Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DA GUERRA

Elena Corrêa

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"TVs brasileiras criticam pedido", copyright O Globo, 12/10/01

"A maioria dos diretores de departamentos de jornalismo das emissoras de televisão brasileiras classificou como um ato de censura o pedido do governo americano para que as cinco grandes redes de TV dos Estados Unidos (ABC, CBS, CNN, Fox e NBC) deixem de exibir declarações de Osama bin Laden ou de qualquer porta-voz de sua organização, a al-Qaeda.

Para o diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes, Fernando Mitre, esta é uma tentativa de o governo americano amenizar os noticiários.

– Isto não começou agora. Já se discute há algum tempo sobre o modo como está sendo feita toda a cobertura desta guerra. Este pedido pode até ser compreensível diante do estado psicológico das pessoas, mas não se pode misturar as coisas. É preciso ter uma visão técnica, mas também ética. Isso é censura e vamos tentar contornar qualquer dificuldade de se obter imagens e informações através de correspondentes e agências – diz Mitre.

Record negocia acordo com mais canais árabes

A Rede Record, que já tinha um acordo com quatro canais árabes, está negociando com outros dois para obter reportagens sobre a guerra. O diretor de jornalismo da Record, Luiz Gonzaga Mineiro, lembra que o que não faltam são produtores independentes querendo vender material:

– Com o mundo todo vivendo via satélite, não há como impedir que captemos os sinais. Esta atitude do governo americano é uma censura que pode até fazer parte da estratégia bélica dele, mas que não se aplica à imprensa.

O diretor da Record diz que atualmente não existe mais telespectador, ?mas cliente de informação e de entrevista?.

– Se não damos o que ele quer, ele troca de fornecedor – afirma Mineiro.

Em aviso enviado ontem aos departamentos de jornalismo das afiliadas à CNN, a rede americana pede que nenhum material da al-Jazeera veiculado na CNN seja retransmitido por essas empresas.

Outras redes, porém, continuam fornecendo material. O SBT, por exemplo, está fazendo uso de transmissões da Associated Press (AP) e da Reuters. O diretor de jornalismo da emissora, Walter Santos, ressalta, porém, que é preciso ter bom senso para que se evitem propagandas terroristas.

– Temos que ter critério. Até porque é difícil saber se as informações que recebemos já não foram filtradas ou manipuladas. Como devemos mostrar os dois lados, tentamos fazer uma parceria com a al-Jazeera, mas eles têm um contrato de exclusividade com a CNN – diz o jornalista.

Segundo Walter Santos, a imprensa não pode ficar só com os pontos de vista americano e britânico, pois há uma imensa população muçulmana no mundo também querendo informações:

– Virou uma guerra de estatísticas. Mesmo depois do ataque ao World Trade Center ninguém mostrou os hospitais lotados nem as vítimas nos escombros.

CNT dispõe apenas de material da CNN

Já a diretora de jornalismo da Rede Brasil, Tetê Muniz, não concorda com o pedido da CNN para que as imagens da al-Jazeera não sejam usadas, já que a emissora paga pelo serviço da rede americana. Mas ela aprova o pedido feito por George W. Bush:

– Não acho que seja censura. É precaução. Não se sabe se Bin Laden usará códigos em seus discursos para fazer novos atentados.

Complicada está a situação da CNT, que depende exclusivamente do material da CNN para sua cobertura.

– Como não temos transmissões de outras agências, só vamos veicular o que a CNN nos enviar. Daqui para frente dependemos deles – afirma o diretor de jornalismo da emissora, Gilberto Campos."

"Dever e direito na informação", copyright O Estado de S. Paulo, 13/10/01

"A rigor, não há essa dramaticidade toda na tentativa do governo americano de negociar com os veículos de informação uma adaptação do noticiário aos interesses da guerra contra o terrorismo. Primeiro, porque não se trata de uma imposição – até agora pelo menos não se fala em leis de exceção para impor censura. Segundo, é uma iniciativa que não obteve adesão dos outros países aliados e, em terceiro lugar, nem mesmo as redes de televisão americanas, mais afoitas na concordância, aceitaram trocar de papel com o governo da tarefa de transmitir informações.

Os dois grandes jornais americanos, Washington Post e The New York Times, reagiram com sobriedade e firmeza. O diretor-executivo do Post, Leonard Downie Jr, afirmou que o jornal escuta o governo, inclusive porque escutar quem quer que seja é tarefa do jornalista. Mas informou que as decisões editoriais continuarão sendo tomadas pelo jornal. Na mesma linha reagiu o editor-executivo do Times, Howell Raines, que, em editorial, disse que estão abertas as conversas com funcionários do governo sobre assuntos de segurança nacional. O que não quer dizer que haverá disposição de subtrair aos leitores o direito à informação.

Se é dever dos governos zelar pela segurança e esta implica, em casos de guerra, a propaganda, eles que a façam por seus meios e modos. Desde que não confundam isso com o exercício do jornalismo. Evidentemente que cada jornal, cada emissora, tem o dever de triar aquilo que leva ao ar ou às suas páginas. Isso em qualquer situação, até para que o jornalismo não sirva de corrente de transmissão de interesses específicos, abstendo-se de sua responsabilidade de decidir o que deve ou não ser publicado.

Aqui no Brasil tornou-se muito comum a prática da publicação de qualquer coisa, fitas, dossiês, documentos sigilosos, sem a devida triagem ou checagem do veículo que recebia o material. Embora o hábito ainda esteja em vigor aqui e ali, já foi bastante reduzido pela desmoralização a que se viram expostos os defensores mais aguerridos desse vale-tudo.

