Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Efeitos colaterais, lá e aqui

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O CAMPO DE BATALHA SOMOS NÓS ? III

Alberto Dines

Dos eufemismos desta 2? Guerra do Golfo, o mais doloroso talvez tenha sido a expressão "efeitos colaterais" para designar as vítimas civis de ações militares. Retrato da guerra moderna, espetacularizada, hiperverbalizada e subsofrida, onde as tragédias pessoais confinam-se à esfera marginal. A diabólica "solução final" inventada pela camarilha nazista em janeiro de 1942 para esconder a liquidação dos judeus na Europa ocupada é ainda pior, expressão máxima da crueldade lingüística.

Os "efeitos colaterais" da invasão do Iraque ocorreram não apenas em Bagdá, Basra ou nas estradas para onde acudiam os refugiados. Foram também sentidos aqui ? e não por solidariedade. As bombas de fragmentação despejadas no Oriente Médio sacudiram uma imprensa que desde as eleições presidenciais do ano passado parecia situar-se num degrau acima em matéria de maturidade e isenção.

Pode-se agora constatar que fomos inundados por um fantástico dilúvio de dados pulverizados sem qualquer suporte vinculador. Excesso de informação numa ponta e desinformação na outra produziram algo próximo da caricatura. A melhor prova foi a série de textos eminentemente didáticos publicados no Globo e assinados por Ali Kamel, ex-editor-chefe do jornal e agora um principais responsáveis pelo jornalismo da Rede Globo. Quando um jornal desta importância sente-se na obrigação de publicar um bê-á-bá é porque não apenas o leitorado mas também os jornalistas carecem desta formação elementar.

Não se pode dizer que a mídia brasileira tenha distorcido a realidade para um lado ou para o outro (mesmo porque estas avaliações são subjetivas, discutíveis e facilmente desmentidas). O que se pode dizer é que houve graves distorções para os dois lados e isto não significa equilíbrio, ao contrário, significa dupla manipulação. Reapareceu o velho "esquemão" ideológico que parecia banido enquanto editores e jornalistas seniores aproveitaram a guerra para exibir os seus tambores e mostrar os dotes de percussionistas.

A glorificação do paradigma jornalístico representado pelo inglês Robert Fisk é uma clara opção por um jornalismo panfletário e militante. Pode-se até dizer enfermo, lembrando-se da sua reação quando ele se identificou com os afegãos que desejavam linchá-lo. A tentativa de fazer do cascateiro Peter Arnett um exemplo de independência jornalística é, ao contrário, uma deturpação do modelo elementar de jornalismo.

Ser anti-Bush não é preocupante, preocupante é fechar os olhos ao que significou Saddam Hussein. Apoiar a intervenção anglo-americana no Iraque também não é preocupante, preocupante é não avaliar o perigo que afronta a democracia americana se o grupo que tomou conta da Casa Branca for eleito para mais um mandato. O pacifismo é um estágio político superior, mas o pacifismo em favor de um dos beligerantes é desbragada mistificação.

Insanidade stalinista

Houve momentos em que aos olhos de alguns jornais e jornalistas brasileiros o Iraque parecia um modelo de democracia, Jacques Chirac um modelo de decência e Vladimir Putin um modelo de tolerância. Curiosamente ninguém percebeu a diferença entre estes e o chanceler alemão Gerhard Schroeder ? este sim, um modelo de dignidade política.

Esta guerra mostrou que a imprensa brasileira está perdendo a capacidade de perceber nuances. Excelência jornalística mede-se pela habilidade em reproduzir complexidades e não pela fascinação em armar simplificações. A mania dos infográficos infiltrou-se de tal forma nos espíritos e mentes dos nossos gate-keepers que mesmo nos textos, títulos ou no trabalho de edição evidencia-se uma espécie de quadrinização reducionista e estereotipada.

Em sua edição do dia 11 de abril, Le Monde publicou em duas páginas (12-13) impressionante denúncia sob o título de "Saddam, o feroz". O texto é assinado por Mouna Naïm, que o jornal não apresenta mas supõe-se ser pessoa altamente credenciada, caso contrário não mereceria tamanho destaque e endosso.

Esta não é matéria de última hora, é documento histórico, longamente investigado. O Monde não o publicou antes porque preferiu discutir a matéria internamente, em diferentes instâncias, e só veio à luz depois da derrubada de Saddam, quando era preciso equilibrar o relativismo politicamente correto com algum tipo de realismo. E por que não foi reproduzido, comentado ou sintetizado na imprensa brasileira? Três são as hipóteses: a) falta grana para fazer uma assinatura de um diário francês; b) falta de apetite para investir em densidade da informação e c) falta de coragem para denunciar as barbaridades cometidas por Saddam porque os leitores logo perguntariam ? "e por que vocês não o disseram antes?".

Esta mesma "ideologização" das decisões editoriais evidenciou-se no acompanhamento da tragédia cubana. A mídia brasileira não teve a grandeza para denunciar o criminoso boicote econômico que vem sendo imposto pelos EUA a Cuba há quatro décadas com medo de parecer "esquerdista". E, agora, quando a insanidade stalinista tomou conta dos dirigentes cubanos, fica nossa mídia cheia de dedos para cobrar do governo Lula da Silva uma posição mais firme e mais coerente em matéria de direitos humanos [leia artigo de Fernando Gabeira publicado reproduzido na seção Entre Aspas, desta edição].

Efeito colateral parece coisa pequena. Em farmacologia são os efeitos adversos da medicação salvadora. Bom lembrar que, às vezes matam o paciente.

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