Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Eliane Cantanhêde

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

ACM SOB SUSPEITA

“Indecência”, copyright Folha de S. Paulo, 13/02/03

“A lista de grampeados da Bahia era de quatro, passou para dezenas, já beira os 500 telefones com pedido de grampo. Não será surpresa se continuar aumentando.

A ditadura podia tudo: grampear, torturar, escamotear e não dar a menor satisfação. Os inquéritos da bomba do Riocentro e das mortes de Wladimir Herzog e Manoel Fiel Filho eram simplesmente engavetados.

As coisas mudaram um pouco. É verdade que nem a ditadura tinha condições, nem técnicas, de grampear quase 500 telefones num só Estado. Mas não deve ser mais possível manipular a Justiça e a polícia para violar a privacidade alheia. Com jeitinhos grosseiros, como anexar números de telefone à mão em processos que não têm nada com o sujeito.

Cidadãos tiveram suas conversas, seus segredos, suas confidências mais íntimas violados dessa forma nojenta. Entre eles estão a mulher e a filha de 23 anos do ex-deputado Benito Gama, que já foi ligado a ACM, rompeu com ele e acaba de perder uma nomeação federal por veto do senador -e em pleno governo do PT.

Um governo, aliás, que deu uma boa mão para eleger ACM presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado mesmo depois das suspeitas de que ele teria violado votos secretos na mesma instituição.

A violência de um grampo ilegal, antiético, imoral e indecente no telefone de uma moça de 23 anos é de arrepiar. Nesse caso, não há dúvidas: os réus estão de um lado, o que grampeou, e as vítimas estão do outro, o que foi grampeado.

Ninguém quer prejulgamentos, mas, a cada nome que surge da lista de grampeados na Bahia, mais as suspeitas constrangem o governo e o Congresso, porque recaem sobre o grupo do senador Antonio Carlos Magalhães. Antes, eram seus principais adversários políticos. Agora, desafetos que não são acusados de nada e nem sequer têm mandato político.

A pergunta do Congresso, da polícia e da Justiça tem de ser: quem grampeou? Para que pague por isso.”

***

“Grampo atingiu ex-amiga de ACM e mais cinco pessoas ligadas a ela”, copyright Folha de S. Paulo, 13/02/03

“Surgiu ontem mais um indício da ligação do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) com o grampo que atingiu mais de 400 telefones na Bahia: sua ex-amiga Adriane Barreto, que pertencia ao círculo mais próximo ao senador, e cinco pessoas ligadas a ela estão na lista dos grampeados.

Além de Adriane, também tiveram o sigilo telefônico violado seu atual namorado, Plácido Farias, o pai dele, César Farias, a ex-mulher dele, Márcia dos Reis, o irmão dela, Sérgio Reis, e o sócio de Plácido, Manuel Cerqueira.

Os celulares de Adriane e de Plácido, seu namorado, constam da relação entregue oficialmente ontem ao Ministério da Justiça. ?Isso dá uma conotação muito pessoal ao grampo. ACM tornou-se altamente suspeito?, disse ontem à Folha o advogado Sérgio Reis, que é amigo e ex-cunhado de Plácido, com quem fala praticamente todos os dias ao telefone.

Segundo Reis, ?é de domínio público que Antonio Carlos Magalhães teria tido um namoro com Adriane, ou algo parecido?. O relacionamento, na opinião de Reis, cria um vínculo direto entre a motivação dos grampos e ACM, que não teria aceitado pacificamente a decisão de Adriane de passar a namorar Plácido Farias.

Um indicador disso, ainda de acordo com Reis, é o fato de o jornal de ACM, o ?Correio da Bahia?, insistentemente publicar reportagens e notas que seriam hostis ao novo namorado da moça, questionando suas qualificações profissionais como advogado.

Adriane é filha do desembargador Amadiz Barreto, ex-presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Ele foi candidato a presidente do Tribunal de Justiça da Bahia com apoio explícito de ACM e mesmo assim perdeu para o atual presidente, Carlos Alberto Dutra Cintra. Foi Cintra que entregou ontem a relação ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

A ex-mulher de Plácido, Márcia dos Reis, disse ontem à Folha que ela acreditava haver sido grampeada por causa do suposto relacionamento de Adriane com ACM. ?Meu ex-marido é hoje casado com uma pessoa que toda a sociedade baiana diz que era ?caso? do ACM, que é a filha de um desembargador, Adriane Barreto?, disse. ?Eu acho que quiseram saber alguma coisa [sobre Plácido] por meio do meu telefone. Só pode ter sido isso?, diz ela.

Viagem

Márcia, que trabalha como analista judiciária no TRT da Bahia, diz que, há cerca de um ano, o ex-marido viajou para um spa e lá se apaixonou por Adriane Barreto.

?Foi um escândalo na Bahia, justamente porque todo mundo conhece ela, sabe da história dela. Eram comentários em todos os lugares. Tenho uma filha de 14 anos, me vi exposta e quis me ver livre o mais rápido possível daquela situação.? Ela diz que se separou de Plácido em 21 dias.

