Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Eles mudaram a imprensa

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

JORNALISMO & HISTÓRIA

Alzira Alves de Abreu (*)


Apresentação de Eles mudaram a imprensa ? depoimentos ao CPDOC, de Alzira Alves de Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Dora Rocha (organizadores), 400 pp., Editora da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2003; URL <www.editora.fgv.br>; preço R$ 44,00; intertítulos da redação do OI.


Neste livro estão reunidos os depoimentos de seis jornalistas que, na qualidade de diretores de redação, tiveram uma participação fundamental na reformulação ou na criação de órgãos de imprensa brasileiros nas últimas três décadas do século XX. As inovações por eles introduzidas tiveram repercussão em toda a imprensa do país e contribuíram para desenhar a face que ela tem hoje. É certo que a decisão de iniciar o processo de mudança coube aos proprietários dos meios de comunicação, em uma conjuntura política, econômica e de transformações tecnológicas que exigia a introdução de alterações, não só na construção, na linguagem, na apresentação gráfica, na transmissão, enfim, da notícia, como na organização das redações e na própria gestão das empresas. Foram os proprietários que escolheram os jornalistas que iriam conduzir essas reformas. Cabe a nós explicar que razões nos levaram a escolher aqueles cujos depoimentos se seguem: Evandro Carlos de Andrade, Alberto Dines, Mino Carta, Roberto Müller Filho, Augusto Nunes e Otavio Frias Filho.

Em 1997, começamos a desenvolver no CPDOC uma pesquisa sobre a influência da mídia na transição democrática no Brasil nos anos 1970-80. [Trata-se da pesquisa “Cultura e política no Brasil do final do século: a mídia”, por mim coordenada. A pesquisa é parte do projeto “Brasil em transição: um balanço do final do século XX”, que recebeu aprovação do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), do Ministério da Ciência e Tecnologia.] Esse estudo nos levou a entrevistar 57 profissionais da imprensa do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Quando, a partir desse material, concebemos a idéia de um livro sobre a mudança da própria imprensa, interessou-nos focalizar órgãos de grande circulação no eixo Rio-São Paulo, que alcançassem também diferentes estados da federação. Esse era o caso dos jornais cariocas Jornal do Brasil e O Globo, dos paulistas O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Folha de S. Paulo, e da revista Veja. Esses órgãos não apenas se destacaram nos anos 1970-80, mas até hoje se mantêm como os de maior peso perante a opinião pública nacional, mesmo após a entrada no mercado de outros veículos, sobretudo revistas e jornais especializados.

Logo percebemos que a reformulação desses jornais e a criação de Veja estavam estreitamente vinculadas aos seis jornalistas mencionados. Preocupados em confirmar a importância de seu papel, ouvimos também a opinião de outros jornalistas seus contemporâneos. Independentemente de simpatias pessoais, houve o reconhecimento de que aqueles nomes haviam de fato liderado as mudanças nos periódicos que nos interessavam, precedidos em muitos casos por outros iniciadores e auxiliados por equipes que incluíam outros profissionais. Estava, portanto, definido o elenco de depoimentos para o livro que planejávamos.

É claro que nossos jornalistas, apresentados aqui em seqüência geracional, não se restringiram a reformar ou criar os jornais e a revista citados. Sem falar em sua experiência prévia, trabalharam depois em outros órgãos e experimentaram outros meios, como o telejornalismo e o jornalismo eletrônico, ou seja, continuaram a “mudar a imprensa” no exercício de sua profissão. Assim, Evandro Carlos de Andrade foi o responsável pela reformulação de O Globo nos anos 1970-80, mas também do jornalismo da TV Globo nos anos 1990. Alberto Dines foi o consolidador da reforma do Jornal do Brasil nos anos 1960-70, foi co-partícipe, como chefe da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio, das reformas conduzidas na redação desse jornal em São Paulo por Cláudio Abramo, e foi ainda o criador do Observatório da Imprensa nos anos 1990. Mino Carta foi o criador e diretor das revistas Veja, nos anos 1960-70, IstoÉ, nas décadas seguintes, e Carta Capital, nos anos 1990. Roberto Müller Filho conduziu dos anos 1970 até hoje, com intervalos, as transformações da Gazeta Mercantil. Augusto Nunes respondeu pela reforma de O Estado de S. Paulo de 1988 a 1991, e também do jornal gaúcho Zero Hora nos anos seguintes. Finalmente, Otavio Frias Filho, da segunda geração de proprietários da Folha de S. Paulo, assumiu a direção do jornal em 1984 e desde então comandou sua modernização.

