Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Elisabete Vilar

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

TELEVISÃO

“Telespectador moderno é compulsivo e nervoso”, copyright Público, Lisboa, 26/1/03

“O novo espectador de TV é nervoso e insatisfeito, consumindo horas de televisão de forma compulsiva. Devora horas de televisão numa emissão mosaico, constituída por meia hora de um filme, dez minutos de um concurso, metade de um telejornal e o final de uma série. O perfil é traçado por José Angel Cortés Lahera, investigador na área de ?media? da Universidade San Pablo, de Madrid, e foi apresentado esta semana em Lisboa, na conferência internacional ?Televisão, Violência e Sociedade?, que decorreu na Universidade Católica.

O professor considera que a multiplicidade de canais comerciais, o facto de as estações não serem sérias no anúncio da sua programação, a omnipresença do televisor e a banalização do comando à distância geraram uma nova maneira de assistir aos programas de TV.

Este ?novo espectador? – indissociável de uma ?nova TV? que tanto adaptou a sua programação a esses hábitos como levou as pessoas a adaptar-se a ela – começa, sem critério, a ver um programa, abandona-o no primeiro intervalo, para ver outro que abandona por falta de interesse e assim sucessivamente.

É um espectador que ?procura entre a programação, sem antes se ter informado sobre o que têm as TV para oferecer nesse dia?. Os cortes publicitários, acrescentou o estudioso, tão frequentes e longos, contribuem para esse ?surfar? compulsivo.

Ora, esta atitude, acredita José Angel Cortés, retira espírito crítico a quem vê televisão, que ?dificilmente escapa à sedução do lado consumista da TV. Torna-se entusiasta de marcas e modas, de tiques aprendidos em programas, de formas de vestir ou falar que se impuseram pela televisão?.

Numa entrevista, recordou o investigador, foi perguntado a Woddy Allen: ?É verdade que o cinema imita a vida??, ao que o realizador respondeu, sem hesitar: ?Sim, é verdade. O problema é que a vida imita a televisão?.

Para Cortés Lahera, a TV é ?uma gigantesco supermercado, onde se vende de tudo?. O próprio telespectador passou a ser ?uma mercadoria?. Ou, como uma vez afirmou o primeiro-ministro italiano e detentor de um grupo que controla vários canais de televisão, Silvio Berlusconi, ?a TV comercial é um comboio. As carruagens são os programas, e os passageiros, que vão comodamente sentados, são os ‘spots’ publicitários?. Assim, os programas tornam-se uma ?desculpa para que os anunciantes vendam a sua mensagem?, acrescenta o investigador. Neste modelo, surgido com o fim do monopólio estatal no meio televisivo, as expectativas sobre o crescimento do mercado publicitário ?são as primeiras e mais importantes constantes a ter em conta na hora de estabelecer um canal de TV?.

E ?para alcançar a optimização publicitária, há que conseguir audiência?. Ou seja, ?já não é necessário chegar ao telespectador para que conheça os programas; precisa-se do público, convertido em audiência, para poder vender publicidade?.

Também os programas não são mais programas: ?Estamos perante um claro processo industrial de fabrico de ‘produtos’, dirigidos a alvos específicos. Toda uma bateria de estratégias de marketing serve para conquistar o espectador. O seu estilo de vida e preferências comerciais compõem um amplo sistema segundo o qual se estabelece a programação diária?.

Os anúncios não são já a fronteira entre programas, ?que pressupunha uma trégua para o espectador?; para ?alcançar o beneplácito da audiência e impedir a sua fuga para outros canais, a publicidade introduz-se nos próprios programas, formando um todo?.

Audiências são apenas convenção

A programação é composta ?sem perder de vista as horas de maior audiência potencial e combinando o preço dos programas para obter uma oferta que, em vez de plural, seja rentável?, afirma Lahera, sustentando que as audiências e a sua medição representam o calcanhar de Aquiles do sistema televisivo. Sendo os resultados de audiência difíceis de entender para o grande público, os especialistas em marketing ?conseguem que quantidade se confunda com qualidade?. Para o investigador espanhol, a medição de audiências não é mais do que uma convenção entre os actores do meio – os canais de TV e os anunciantes – e não um atestado de qualidade dos programas.

Mas José Angel Cortés sublinha que as televisões não podem ser culpadas de todos os males. ?O saber escolher, o saber o que se deve ver e ver o que se deve fazem parte da obrigação que cada um tem como espectador de televisão e estão intimamente ligados à sua liberdade?, defendeu. Mais: ?Se o telelixo fosse tão rejeitado como o sugerem certas conversas não chegaria a ter as audiências milionárias que atinge. E se muitos acreditassem no que dizem quando elogiam os documentários como produtos magníficos este gozariam de melhores audiências. A verdade é que as pessoas não são sinceras quanto às suas preferências?.

O professor sugere que ?a racionalização do tempo de ócio é um bom caminho para não se converter em consumidor compulsivo de televisão. Bem como darmo-nos conta de que é nas nossas mãos que está, muitas vezes, a solução a tanta crítica do meio televisivo que, embora devendo existir, deveria começar com uma autocrítica pessoal de cada um como telespectador?.

