Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO CULTURAL

Eduardo Ribeiro

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

SINDICATO EM XEQUE

"Pra não dizer que não falei de Sindicato", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 1/8/03

"Sei que esse é outro daqueles temas polêmicos, com enxurradas de comentários, colegas pró e colegas contra. Assunto verdadeiramente movido a paixão. Que bom. Ninguém chuta carrocho morto, e se chutam o sindicato é porque ele, no fundo, ainda representa algo para todos. Quem sabe um sonho, quem sabe a esperança da melhora naquilo em que acreditamos, quem sabe…

No entanto, se andarmos pelas redações do Brasil vamos encontrar um significativo grupo de profissionais descrentes, céticos e que querem ver o sindicato longe, de preferência pelas costas. A cada fracasso, uma enxurrada desmedida de críticas. E a cada vitória, manifestações envergonhadas de contentamento, mas nenhum voto público de louvor.

Essa tem sido a vida dos dirigentes sindicais, de um modo geral, em todas as atividades, e não é, infelizmente, nenhum pouquinho diferente entre os jornalistas.

Venho debatendo muito este assunto com inúmeros colegas, de espírito desarmado, aberto, tentando explicar meus pontos de vistas e entender os dos meus oponentes. E tem sido muito gratificante essa troca de idéias e pensamentos.

Quanto mais debato, mais convicto fico de que fora do Sindicato não há chances de avanços significativos para os jornalistas brasileiros. Falo isso com o coração e com a razão. E elenco aqui fortes argumentos para essa minha convicação: Quem poderá fiscalizar o exercício ilegal da profissão, por exemplo? Quem poderá discutir com autoridade a questão da obrigatoriedade do diploma? Quem vai poder opinar e articular posições para – por que não – mudar essa legislação, se houver uma posição majoritária de que ela precisa ser modificada? Quem vai zelar pelos nossos ganhos profissionais, no atacado? Quem vai ajudar a desenvolver ações para beneficiar a atividade como um todo, através de cursos, debates e outras ferramentais profissionais? Quem, melhor do que o Sindicato, para entabular intercâmbio com a Academia visando o aprimoramento do ensino universitário, trazendo-o o mais próximo possível da realidade de mercado? Quem poderá lutar para ampliar esse mesmo mercado, incentivando a abertura de novas frentes de trabalho (ou tentando inibir o fechamento de outras)? Quem vai poder falar com a direção de uma empresa, com independência, exigindo melhores condições de trabalho para os colegas que lá trabalham? Quem…

Poderíamos ficar aqui, linhas e linhas a fio, enumerando aspectos inerentes à atividade sindical e que sem uma atuação com viés coletivo transformariam nossa atividade numa terra de ninguém.

É – diriam muitos dos colegas que odeiam a instituição (e que até urticária têm ao simples mencionar desse nome) -, mas nossos sindicatos são atrasados, corporativistas, equivocados, incompetentes, desconectados da realidade profissional, pelegos… para ficar em meia dúzia de adjetivos (eles são muito mais numerosos).

Isso, em primeiro lugar, não é verdade, embora realmente estejamos muito longe de um sindicalismo ideal, ao menos no que diz respeito aos jornalistas – e aqui relevo ser essa uma posição absolutamente pessoal. Acredito que o sindicato deva, sim, fazer uma autocrítica, ver os erros que tem cometido e que contribuem para o eventual afastamento de uma boa parte da base profissional. Deveria ter a coragem de promover as mudanças eventualmente necessárias, depois de enxergar e entender o que a grande maioria da categoria quer e precisa, direcionando talvez sua atuação numa vertente mais profissional e menos ideológica. Certo? Acredito que sim.

Isso é o que eu penso e é o que eu digo, no caso do Sindicato de São Paulo, à própria diretoria, quando tenho a oportunidade, e o faço como um profissional sindicalizado. Fui dirigente e hoje sou base. Levo à direção do Sindicato minhas críticas construtivas, porque já fui, também, muito criticado (às vezes de forma construtiva, e outras de forma absolutamente destrutiva) – e sobrevivi. Ajudei a ganhar e a perder eleições. Fiz oposição e fui situação. Divergi e convergi muito nos inúmeros debates travados. Mudei de opinião várias vezes, quando vi que os argumentos dos outros eram mais consistentes que os meus. Certamente ajudei a mudar algumas opiniões também. Hoje me relaciono bem e de forma civilizada com grande parte dos colegas que passaram pelo sindicato, seja na condição de parceiros de diretoria ou corrente política, seja como adversários. E procurei ser sempre um adversário leal.

Mas, mais do que tudo, eu e dezenas de colegas fizemos isso participando do sindicato. Nos bons e nos maus momentos. Na chamada alegria e também na tristeza.