Esses jornalistas certamente tiveram papéis diferentes no que estamos chamando de mudança da imprensa brasileira. Essas diferenças se explicam seja pela estrutura hierárquica das empresas, seja pelo momento político em que a modernização foi iniciada em cada uma delas, seja pela capacidade inovadora das próprias lideranças. De qualquer forma, para os estudiosos da mídia, seus depoimentos representam um material extremamente rico, que permite reconstituir as diferentes fases da evolução da imprensa no Brasil nas últimas décadas, mas também conhecer o pensamento e os valores de jornalistas de reconhecida importância em seu meio profissional.

Trajetória de vida

As entrevistas seguiram, de modo geral, dois caminhos, um biográfico e outro temático. Buscamos acompanhar as trajetórias de vida dos entrevistados, desde sua origem, formação e carreira profissional, até as decisões e ações que levaram à introdução de mudanças na imprensa brasileira, e procuramos também discutir princípios e procedimentos que definem a prática e o perfil profissional do jornalista. Nosso interesse em fazer essas entrevistas e, agora, em publicá-las se justifica pela escassez de informações disponíveis sobre esses temas. Embora os jornalistas entrevistados tenham até hoje presença marcante na imprensa, seja como responsáveis por matérias ou artigos, seja pela orientação que deram às suas redações e que permanece viva na lembrança dos mais jovens ? como é o caso de Evandro Carlos de Andrade, falecido em 25 de junho de 2001 ?, pouco se sabe sobre suas histórias de vida, suas experiências profissionais, suas visões de mundo. Eles pouco falam de si mesmos na imprensa, não escrevem autobiografias, e é reduzido o número de estudos a seu respeito. Por isso seus depoimentos orais se tornam fontes indispensáveis para a recuperação de suas carreiras e para a reconstrução de um dos períodos mais significativos por que passou a sociedade brasileira, o da transição da ditadura militar para o regime democrático.

Não se pode esquecer que a elaboração de biografias e perfis não é trabalho exclusivo do historiador. Homens de letras também se dedicaram ao gênero, que hoje é cada vez mais praticado por jornalistas. Freqüentemente jornalistas e historiadores se interessam pelo mesmo objeto de estudo, pelos mesmos personagens históricos. O resultado de seu trabalho é, no entanto, diferente. O jornalista, assim como o historiador, tem o compromisso de buscar a verdade. A pesquisa e as fontes que ambos utilizam para esclarecer os fatos podem até, muitas vezes, ser as mesmas. A diferença está na forma de trabalhá-las. De modo geral, o jornalista considera que os dados que obtém através da pesquisa podem levá-lo diretamente à versão verdadeira dos fatos. O historiador procura demonstrar a validade do seu método explicitando as questões colocadas e as fontes utilizadas [Antoine Prost, Douze leçons sur l?histoire (Paris, Seuil, 1996)].

As exigências do ofício fazem com que o jornalista muitas vezes transmita o resultado de seu trabalho sem revelar para o público sua maneira de trabalhar, ou seja, seu método de obter a informação e sua forma de construir a notícia. Como a informação que consegue freqüentemente é confidencial, suas fontes são mantidas no anonimato [Alzira Alves de Abreu, “Jornalista: um duplo anonimato”, trabalho apresentado no III Encontro Nacional de História Oral, Campinas 2, 3 e 4 de maio de 1996]. A pressa em apresentar resultados para o público é outro fator que o impede de criticar seus dados e suas fontes e de aprofundar sua pesquisa [Jean Lacouture, “L?histoire immediate”, in Jacques Le Goff, La nouvelle histoire (Paris, Complexes, 1988)]. Mas é preciso reconhecer que, se o tempo favorece o historiador no sentido de lhe permitir maior rigor metodológico, muitas vezes não beneficia sua capacidade de comunicação com o leitor.

