Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > "ESTOU PARA MORRER. PODEM PUBLICAR"

Eliane Cantanhêde

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

"ESTOU PARA MORRER. PODEM PUBLICAR"

"Tudo ou nada", copyright Folha de S. Paulo, 16/01/01

"Todos nós vivemos situações-limite na vida. É quando o que parecia fundamental deixa de ser, e muita coisa que parecia supérflua passa a ser fundamental.

Mário Covas vive hoje uma situação-limite. E à sua maneira. Quem tem visto, conversado, convivido com ele se diz impressionado com sua garra pela vida. Os médicos é que se sentem impotentes. Estão arrasados.

A confirmação, ontem, de que a doença se alastra e já atinge a meninge praticamente decreta o fim de uma etapa, pública, política, e o início de outra, individual, particular. Uma pessoa assim geralmente diz e faz o que lhe vai na telha, libera impulsos reprimidos, abandona o pragmatismo, age pela emoção.

O cálculo político passa a valer pouco. A intuição e a vontade prevalecem. Para, por exemplo, indicar candidatos e projetar cenários políticos. Esse é um prazer que mesmo as piores notícias não conseguiram lhe surrupiar, e qualquer coisa que ele sinalize é naturalmente poderosa.

Covas tem um senhor currículo, o governo estadual mais importante do país e é o homem decisivo de um dos principais partidos. Tem um legado invejável na vida e na política.

Na política, mexer na peça Covas é mexer com todas as peças como num dominó: José Serra, Tasso Jereissati, Paulo Renato, José Aníbal e, muito particularmente, Geraldo Alckmin. Se assumir agora, Alckmin pode inviabilizar a candidatura ao governo em 2002 e reabrir uma discussão que parecia fechada. Reabrir tudo, aliás.

A questão política, porém, não é o mais importante nem o que todo mundo está pensando neste momento, com os exames confirmando maus presságios, os médicos sem saber exatamente o que fazer e Covas precisando muito cuidar mais dele, menos da sua agenda.

De resto, equações políticas podem esperar. O que dá vontade é esquecer tudo isso um pouco e falar de gente para gente. Perder a formalidade um instante e dar um abraço de respeito ao homem público, mas também de carinho com o ser humano."

"Mário Covas", copyright Folha de S. Paulo

Dia 16 – "Na língua alemã, existe uma palavra precisa para exprimir a ‘alegria com o sofrimento alheio’: ‘Schadenfreude’ (‘Wahrig Deutsches Woerterbuch’, 1974). É o que parece que está acontecendo com relação às notícias sobre a doença do governador Mário Covas (Brasil, pág. A6, 11/1). É lamentável que se entre em determinados detalhes do sofrimento pelo qual passam o governador e sua família. (Adhemar F. Maciel, Belo Horizonte, MG)

Se eu pudesse, transformaria a coluna de Eliane Cantanhêde, ‘Sossega, Espanhol!’ (Opinião, pág. A2, 12/1), em uma carta minha, pessoal, ao governador Mário Covas. Quanta sensibilidade e lucidez nessa jornalista. Não sou advogada da Folha, mas não posso deixar de lamentar que Marcos Caruso e Raul Agnello Moler (‘Painel do Leitor’, 12/1) não tenham lido a coluna de Cantanhêde antes de se manifestarem. Não foi a Folha que expôs o governador, foi a sua crença exagerada (teimosia?) em ser capaz de tudo enfrentar na hora em que quiser. Acho que o governador tem pique para tudo enfrentar, mas não a qualquer hora. Sei do que estou falando, pois estou no fim de um tratamento quimioterápico, e nem sempre minha vontade pode ser atendida. Se pudesse, diria ao governador que nessas horas temos obrigação de cuidar de nós mesmos para podermos fazer mais e melhor daqui a pouco. E quando a dor ataca, não só a física, mas a da alma, eu me defendo pensando no que tenho de bom na minha vida. Parafraseando o próprio governador, se tenho vida (e os filhos e os netos e o marido e os amigos), se tenho a capacidade de pensar nos outros, se continuo me indignando, reclamando e sentindo paixão, a perda de uma mama é um detalhe diante do essencial. Então eu me guardo e resguardo, cuido-me até terminar o tratamento, para poder fazer mais por mim e pelos demais. Tudo isso eu diria ao governador: ‘Cuide-se direito, homem! Você não pertence só a você, mas principalmente a você!’.’ (Ana Maron Vichi, Campinas, SP)