Vejo hoje um tremendo afastamento das novas gerações do sindicato, em que pese todo o esforço que eventualmente se faça no sentido contrário. É como se esse assunto, sindicato, não lhes dissesse respeito. E a verdade é que nem diz mesmo – e as razões, difícil saber, podem ser várias (falta de informação, desinteresse por assuntos coletivos, ideologia, divergências conceituais, falta de tempo…). O pior é que causas semelhantes pegam também milhares de marmanjos, que decidiram abolir o sindicato de suas vidas. Claro que temos de respeitar todas essas posições, até porque são legítimas. Mas o que quero aqui é propor uma reflexão se o caminho que estamos escolhendo individualmente nos levará a um lugar melhor, nos permitirá atingir metas maiores no que diz respeito à cidadania, aos verdadeiros interesses do País e da sociedade brasileira, ao futuro do jornalismo.

Não faltam justificativas para torcer pela derrocada deste modelo de Sindicato, como já vimos, nos vários adjetivos enumerados no início do artigo.

O pior é que na razão individual todos estão certos. Também eu não gosto de participar de uma coisa que não está funcionando para mim ou com a qual tenha profundas divergências políticas, profissionais, pessoais, ideológicas.

Aí cabe bem objetivamente a pergunta: E daí? Em que meu afastamento vai contribuir para resolver o problema? Não é preciso ser um grande adivinhão para responder que essa postura não ajuda em absolutamente nada nossa causa maior. Apenas dá uma resposta à indignação pessoal (e quiçá momentânea) e talvez ajude a economizar alguns reais da mensalidade que geralmente se paga para a instituição. Mas, de concreto, concreto mesmo, em que essa postura ajuda a alterar a cotação do dólar ou a resolver a vida dos jornalistas, como um todo?

Nada, não tenho a menor dúvida. Só mostra a nossa fragilidade enquanto coletividade e uma total falta de solidariedade para com os compromissos maiores do jornalismo (nem estou falando causas maiores dos jornalistas, para não cair na tentação do corporativismo, pois essa não é definitivamente a intenção deste artigo).

Temos, em todos os Estados do Brasil, sindicatos de jornalistas, com históricos mais ou menos vanguardistas, com mais ou menos realizações e conquistas, com bons e maus dirigentes, mas todos organizados e com tradição. Por que desperdiçar a chance de usar esta instituição a favor e não contra nossa causa maior? Qual é a racionalidade, racionalmente falando, de abandonar esta instituição ao seu próprio destino, como se isso não tivesse nada a ver conosco? Que lógica há em enfrentar um mercado voraz, competitivo e perverso, sem uma instituição sólida que possa nos defender, nos orientar e jogar luz sobre os caminhos a serem trilhados?

Não há lógica nisso. Não é sensato julgar as instituições pelas pessoas ou grupos que estão temporariamente no poder. Assim funciona uma democracia, integralmente apoiada nos processos eletivos. Foi bem, fica. Foi mal, sai. A coletividade é que decide, pela força do voto. E isso vale para escolher o nosso presidente da república e o presidente e demais representantes de nosso sindicato.

Para criticar e ter autoridade naquilo que falamos é preciso participar. Dentro do sindicato podemos pressionar, divergir, convencer, ser convencidos, enfim, construir uma entidade que represente de forma homogênea o conjunto da categoria. De fora, nossa maior contribuição é para a simples desmoralização desta importante e imprescindível instituição.

É lá, nas assembléias, nas eleições, nos debates, que poderemos mudar o rumo dos acontecimentos. E até trocar pessoas, por mais viciadas que eventualmente sejam determinadas instituições.

De fora, continuaremos a bradar: esse sindicato não serve mesmo para nada. E ele continuará não servindo mesmo, ao menos para esses que pensam assim.

Está aberto, pois, mais um debate. E eu concluo conclamando todos os jornalistas brasileiros a se sindicalizar, a lutar por melhorias dentro das instituições. Lá, ainda que de forma tênue, o grito de cada um será ouvido e poderá resultar em ações que beneficiem a todos e não alguns.

Quem ganhará com isso, mais do que os jornalistas, será o jornalismo e a sociedade brasileira."

 

MERCADO DE TRABALHO

"Concorrência acirrada em seleção de novo jornal de MG", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 1/08/03

"A matéria do Comunique-se intitulada ?Empresário de MG investe em novo jornal? foi uma das responsáveis pelo jornalista Fritz Utzeri ter nada mais nada menos que 180 currículos em cima de sua mesa. Com a ajuda do jornalista Ivanir Yasbec, Fritz está à frente do trabalho de elaboração do projeto do jornal regional Panorama, cuja redação funcionará em Juiz de Fora. ?Alguns currículos chegaram de Manaus, Porto Alegre etc?, diz Fritz.

