? É uma frase autoexplicativa. Mais adiante ainda, ele defende que todos os colegas da assessoria deverão continuar a ser repórteres, ou seja, a utilizar bem as ferramentas do jornalismo para ajudar a ?construir juntos uma política de comunicação com a imprensa e a sociedade que seja realmente de utilidade pública?. Isto é, que utilize todo o back ground jornalístico mas não para fazer jornalismo e sim para ajudar na construção de uma política… E ele encerra dizendo que a equipe ainda precisará valer-se do faro jornalístico para ficar atento aos anseios da sociedade e levar isso para o governo, para ajudá-lo nas ações e propostas de transformações sociais. Isso também não é jornalismo, mas sim possivelmente uma oportunidade única de utilizar o talento jornalístico a serviço de uma causa nobre.

Pois bem, todo o discurso de Kotscho enquadra-se dentro desta premissa que coloco de que assessoria de imprensa não é atividade jornalística, mas sim uma atividade que se vale das ferramentas jornalísticas para ser melhor executada e obter sucesso. Tanto é assim, que já se vão mais de vinte anos de discussão, e nunca os jornalistas conseguiram mexer na regulamentação profissional para incluir a atividade junto às demais, privativas de jornalistas, como edição, reportagem, pesquisa etc. Não houve força para isso nem o entendimento dos legisladores de que isso deveria ser alterado. E olha que os projetos originais, datados dos anos 80, eram da lavra de Freitas Nobre, um dos mais importantes parlamentares da história do Brasil e que era jornalista. Nem assim, se obteve sucesso na empreitada.

Uma amiga minha de longa data discorda veementemente de minha tese e de meus argumentos. Ela diz não ter qualquer dúvida de que assessoria é uma função jornalística. A polêmica é rica, salutar e só fará bem para os profissionais e para o mercado, à medida que ajudar numa melhor conceituação sobre como e porque fazemos. Gosto muito dessa minha amiga e vou continuar gostando demais, até porque ela é realmente uma pessoa muito especial. Mas eu tenho convivido por dentro, no âmago dessa questão, por quase trinta anos. Sempre refletindo sobre isso. Fui por mais de dez anos assessor de imprensa, daqueles bem tradicionais, em empresas como Villares, Sindipeças e depois em agência de comunicação. Coordenei por quase dez anos a Comissão dos Assessores de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de SP, e ao lado de centenas de colegas discuti, concordei e discordei de uma série de questões. E fui defensor da tese de que assessoria era, sim, atividade jornalística.

Mudei meu entendimento, sem renegar o passado, até porque aquele foi um momento histórico para os jornalistas e uma fase de múltiplas descobertas, entre elas a própria assessoria de imprensa, que até então era uma atividade relegada a segundo plano. Os jornalistas a revitalizaram, sem dúvida alguma, e isso é certamente a maior de todas as conquistas. Claro, como nem tudo são flores, esse agigantamento das assessorias, que se desdobraram para a consolidação de um setor altamente profissionalizado, teve também um pecado: a acomodação dos veículos ao chamado prato pronto, entregue de bandeja pelas assessorias, através de press-releases e outras ferramentas. Mas esse é um problema da imprensa e que tem que ser por ela discutido e refletido, com a colaboração de todos.

Para arrematar, segue a íntegra do decálogo proposto por Kotscho à equipe e que deveria virar quadro na sala de cada assessor de comunicação e imprensa: ?Quero ler para vocês uma espécie de decálogo de princípios preparado a meu pedido pelo professor Bernardo Kucinski, que poderá servir de ponto de partida para todos nós que somos responsáveis pela comunicação no Governo Lula:

* A informação é um bem público. Não propriedade do governo.

* A informação é um direito e não um favor.

* A informação é um requisito básico para o exercício de outros direitos como o de escolher, de julgar, optar e de participar.

* A informação deve ser clara, pronta e precisa.

* É proibido mentir ou tergiversar.

* Responda no mérito e de modo objetivo às críticas da mídia.

* Corrija de modo cortês os equívocos de informações da imprensa.

* Se detectar calúnia, injúria ou difamação, atue com firmeza.

* Não faça patrulhamento ideológico.

* Trate com igualdade todos os jornalistas de todos os veículos.”

“O confronto entre repórter e assessor”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/1/03

“Diferenças nos critérios funcionais e nas rotinas diárias de trabalho são as principais causas dos confrontos entre jornalistas de redação e assessorias de imprensa, verificados com freqüência em organismos públicos e empresas, segundo constatação de pesquisa divulgada no site do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), com base em reportagem de Catarina Neves. ?Os repórteres, em sua maioria, queixam-se de que as assessorias são lentas e muitas vezes despreparadas, enquanto os assessores retrucam, afirmando que muitos jornalistas desconhecem até mesmo o teor dos assuntos das reportagens que tentam fazer?, diz Catarina.

A repórter acrescentou que o assessor de Imprensa da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, Lúcio Perez, confessou-lhe que não são poucos os repórteres que desconhecem por completo os procedimentos regimentais da casa e mesmo o significado de siglas comuns no trato diário entre funcionários e parlamentares. ?Os jornalistas também perdem muito tempo telefonando e não conhecem os meios de Comunicação que o Legislativo lhes oferece, especialmente na área eletrônica. Há dias em que costumamos receber várias ligações, de um mesmo veículo, procurando dados sobre idêntico assunto?, assinalou.

Os profissionais de jornal, rádio e TV, por sua vez, denunciam que os assessores muitas vezes tentam ?esconder seus assessorados?, quando o assunto em questão é delicado ou no mínimo polêmico. ?O ideal seria, digamos, que um deputado atendesse imediatamente à solicitação de um repórter. Já ocorreram casos, em Belo Horizonte, de um jornalista tentar falar com determinado parlamentar e ser impedido por um assessor. Muitos destes assessores, que mais parecem escudeiros, desejam na verdade é tentar mostrar eficiência para garantir o emprego?, acentua.

Já o coordenador da assessoria de imprensa da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Carlos Resende, acha que o relacionamento entre repórteres e assessores tem piorado em função da alta rotatividade dos jornalistas nas redações de impressos e emissoras de rádio e TV. ?Aumenta sempre o número de jornalistas novos e inexperientes, que nada entendem daquilo que querem averiguar. Não conhecem as atividades do legislativo municipal, o que torna o fluxo de informações bem mais complexo e, às vezes, até inacessível?, observa.

?As formas de abordagem dos repórteres chegam também, em certos casos, a criar atritos. O trabalho da assessoria é atender a toda e qualquer demanda, mas o jornalista às vezes insiste em falar diretamente com o vereador, que geralmente já distribuiu nota oficial com todas as informações pertinentes ao tema em pauta. O que pode ser esporádico para um profissional de redação, para nós, assessores, é trabalho cotidiano?, afirma.”

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