Ao que se tem notícia, as emissoras americanas apenas concordaram em não transmitir ao vivo o material produzido pela emissora árabe Al-Jazeera, comprometendo-se a examinar o noticiário antes de levá-lo ao ar. Até aí, nenhuma subtração de funções jornalísticas. O cuidado que se deve ter, no entanto, é exatamente para que essa triagem não signifique a transformação dos noticiários em comunicados oficiais de guerra.

O Estado tem seus deveres que nem sempre coincidem com os direitos da população. A censura, que por ora não foi imposta, mas apenas sugerida, além de não ganhar guerras ainda leva a perdas de conquistas que são justamente o que mais diferenciam as civilizações modernas daquelas que ainda se pautam pela opressão de seus próprios povos.

O argumento usado pelo governo americano de que as mensagens dos terroristas transmitidas pela TV poderiam conter códigos de ataque, carece de lógica e soa a desculpa esfarrapada para incluir o jornalismo numa forma distorcida de patriotismo.

O terror não precisou da CNN para fazer o que fez em 11 de setembro. E, se algum código houver nas entrevistas e comunicados dos terroristas, cabe aos serviços de inteligência decifrá-los antes da execução dos atos. Esconder informação, repetindo, não resolve, só piora as coisas.

Mais aterrorizantes que as imagens dos aviões atingindo as torres gêmeas, impossível. E, no entanto, foram transmitidas por dias a fio sem restrições.

Foram elas que deram noção à humanidade da dimensão dos acontecimentos. Ora, por que não haveria o planeta de ter o direito de saber o que pensam e o que intentam os terroristas e até o que se passa no mundo árabe pela ótica de uma emissora local? Não haverá um só jornalista neste planeta que não quisesse hoje uma entrevista de Osama Bin Laden. Ele é o personagem, é dele que queremos saber as razões para aqueles atos. Nem que seja para chegar à conclusão de que se trata de pura manifestação de desvario.

Enquanto o governo do EUA estiver apenas pedindo colaboração e os veículos de informação não abrirem mão de suas prerrogativas sem confundir os papéis do Estado que faz a guerra e da imprensa que faz o jornalismo, não há maior motivo para preocupações. Basta que cada um mantenha-se dentro de seus limites."

"Imprensa americana acata censura", copyright Jornal do Brasil, 12/10/01

"O governo americano pediu ontem aos meios de comunicação do país que não veiculem na íntegra as declarações do saudita Osama Bin Laden e de porta-vozes de sua organização terrorista, Al Qaeda, alegando que podem conter mensagens em código para seus seguidores levarem a cabo novos atentados. A iniciativa foi tomada um dia depois de as maiores redes americanas de televisão concordarem em examinar e editar os videoteipes das declarações de Bin Laden antes de retransmiti-los.

A Casa Branca fez o apelo à mídia americana depois que a emissora Al Jazeera – com sede no Catar e única a manter uma equipe de reportagem em Cabul, capital afegã – levou ao ar declarações gravadas de Bin Laden e de porta-vozes da Al Qaeda, retransmitidas pelas grandes emissoras americanas para todo o mundo.

O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, disse que o presidente Bush está ??satisfeito com a reação dos executivos das redes de televisão??. ??Se essas declarações são veiculadas na íntegra, surge a preocupação de que Bin Laden possa estar conseguindo levar sua mensagem codificada às pessoas que as leriam e decodificariam??, explicou.

Al Jazeera – Em contrapartida, a Al Jazeera invocou o direito de liberdade de expressão para rechaçar as críticas americanas à sua cobertura da crise afegã. ??Seguiremos fazendo nosso trabalho de forma profissional, seja no Afeganistão ou em qualquer outro lugar. Vamos manter a mesma linha de trabalho pela qual a Al Jazeera se pautou desde seu lançamento, em 1996, como meio de comunicação que oferece uma margem de liberdade no mundo árabe??, afirmou o presidente da empresa, Hamad Ben Thamer Al Thani, que considera sua emissora ??a primeira cadeia árabe independente??. Segundo ele, a emissora continuará transmitindo os depoimentos na íntegra e buscando ??exclusividade, seja qual for a origem do material??.

O diretor Mohamad Jassem Al Ali também defendeu a independência da emissora. ??Até agora, a Al Jazeera se portou de forma objetiva e profissional. Vamos continuar assim??, disse ele, acrescentando estar surpreso com a reação de Washington, ??capital da liberdade??.

Imprensa árabe – O secretário de Estado americano, Colin Powell, acusou a Al Jazeera de difundir declarações ??mordazes e irresponsáveis??. Mas a imprensa árabe defende seu agora mundialmente conhecido veículo. ??É inacreditável que uma cadeia de televisão que busca um lugar no mundo seja alvo desse tipo de críticas, principalmente vindas de Washington, que todo o mundo considerou durante muito tempo a capital da liberdade e da democracia. Todos esperavam elogios americanos pelo profissionalismo e liberdade de expressão da Al Jazeera. Essa decisão levará muitos a questionar a ideologia que embasa o mundo livre liderado pelos Estados Unidos??, ironizou o diário Al Watan.

Rejeição mundial – As grandes redes de televisão do mundo também criticaram o pedido da Casa Branca e se recusaram a parar de transmitir as declarações de Bin Laden, garantindo que continuarão a usar seu próprio julgamento editorial se mais material sobre o saudita e a Al Qaeda for recebido. O premier britânico Tony Blair concorda, e disse que o assunto diz respeito aos responsáveis pelas transmissões: ??Vamos deixar esta questão com eles??, prometeu.

Além das emissoras, a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) também considerou ??inaceitável?? a intervenção das autoridades americanas na atuação dos meios de comunicação."

    
    
                     
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