Frases

?A televisão não se deve fazer de costas voltadas para o telespectador e de forma irresponsável. A solução está nos conteúdos?, dado que ?os filmes, os programas de TV, os novos meios electrónicos são muito mais do que entretenimento e muito mais do que oportunidades de negócio?, disse, citando o produtor de cinema britânico David Puttnam.

?Se a indústria falhar no uso responsável e criativo destes meios; se eles forem tratados simplesmente como ‘indústrias de consumo’ em vez de fenómenos culturais complexos – que o são – corre-se o risco de danificar, de maneira irreversível, a vitalidade da sociedade?.

?Penso que só com criatividade e respeito pelo telespectador podemos fazer da TV um instrumento de informação, entretenimento agradável, estimulante e inteligente que nos faça sentir cada vez mais livres como pessoas e telespectadores?.”

“Record tira afiliada da Band, que ameaça Rede TV!”, copyright Folha de S.Paulo, 22/1/03

Enquanto Rede TV! e Band travam uma batalha verbal, que pode chegar à Justiça, a Record leva a melhor e anuncia que a partir do próximo dia 1? a TV Paranaíba, de Uberlândia, um dos principais mercados regionais do país, passa a ser sua 80? afiliada.

A mudança da Paranaíba (na Band desde sua criação, em 1978) pode ser o primeiro indício de uma debandada das afiliadas da Band, insatisfeitas com a venda de parte do horário nobre a Igreja Internacional da Graça de Deus, de R.R. Soares, o que tira receitas locais das emissoras regionais.

Ari de Castro Santos Jr., dono da Paranaíba, admite que Soares poderia influir em sua decisão, mas diz que vem tendo problemas com a Band desde 2001. ?Não participamos desse embate [contra R.R. Soares]?, diz.

Assim como a Rede TV!, a Record está de olho nas afiliadas da Band. Para tanto, criou uma nova diretoria, no início do mês, só para cuidar da expansão da rede.

Já a Rede TV!, que tinha 40 emissoras em 2002, interrompeu as férias de seu diretor de afiliadas e montou duas equipes para negociar com as regionais da Band (cuja rede era de 75 em 2002). Teria um mapa de 35 afiliadas descontentes, das quais estaria em negociações avançadas com 11.

A Band afirma que tudo não passa de boato plantado por Marcelo de Carvalho, vice-presidente da Rede TV!, o qual ameaça interpelar judicialmente.

?Não conheço esse sr. Marcelo de Carvalho, a não ser por ouvir dizer. Acho muito justo que todos tenham pretensões de formar uma grande rede de TV. Entretanto, isso não é tarefa possível aos aventureiros. É preciso ter idoneidade, tradição em mercado, uma história empresarial conhecida. Há um imenso abismo separando a aspiração da realização?, afirma Antonio Teles, consultor da presidência da Band.

?A Rede TV! não cria fatos. Muitas das afiliadas da Band estão em conversações com a Rede TV! e com outras redes. Com relação à afirmação do sr. Teles, concordamos quanto à importância da idoneidade, tradição e história e acrescentamos dois pré-requisitos: arrojo e competência?, responde a Rede TV!.

***

“Câmara define o que é baixaria na TV”, copyright Folha de S.Paulo, 23/1/03

Em uma cartilha de 42 páginas a ser lançada amanhã, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara dos Deputados define o que é baixaria na programação da televisão.

A iniciativa faz parte da campanha ?Quem Financia a Baixaria É contra a Cidadania?, da CDH, que irá pressionar TVs e patrocinadores de programas que desrespeitam os direitos humanos.

São formas de baixaria na TV, segundo a cartilha, a apologia ao crime, tortura e linchamento, a discriminação racial, sexual e religiosa, as afrontas à dignidade de ?pessoas fragilizadas? (como deficientes, drogados e portadores de HIV), a valorização da exploração sexual, pedofilia e incesto, o estímulo ?à precipitação da sexualidade infantil e infanto-juvenil?, a exposição ?abusiva? de crianças e adolescentes (inclusive em reportagens sobre ?dificuldades no interior da família?), a divulgação de imagens de pessoas privadas de liberdade (também por motivos de saúde) e a imputação de autoria de crime sem provas ou sem condenação transitada em julgado.

Esses critérios, de fato, são conceitos de direitos humanos extraídos pela CDH da Constituição, leis e pactos internacionais firmados pelo Brasil. A cartilha pretende estimular entidades e cidadãos a denunciar a baixaria na TV. Na semana que vem, será lançado um site específico para isso.”

“Artistas viram curingas da programação”, copyright Estado de S.Paulo, 26/1/03

“Nem todo mundo nasce um Silvio Santos, com capacidade de apresentar dois, três e até cinco programas diferentes que dão certo. Mas bem que as emissoras tentam encontrar o seu curinga. A fórmula de busca é simples: é só um apresentador fazer sucesso para que ele logo ganhe seu segundo programa na emissora, quando não o terceiro ou quarto. Mais econômica, porém nem sempre funcional, essa tática de fazer apostas distintas em um único artista nem sempre dá certo e pode acabar em gasto desnecessário de dinheiro e imagem.