Há ainda outras diferenças: o historiador, ao descrever e analisar uma trajetória de vida, tende sempre a confrontá-la com outras, a fim de entender como o indivíduo se formou, como atuou nos movimentos de transformação da sociedade, como respondeu à atuação do outro e como ele próprio se modificou. Daí seu interesse na ascendência familiar, nas influências políticas e ideológicas, nas relações estabelecidas ao longo da vida profissional e sua influência nas direções tomadas. Utilizar biografias e histórias de vida no estudo da mudança social implica, sem dúvida, uma valorização do papel do indivíduo. Isso quer dizer que um problema se apresenta de imediato ao historiador: que indivíduo, ou que indivíduos, estudar? A escolha deverá privilegiar personagens que ocuparam ou ocupam posições capazes de lhes garantir participação em decisões que afetam o curso dos acontecimentos, de lhes dar uma perspectiva mais ampla sobre o tema analisado, um conhecimento mais ou menos completo do fenômeno em estudo. Mas é também importante perceber a teia de relações que o indivíduo estabeleceu e que lhe permitiu construir o novo, lhe abriu a possibilidade de introduzir mudanças, de atualizar o já existente e ultrapassar o que não era mais operacional.

Em nosso caso, como foi dito, fomos buscar dados biográficos por meio de entrevistas de história oral. Sem dúvida os depoimentos orais apresentam problemas, tanto do lado dos entrevistadores quanto dos entrevistados. Embora este não seja o espaço apropriado para uma discussão sobre as questões metodológicas da história oral e sobre a especificidade dos depoimentos orais como fontes de pesquisa, é conveniente fornecer indicações que esclareçam em que terreno estamos pisando. O pesquisador, ao se preparar para fazer uma entrevista com objetivo histórico, tem que elaborar um roteiro consistente, que lhe permitirá controlar aquilo que está sendo narrado. Ele deverá ter conhecimento da atuação do entrevistado, e para isso deverá buscar dados e informações em fontes variadas. Isso significa que o papel do entrevistador não é o de um ouvinte passivo. Ao contrário, ele interfere no discurso do entrevistado, apontando incoerências, deficiências de explicação, e levando-o a reconstruir o passado dentro de uma lógica que muitas vezes é a sua própria.

O entrevistador pode impor assim ao entrevistado questões que pertencem a seu próprio universo teórico e orientar a entrevista para que o entrevistado dê ênfase a determinados temas, estabeleça relações entre certos acontecimentos e discorra sobre o tipo de participação que teve neles. Por seu lado, ao narrar sua trajetória de vida, o entrevistado também pode escolher falar de episódios que lhe pareçam mais significativos e que forneçam uma imagem mais positiva dele próprio.

Estímulo e colaboração

Jean Peneff, historiador dedicado a analisar biografias e histórias de vida, considera que elas apresentam uma única voz, sem contradições e sem oponentes [Jean Peneff, La méthode biographique (Paris, Armand Collin, 1990)]. Por isso é importante, na entrevista oral, conferir os dados e informações trazidos pelo entrevistado. Entretanto, como estamos lidando com personagens e temas do presente, como estamos na verdade trabalhando com a chamada história imediata [Jean Lacouture, “L?histoire immediate”, op. cit., p. 229-54], onde há uma radical proximidade do historiador com o objeto de estudo, essa conferência se torna muitas vezes difícil. Uma das formas de contornar o problema é recuperar várias histórias de vida, reunindo indivíduos com características definidas a priori como importantes para a pesquisa. O fato de os entrevistados pertencerem a um grupo que viveu os mesmos acontecimentos, os mesmos processos de mudança, permite um certo controle sobre as informações obtidas.