Dia 13 – Não acho que Mário Covas esteja querendo provar alguma coisa. Ele está exercendo o seu direito -com muita coragem- de continuar sendo transparente. O governador está demonstrando que é um homem como pouquíssimos: sem o medo de mostrar-se como realmente é, ou está. Feliz daquele que tem tanta transparência. Quem é Eliane Cantanhêde para pedir ao ‘Espanhol’ para ‘sossegar’? Acho muita ousadia.’ (Edson F. Nascimento, médico psiquiatra,Ribeirão Preto, SP)

Poucas vezes fiquei tão indignada com o modo de a Folha abordar um assunto como ao ler o tópico ‘Frases’ (Brasil, pág. A6, 11/1) sobre o governador Mário Covas. Não consegui entender o que o jornal pretendeu. Humilhar quem tem coragem de se expor? Repetir palavras inventadas, como as de uma criança que aprende a falar ou de alguém que não teve o privilégio de estudar e diz frases tão erradas que se tornam engraçadas para os pobres de espírito? Muitos de nós vimos na TV a confusão do governador, a aflição e a dor de dona Lila. Mário Covas, homem de coragem como poucos, tem enfrentado a provação por que passa com uma grandeza que não tem a pessoa que redigiu, de forma tão desastrada, e pôs em destaque aquelas frases. (Maria Cecília Mendonça de Barros, São Paulo, SP)

Imagine a seguinte manchete: ‘Mário Covas fala desarticuladamente em palestra’. Em seguida, a reportagem apenas descreve como o fato se deu, sem fazer menção às frases. Pergunto: ‘Ficaria completa a reportagem?’. Creio que não. Por que (em nome de um suposto pudor?) ter de recorrer à dissertação, à narração, à recursos linguísticos para mostrar ao leitor um fato? A divulgação das falas do governador foi a melhor forma de o leitor ter a exata dimensão do que ocorreu. Discordo da opinião do dramaturgo Marcos Caruso. A Folha nada mais fez do que exibir os fatos da melhor forma possível. Um fato da vida, da vida cotidiana. E isso um dramaturgo não deve rechaçar. (Rogério E. Falciano, Cotia, SP)"

"Exame de Covas revela câncer na meninge", copyright Folha de S. Paulo, 16/01/01

"Resultados de exames realizados na sexta-feira no governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), 70, revelaram a presença de células cancerígenas em sua meninge -membrana que reveste o cérebro e a medula espinhal (sistema nervoso central).

‘‘Na medida em que você tem um tumor que há dois anos parecia curado, que poucos meses atrás apareceu novamente e agora temos mais uma manifestação, é óbvio que as perspectivas são piores do que já foram’, afirmou ontem sobre a descoberta o oncologista Ricardo Brentani, integrante da equipe responsável por Covas.

Na avaliação dos médicos, a contaminação do sistema nervoso por células cancerígenas explica as dificuldades de locomoção e as dores de cabeça do governador.

Segundo o médico particular de Covas, o infectologista David Uip, a nova ocorrência significa metástase, isto é, a contaminação de outros órgãos pelo tumor maligno de bexiga detectado em dezembro de 98. ‘‘Sempre é uma metástase quando é à distância’, declarou.

Apesar disso, resultados da ressonância magnética de corpo inteiro, também realizada na sexta-feira, não indicaram a existência de tumores no local ou em outras regiões do organismo.

‘‘Tumor, por definição, é tudo aquilo que cresce. Isso não foi visto. As imagens, inclusive das meninges, não mostraram coisas aumentando de tamanho. Mas, do ponto de vista prático, isso não muda nada’, explicou Uip.

Detecção

A ressonância é um dos mais sofisticados métodos de imagem disponíveis para a análise de detalhes, mas os médicos afirmam que há limitações. Os exames atuais não permitem a detecção de lesões com menos de três milímetros. No corpo humano há cerca de 3 milhões de células com esse tamanho. ‘‘Ninguém pode saber (se existem tumores em outras partes do corpo)’, disse Uip.