A seleção dos jornalistas começa no dia 25/08 e vai até 26/09. ?Vamos dar preferência ao pessoal de Juiz de Fora, como havia dito anteriormente. Só vamos contratar gente de fora se não conseguirmos encontrar profissionais com o perfil que queremos aqui?.

Haverá também oportunidades para iniciantes e estudantes. Fritz adianta que haverá um seminário em uma faculdade de Juiz de Fora nos próximos meses, com prova de seleção. ?Vamos divulgar o encontro na época adequada?, garante. O seminário vai reunir profissionais renomados do jornalismo.

A redação vai funcionar no quinto andar do prédio da TV Panorama, mas as obras ainda não começaram. Quanto ao projeto gráfico, ele deve ser concluído na semana que vem.

O jornal Panorama é um projeto do empresário Omar Peres, dono da TV Panorama, afiliada da Globo. Segundo Fritz, o objetivo de Peres é fazer do diário um veículo que ?quebre os paradigmas de jornais regionais do país?."

 

JORNALISMO CULTURAL

"Reflexões sobre jornalismo cultural", copyright O Estado de S. Paulo, 2/08/03

"Jornalismo cultural é o que aparece nos jornais diários, em cadernos, sob diversas denominações: Caderno 2, Caderno B, 2.? Caderno, Folha Ilustrada, Variedades, Artes & Espetáculos e tantos outros. Seu objetivo deveria ser apresentar as produções do mundo das artes e dos shows de modo informativo e analítico, sendo capaz tanto de noticiar como de avaliar os assuntos que escolheu como os mais importantes do dia ou da semana.

Deveria ser, mas acaba não realizando inteiramente sua tarefa ou realizando-a de forma frívola e, o que é pior, sem o menor senso de humor.

Isso é só a parte mais evidente. Ir adiante seria perda de tempo. Melhor ler o livro que se chama exatamente Jornalismo Cultural, de Daniel Piza, editor-executivo e colunista do jornal O Estado de S.Paulo. Já está nas livrarias, pela editora Contexto, e terá noite de autógrafos na terça, na Fnac.

Trata-se, sem dúvida, de um trabalho completo e bem informado, tanto sobre a tradição do gênero, como de sua crise atual. É um livro abrangente sobre um tipo de jornalismo tão importante quanto relegado a uma situação quase marginal diante das demais editorias.

O livro de Daniel Piza trata da fraqueza e burocratização crescente dos segundos cadernos no jornalismo brasileiro. Ele examina desde a questão dos salários, cortes e remuneração dos colaboradores, como das pautas, do tratamento e da edição; da remuneração e da quantidade de trabalho exigido, como da qualidade do produto final.

Há uma certa teimosia no momento: a de tentar misturar Cultura e Informação, que não são farinhas do mesmo saco, embora se cruzem e se utilizem mutuamente. Mas há um conflito entre permanência e verticalidade da Cultura com a fugacidade e a horizontalidade da Informação. As duas se comunicam com o público de forma diferente e ambas consideram-se a forma mais completa de chegar ao coração do real. A crise dos segundos cadernos, em que as duas, ombro contra ombro, brigam pela hegemonia, os empurra para tentar combiná-las sem perder vantagens. Esse é um espaço onde é possível a convivência, o que não está ocorrendo, como assinala Daniel Piza em seu livro. Os cadernos estão correndo demais, na ânsia de antecipar tendências.

Estão na captura de um herói por dia: um cineasta, um roqueiro, um maestro, uma orquestra, uma peça teatral. Seja o que for, é turbinado. Seus autores fariam excelentes carreiras na publicidade, onde o mundo não tem defeitos.

Acontece com os cadernos o contrário do que acontece com a capa dos jornais.

Nos cadernos, tudo é bom; nas capas, só más notícias. Se falta senso crítico aos cadernos, falta chá de camomila para editores de primeira página. As duas versões do jornalismo exageram e deformam a realidade. Um pouco de bom senso, não mais do que isso, daria ao leitor uma versão que não fosse nem catastrófica nem edulcorada desses dois importantes momentos do jornal.

Daniel Piza já teve bastante experiência em segundos cadernos (Caderno 2, Ilustrada, Fim de Semana) para, combinado com uma excelente base cultural, realizar um trabalho importante sobre os assuntos de Cultura, o que faz com linha argumentativa muito segura, em Jornalismo Cultural. Ele alerta para a falta de critérios e hierarquias na avaliação do material a ser usado, bem como mostra o mal que isso causa à cultura brasileira, carente de publicações mais dirigidas à cabeça das pessoas que, afinal, são as responsáveis (segundo os jornais) pelo mosaico de desgraças das primeiras páginas.

Jornalismo Cultural. De Daniel Piza. Editora Contexto. 114 páginas. R$ 23,90. Terça, às 18h30. Fnac. Avenida Pedroso de Morais, 858, tel. 3097-0022"

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