Nos depoimentos aqui apresentados ? como em todos aqueles que obtivemos em nossa pesquisa, mas que não foram incluídos neste livro ?, algumas características podem ser destacadas: três gerações de jornalistas representam o contínuo processo de mudança que afetou a imprensa brasileira a partir dos anos 1950 e teve seu apogeu na década de 1970, em plena ditadura militar (1964-1985).

A geração nascida nos anos 1930 iniciou sua carreira profissional no jornalismo nos anos 1950, década marcada pelo crescimento econômico, com o predomínio da política de substituição de importações, e pela vigência do regime democrático e da liberdade de imprensa. Essa geração conheceu e participou das transformações que, sob a influência da imprensa norte-americana, começaram a ser introduzidas nos jornais e revistas dos principais centros urbanos do país no pós-Segunda Guerra Mundial. Assistiu-se então a uma renovação da linguagem, ensaiaram-se inovações na cobertura jornalística e surgiram novas técnicas de apresentação gráfica. Foi um período em que novos jornais foram lançados e alguns já existentes foram renovados.

As gerações seguintes, nascidas nos anos 1940 e 1950 iniciaram a vida profissional nos anos 1960-70, sob um regime militar autoritário que impôs a censura aos meios de comunicação, mas durante o qual ocorreu um importante crescimento econômico, com a verticalização da indústria e o aumento considerável da produção de bens duráveis. Foi a época do “milagre econômico”, quando o Produto Interno Bruto cresceu a uma média de 10% ao ano. Já no final da década de 1970, começou-se a assistir a um processo de substituição geracional na imprensa, com os mais velhos deixando os postos mais elevados da hierarquia das redações para a geração mais jovem, até então excluída das posições de direção. Essa geração mais jovem se profissionalizou numa época de crescimento dos meios de comunicação de massa e de implantação da grande indústria cultural. Foi-lhe exigida uma formação especializada, obtida nas faculdades de jornalismo ou de comunicação. Foi essa geração, na verdade, que fez a mudança tecnológica, ou seja, a passagem da linotipia para a impressão a frio e, a seguir, promoveu a informatização das redações. Foi ela também a responsável pela introdução do marketing e pela valorização da área comercial dos meios de comunicação.

O estudo da trajetória de vida dos nossos jornalistas indica que, para a geração do pós-guerra, a participação política foi o fator decisivo na escolha da profissão. Assim também, o contexto político de repressão e censura do final dos anos 1960, para muitos jovens, transformou-se em estímulo à escolha do jornalismo. De nossos 57 entrevistados, tanto entre os pertencentes à geração mais velha como à geração mais jovem, um número significativo é formado por ex-integrantes de partidos ou movimentos de esquerda, movimentos católicos e movimentos revolucionários de guerrilha.

Todas as três gerações foram atingidas por uma conjuntura de censura e repressão à divulgação de idéias e informações, e todas estiveram envolvidas no processo de mudança da imprensa brasileira. Todos responderam, portanto, a exigências de várias ordens, quer políticas, quer profissionais. Buscamos perceber em suas respostas, mais que as singularidades, as regularidades. Seu discurso nos permitiu ? como certamente permitirá ao leitor ? entender a estrutura das empresas em que atuavam, acompanhar a evolução de seus métodos de trabalho e perceber as alterações sofridas no perfil de sua própria categoria profissional.

As entrevistas que se seguem foram feitas por Fernando Lattman-Weltman e por mim, e editadas por Dora Rocha. Os textos editados foram enviados aos entrevistados para revisão. No caso de Evandro Carlos de Andrade, a leitura final foi feita por Luiz Garcia. De todos, às vezes temidos monstros sagrados, só recebemos palavras de estímulo e pronta colaboração. A eles os nossos agradecimentos, assim como a todos os jornalistas que colaboraram com nossa pesquisa ao longo dos últimos anos.

(*) Historiadora e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas

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