Dos dois tumores extraídos do governador em novembro, apenas um -o do reto- havia sido diagnosticado pelos médicos. O segundo, no intestino delgado, foi visto apenas durante a cirurgia.

Artur Katz, oncologista do Hospital Albert Einstein e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, declarou que a existência de células tumorais na meninge de um paciente significa que existem tumores no local. ‘‘Essas células apenas ainda não formaram nódulos visíveis por meio da ressonância’, afirmou Katz à Folha.

Os médicos do governador evitaram dar detalhes sobre a agressividade do novo foco da doença e sobre a reação do governador ao receber a notícia. ‘‘Foi um momento de uma relação médico/ paciente muito complicada, muito pessoal. Vou pedir que me permitam guardar isso’, disse Uip.

Segundo os médicos, o ‘‘bom senso’ indica que as novas células cancerígenas devem ser derivadas das do tumor de bexiga removido no final de 98.

Na ocasião, as lesões localizadas eram de grau de três, em uma escala de agressividade que varia até quatro. Porém, de acordo com Katz, quando há disseminação da doença, os tumores naturalmente avançam para o último grau.

Tratamento

Brentani informou ainda que permanecem suspensas as sessões de imunoterapia a que Covas estava sendo submetido. ‘‘Não há possibilidade de aquele medicamento entrar na medula espinhal. Ele certamente não teria ação sobre a doença. Não há sentido em usá-lo’, disse o oncologista.

Isso porque a meninge é uma membrana impermeável que tem como função proteger o cérebro de substâncias estranhas. Daí a dificuldade em tratar a doença, piorada pelo fato de ainda estar em contato direto com órgãos como o cérebro e a medula.

Recusando-se a adiantar qualquer outra forma de tratamento, o oncologista de Covas afirmou apenas que a quimioterapia não está descartada.

Conforme Katz, há hoje duas hipóteses para o tratamento de tumores na meninge, um tipo de metástase não comum em pacientes com câncer de bexiga.

Uma delas é a quimioterapia intratecal, quando o medicamento é injetado dentro do liquor (líquido que envolve a medula espinhal e o cérebro) por meio de uma agulha colocada na coluna lombar ou na nuca do paciente.

Uma segunda opção seria a realização de uma cirurgia em que um cateter é introduzido na cabeça, mais especificamente no ventrículo (orifício do cérebro onde é produzido o liquor), pelo qual seria ministrada a quimioterapia.

Caso sejam posteriormente localizados tumores na região, pode-se ainda complementar o tratamento com radioterapia.

Os exames realizados na sexta-feira tinham por objetivo tentar diagnosticar a origem desses sintomas. Resultados preliminares dos testes revelaram que havia um ‘‘discreto aumento da pressão intracraniana’.

Permanência no cargo

Segundo Uip, o estado do governador é hoje ‘‘absolutamente normal’. ‘‘Não cabe a nós ficar discutindo algumas coisas’, disse ele, sobre uma eventual recomendação para que Covas se afaste do cargo. Ele negou que tenha feito qualquer aconselhamento ao governador nesse sentido."

"Tucano fala em público antes de resultados", copyright Folha de S. Paulo, 16/01/01

"Horas antes de ser divulgada a descoberta de células cancerígenas em sua meninge, o governador Mário Covas (PSDB) participou ontem de uma cerimônia para a entrega de títulos de domínio de terras do Estado a comunidades remanescentes de quilombos.

Ao contrário do que ocorreu na última quarta-feira, quando não conseguiu concluir um discurso em público, Covas falou aos presentes por cerca de 15 minutos de maneira conexa.

Seu pronunciamento foi feito de forma lenta e com pausas entre algumas de suas frases.

Acompanhado de sua mulher, Lila, e sorridente, Covas distribuiu acenos e ainda reclamou de assessores que insistiam em ajudá-lo a organizar algumas fichas de leitura. No final da tarde, o governador se dirigiu para a residência oficial de verão, no Horto."

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