?Não tenho contato com o Plácido, mas o que a gente sabe é que a vida dele está completamente liquidada?, diz ela, afirmando que o ex-marido sofreu muitas retaliações no Estado por causa do relacionamento com Adriane.

Outro grampeado, César Farias, pai de Plácido, afirmou à Folha que não gostaria de se manifestar, ?por enquanto?, sobre o assunto. Informado de que a ex-nora, Márcia dos Reis, citara o relacionamento entre Adriane e ACM como possível motivo para um grampo, disse: ?Se ela [Adriane? namorava Antonio Carlos, eu não sei. Agora, que foi grampeada, talvez, por isso, foi. Porque ele [ACM] reagiu quando os dois [Plácido e Adriane] ficaram juntos, perseguindo Plácido, essa coisa toda?.

?Doa a quem doer?

As crescentes suspeitas sobre ACM levaram o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT), a reagir com maior ênfase na apuração de responsabilidades e sob a justificativa de que o grampo atingiu quatro deputados federais: o atual líder do PT, Nelson Pellegrino, Geddel Vieira Lima (PMDB), o atual ministro do Trabalho, Jaques Wagner, e Benito Gama, que não se reelegeu.

João Paulo pediu ao novo procurador parlamentar, Luiz Antonio Fleury Filho (PTB), que acompanhe as investigações sobre o grampo. E acrescentou: ?Doa a quem doer?.

A frase de João Paulo foi interpretada no Congresso como a decisão do governo de não abafar o caso dos grampos.

Ao Planalto interessa que os holofotes se voltem para ACM e deixem na sombra as gravações com conversas de Geddel, eleito primeiro secretário da Câmara com a mão decisiva do governo. Uma CPI neste momento, de início de governo, crise econômica e necessidade de aprovar reformas, é tudo o que o PT não quer. Colaborou MÔNICA BERGAMO, colunista da Folha”

“Ministro recebe lista de 466 grampeados”, copyright Folha de S. Paulo, 13/02/03

“O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Carlos Cintra, entregou ao ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) relação com os 466 telefones que foram grampeados a partir de pedido de quebra de sigilo feito pela Secretaria estadual da Segurança Pública.

A lista entregue ao ministro ontem está sendo investigada pela Polícia Civil da Bahia. A PF vai entrar no caso agora, por determinação expressa de Bastos.

Na lista de telefones, figuram os números do ex-deputado Benito Gama (PMDB-BA) e de sua filha, Taíssa Teixeira Santos.

Benito é adversário político do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), citado pelo deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) como responsável por outro grampo ilegal, sob investigação da Polícia Federal.

Segundo Taíssa, Benito começou a desconfiar da escuta quando recebeu uma ligação de um empresário oferecendo aluguel de dois carros para sua campanha. Menos de uma hora depois, um general da Casa Militar do governo baiano teria cobrado do empresário dois carros para a campanha eleitoral de ACM.

O telefone celular de Adriane Barreto, que era do círculo mais próximo ao senador, e de alguns familiares dela também estão na lista.

Cintra considerou ?estranha? a quebra de tantos sigilos. Segundo ele, a justificativa da secretaria era a investigação de uma ?quadrilha gigantesca? de sequestradores. O desembargador pediu que a PF apurasse o caso.

A PF abriu um inquérito na semana passada para investigar a fraude em um pedido de quebra de sigilo feito em 2002 pela polícia baiana à juíza de Itapetinga, Tereza Cristina, em que o telefone de Geddel foi incluído a caneta.

A Folha ligou para alguns dos telefones da lista. A maioria das pessoas afirmou desconhecer o grampo e demonstrou indignação com a informação da reportagem sobre o crime em apuração pela secretaria baiana. Ao menos três escritórios de advocacia e alguns advogados da área criminal de Salvador foram grampeados.

A mãe-de-santo Nadir Barbosa, moradora de Teodoro Sampaio, foi uma das que disse à Folha não saber da existência do grampo.

O delegado Valdir Barbosa, atual delegado-chefe da Polícia Civil da Bahia, assinou 380 dos 466 pedidos de quebra de sigilo telefônico. Os outros 86 foram feitos pela delegada Ângela de Sá Labanca, de acordo com a documentação obtida pela Folha.

Os pedidos de Barbosa foram feitos a partir de março de 2002, quando a polícia já havia prendido os principais suspeitos do sequestro em investigação.

Grampo a Geddel

O delegado Gesival Gomes, que investiga o grampo contra Geddel, vai ouvir os dois delegados nesta semana.

Segundo a assessoria de imprensa da PF, é ?muito difícil? chegar ao mandante do crime. Para Gomes, ainda não é possível traçar um prognóstico.

Segundo a assessoria da PF, como a adulteração do pedido de grampo foi feita a caneta, é grande a possibilidade de responsabilizar apenas o delegado baiano Allan Farias, que assina o pedido.

Hoje, Gomes ouvirá o depoimento da juíza Tereza Cristina.

Segundo Gomes, ACM, considerado suspeito pelos deputados, não foi citado no inquérito aberto para investigar o grampo. Por isso, não se sabe se o senador será ouvido pela PF. (Colaborou JOSIAS DE SOUZA E ANA PAULA GRABOIS, da Sucursal de Brasília)”

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