Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÚSICA & MÍDIA

Eles venceram

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

MÚSICA & MÍDIA

Antonio Fernando Beraldo

Leio na Folha de S.Paulo (6/2/01), caderno Ilustrada, entrevista-reportagem de quase página e meia com Carlinhos Brown, recém-saído de um constrangimento no Rock in Rio e que está lançando um disco novo. A certa altura do calvário, o músico atira: "Talvez eu seja um Elvis Jobim, um Elvis Jobim Porter, porque não adianta eu falar da canção mundial sem falar de Cole Porter. Vi tudo na Sessão da Tarde, Bing Crosby, Nat King Cole, Louis Armstrong, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. Parecia a jovem guarda deles (sic)". Desinformação e pretensão à parte, aos poucos Carlinhos Brown vai se revelando: "É a plasticidade musical que busco. O quero dizer (nas minhas músicas) não significa nada. Não me considero poeta, compositor, nada disso – talvez, mais artista plástico que todas essas coisas".

Ninguém poderia definir melhor. A primeira vez que ouvi o som da timbalada, um rolo percussivo a preencher todos os tempos do ritmo, modulando imagens a partir das variações da intensidade sonora, veio-me outra impressão – a de que, enfim, a reação violenta à violência contra os "pretos e quase-pretos" da Bahia encontrara seu modo de expressão. A entrevista com Carlinhos Brown, até este ponto, me fez mudar de idéia, e lembrar melhor a polirritmia sofisticada de um Max Roach e um pouco a violência do sopro inicial de John Coltrane – outros escultores, outros artistas plásticos. Isso me fez voltar atrás e reler alguns trechos: "O artista tem o dever de tentar transformar. Sou a tentativa. Se não provocar o gosto não serve. Fica morto, não vira obra".

Pode-se concordar ou não com o tom, digamos, "revolucionário" do artista. Mas, ao se comparar o que o diretor de marketing da EMI falou do disco a ser lançado, brota o desconforto em quem gosta, e muito, de música. Depois de citar as vendagens de discos anteriores, o sr. Hari Chandra solta: "Estamos tendo muito cuidado com ele. Ficamos muito mais próximos na escolha de repertório, gravação, escolha da música de trabalho (…) agora não estamos lançando nenhum outro produto, nossa equipe de vendas só tem este disco" (grifos meus). Note que quem fala assim é o diretor de marketing, e não o produtor (ignoro se o produtor, se há produtor, esteja sintonizado com Carlinhos Brown ou com o "mercado"). A entrevista prossegue, com o diretor de marketing fazendo um cuidadoso plano de vendas de seu produto, com as previsões de vendas a atingir 250 mil cópias. O contraponto é dado por Carlinhos Brown, sempre na defesa: "Um artista como eu sofre pressão de ter de ir para o show, tocar hits, fazer Xuxa e ou três Faustões", angustiado porque acha que vender "30 mil é disco prá caramba. A gravadora não acha".

É de dar pena. Não se deve ter a ingenuidade de descrer que música é negócio, nem alimentar a saudade dos bons tempos de Aluísio de Oliveira ou George Martin. Há muito tempo que o novo é pré-fabricado aqui e no resto do mundo. Há bastante tempo que a música popular (pelo menos a americana e a brasileira) virou música de consumo, não há nenhuma novidade nisso. A maioria dos "artistas" que lideram as vendagens são pessoas com tino comercial inversamente proporcional ao artístico, e nós, pessoas de "gosto mais sofisticado" (leia-se "não-popular"), deixamos isso prá lá e que se dane o resto, desde que tenhamos em casa os CD’s "que prestam", ou que tenhamos acesso àquele grupo que "quase ninguém conhece, mas que é o máximo".

Galope no samba

A luta de Carlinhos Brown para não ser esmagado (ou amoldado) pela mídia é um pedaço, apenas, de um ovo de serpente muito maior. A Rede Globo adquiriu os direitos de transmissão da Copa João Havelange – uma bagunça que substituiu outra. Resultado: a primeira final foi num sábado à tarde. Como todo mundo sabe, nós aqui no Brasil seguimos uma tradição inglesa, que vem desde o século 17, de não haver esportes no domingo. Como o jogo foi interrompido, a segunda final foi … numa quinta-feira, às 4 da tarde. Muito adequado. A vingança do deputado Eurico Miranda, diretor do Vasco, foi supimpa: colocou logotipos do arqui-rival SBT na camisa dos jogadores. O troco veio um pouco depois, com o Jornal Nacional revelando as propriedades e fortunas do deputado, convenientemente protegidas no exterior, com direito a repeteco no Fantástico. Não sei porque o Exmo. Sr. parlamentar ainda não solicitou a algum juiz uma investigação sobre o que estavam fazendo aqueles menores, naquela hora da noite, trabalhando na gravação do Xuxa Park, quando houve o sinistro … aguardemos.