No time dos que tentaram a tática está José Luiz Datena da Record. Sucesso no comando do Cidade Alerta ? seu passe foi motivo de disputa entre emissoras ? Datena investiu nos game shows, mas logo viu que não era a sua praia. No Vermelho, comandado por ele, que ajuda os participantes a pagarem suas dívidas, chegou a mudar de dia e horário para ver se emplacava, mas saiu do ar na semana passada. Sai Datena, entra Otaviano Costa no comando da atração. ?Eu achava que, com um pouco mais de tempo, o programa ia emplacar, mas a Record achou melhor não desgastar minha imagem. Achou que essa transição de âncora de jornalístico para apresentador de game show foi feita rápida demais?, explica Datena. ?Mas não desisti da idéia de ter um outro programa. Já fiz de tudo na TV e tenho vontade de seguir uma outra linha de atração. Já tenho 45 anos e não sei até quando agüento o ritmo do Cidade Alerta?, continua. ?A Record está preparando um novo projeto para mim.?

Ratinho, do SBT, e Raul Gil, da Record, também tentaram uma nova vaguinha ao sol. Ratinho queria ressuscitar um programa no estilo do extinto Som Brasil, da Globo, e estreou no SBT, no início de 2001, o Meu Brasil Brasileiro, programa rural que naufragou um mês depois. ?Faltou investimento comercial, mas ainda não desisti do projeto?, diz o apresentador, que já está com o piloto de uma nova atração em andamento. A matéria-prima continua sendo o homem do campo, mas sem música. ?Será uma coisa mais Globo Rural?, diz ele.

Rei das tardes de sábado, Raul Gil sonhava em apresentar um programa noturno. Estreou em fevereiro do ano passado o Raul Gil Tamanho Família, que tinha os eternos quadros do banquinho e do chapéu, tirados do programa de sábado para dar espaço aos calouros. A novidade estreou bem, mas diante da concorrência de Hebe (SBT) e dos filmes da Globo, acabou dançando. Saiu do ar em outubro para nunca mais voltar.

Eliana só ameaçou. Em 2001, a apresentadora infantil chegou a comandar uma atração noturna especial na Record, como teste, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Na seqüência, encomendou uma pesquisa de público e descobriu que seu negócio são mesmo as crianças e só. Abortou a idéia de ter um talk show adulto. Ana Maria Braga, da Globo, não conseguiu tirar do papel o projeto de um segundo programa ? de auditório ? na rede dos Marinhos, previsto em seu contrato. Mas não desistiu. Por enquanto, só promessas.

Versátil ? Mas há também aqueles que deram certo em dupla jornada. Pedro Bial, da Globo, é um deles. Ancorando o Fantástico há alguns anos, Bial foi convocado para assumir o comando do Big Brother, logo em sua primeira edição, e deu conta do recado. A também escalada para função, a atriz Marisa Orth, não teve a mesma sorte. Depois de um festival de tropeços e gafes, Marisa deixou o comando do reality show, antes de seu término, largando a ?bomba? nas mãos de seu colega. Bial pegou o ritmo e encarou mais duas edições do BBB ? a terceira, em andamento ? sem perder o tom.

Milton Neves, da Record, também foi convocado. Jornalista do mundo do futebol, Neves foi ?intimado? pela rede do bispo Macedo a apresentar o game show Roleta Russa. O apresentador conta que, a princípio, ficou um pouco assustado com o convite, mas assim que assistiu aos vídeos do programa ? que tem versões em todo mundo ? viu que poderia encarar. ?Eu nunca tinha apresentado um programa de variedades e sei que não sou nenhum Silvio Santos. Sou meio sarcástico, carrancudo e foi o que acabou me ajudando no Roleta Russa?, continua. ?Os caras da Columbia (dona do formato) disseram que o apresentador tinha de ter o meu perfil.? Neves conta que, apesar de ter seu público fiel, que acompanha os programas sobre futebol, foi com o Roleta que começou a se sentir famoso. Ele também afirma que não pretende abandonar os debates entre boleiros ? seu verdadeiro ganha-pão ? e diz que, mais do que o sucesso de um apresentador, a garantia de audiência depende de um formato de sucesso.?Eu falava antes com um público muito segmentado, só com homens. Apresentando um game show as coisas mudam. Hoje, crianças e mulheres me param na rua?, diz.

O medo de desgastar a imagem chegou a rondar Neves e assustou também Luisa Mel, da Rede TV!. Luisa, que começou na TV como repórter do Noite Afora, logo ganhou o comando de um programa, o TV Fama e, na seqüência, mais um, o Late Show. ?Fiquei preocupada em aparecer muito no vídeo, mas logo percebi que não podia recusar essas chances?, diz. ?Tento dar um tom diferente na apresentação de cada atração, mas não sei se um dia o público não vai cansar de me ver tanto ?, fala ela rindo. Nem todo mundo nasce um Silvio Santos.”

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