A Rede Globo comprou os direitos de transmissão do desfile de Escolas de Samba do Rio de Janeiro, por 8 milhões de reais, até 2004. Um bom negócio para os dois lados, só que o desfile terá que começar mais tarde (passou das 19h para 21h), para não atrapalhar a programação; as escolas terão tempo de desfile reduzido, pelo mesmo motivo. Segundo os jornais, as escolas estão se precavendo e cortando alas inteiras, algumas baixando em 40% o número dos componentes. Imagino que vá ser uma correria só, com os sambas-enredo com andamento cada vez mais rápido. Olha só o efeito: pegue um samba-enredo que você conheça, digamos Exaltação a Tiradentes (aquele que começa assim: "Joaquim José, da Silva Xavier … morreu a 21 de abril … pela Independência do Brasil …"). Cante uma vez no andamento normal. Em seguida, cante outra vez, com andamento mais rápido. Agora, outra vez, bem mais rápido. Resultado: virou uma espécie de marcha apressada, indefinida (isso acontece porque ambos os ritmos são binários).

Essa interveniência no modo de produção cultural, popular ou não, que antes era feita sob a imposição do tal "mercado", agora é estrutural: o produtor refaz (ou monta) uma coisa chamada "mercado" – em seguida produz aquilo que vai atender ao "mercado" (que ele mesmo criou). O marketing realiza seu sonho dourado, que é controlar, e direcionar, tanto a oferta quanto a demanda. A mídia poderosa, sem limites, faz isso, e que se dane quem não possa assistir ao jogo do seu time preferido, ou quem se incomoda com o galope com que passam as porta-bandeiras.

No fundo da gaveta

Outro efeito, não tão colateral, é a diminuição das categorias de produtos ofertados, com efeito de maximização do tamanho de clusters de consumo (isto para falar na linguagem deles: quer dizer que o produto "música", ou algo parecido, só é ofertado nas categorias 1, 2 e 3; os ouvintes que se agrupem em fãs do produto 1 ou/e do produto 2 e/ou do produto 3). Na década de 60, tínhamos nos livrado enfim da bolerização excessiva da música brasileira. E já havia bossa-nova, rock, Beatles, Chico Buarque, Caetano, Milton, Roberto e Erasmo. E ainda havia Ataulfo Alves, Noel, Lupicínio, Herivelto, carnaval. E havia marchinhas, valsas, e programas de rádio do tipo Baú da Saudade ou Violões em Seresta coexistindo com jazz e música clássica (que ainda é o horário nobre de algumas emissoras de rádio, viva!). Todo mundo ganhava seu dinheirinho, alguns um dinheirão. A Tropicália aglutinou isso tudo, é claro, mas até meados dos anos 80, este ecletismo sobrevivia – até Carlinhos Brown morando no paupérrimo Candeal, teve acesso a Elvis e a Miles Davis.

Tenho pena destes que estão começando a ouvir, nesta monotonia atual. Não se escapa da gritaria de um "breganejo" (que antes era chamado de "música de zona"), de um "axé-music" (antes chamado de "pula-pula-pra-turista"), ou dos "grupos de pagode" atuais, em vias de mesclarem-se com o "breganejo". Tristes dias, em que alguma alternativa seria o rap, uma espécie de música de protesto onde falta a melodia (rap é a contração de rythm and poetry – sem melody…). Pobres tempos, em que nem se pode acusar nossa música de ser americanizada – ou será que vai surgir alguém, não-produto, influenciado por Britney Spears?

Por fim, o lamento: Pixinguinha guardou a melodia de Carinhoso por quase 15 anos – achava as modulações muito simples (!), e ele tinha vergonha em mostrar (!!). João de Barro fez a letra, mas ninguém queria gravar (!!!). Acabou sendo gravada por Orlando Silva, depois de rejeitada por Francisco Alves e Carlos Galhardo [apud Pixinguinha, Nova História da Música Popular, Abril Cultural, 1977].

Dá para comparar?

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