Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Elisabete Vilar

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

JORNAL IDEAL

“Jornal ideal retrata pessoas e dá informações úteis”, copyright Público, Lisboa, 2/2/03

“Sessenta e sete jornalistas de todos os Estados Unidos foram convidados a idealizar um jornal onde gostassem de trabalhar e que gostassem de ler. Foi-lhes permitido fantasiar, sem constragimentos de custos, patrões ou convenções. As propostas surgiram de conversas de grupo, fora da redacção, entre redactores, gráficos e fotógrafos com menos de 30 anos.

Mais internacional, focado nas pessoas. E mais entretenimento. E menos celebridades. E mais utilidades. E menos regras. É como os repórteres sub-30 dos Estados Unidos, desafiados a sonhar uma publicação, imaginam o seu jornal ideal. O projecto foi lançado pela ?Columbia Journalism Review?, publicação que faz a análise da comunicação social, criada sob a alçada do curso de jornalismo da Universidade de Columbia. Sessenta e sete profissionais responderam e surpreenderam.

Em aparência, o jornal de sonho destes jovens seria bastante familiar face ao que é hoje habitual naquele país: formato tablóide, divisão das matérias em secções, uma versão ?online? para complementar – e não suplantar – a edição papel. Mas surgiram algumas novas tendências e até surpresas. Houve quem defendesse o fim da pirâmide invertida (técnica que consiste em começar um texto a partir da informação mais relevante, deixando para o fim os detalhes considerados menos importantes). Pagar mais aos repórteres foi considerado essencial por alguns grupos. E surgiram apelos para um trabalho menos dependente das agências, com horários mais flexíveis e formação contínua (por exemplo, sessões para esclarecimento da redacção sobre fiscalidade e impostos).

Sobretudo, notou-se um enorme desejo de ?melhor jornalismo? – bastante terra-a-terra, questionando mais a autoridade e com mais diversidade de fontes e trabalhadores.

Algumas sugestões foram mesmo radicais. Parte dos profissionais apostou num jornal de distribuição gratuita e um grupo conclui até que o jornal não precisaria de ser publicado nos dias em que não houvesse suficiente matéria interessante. Muitos jornalistas consideraram acabar com as páginas de editoriais. ?Os jornais são detidos por grandes empresas e as grandes empresas não têm alma ou opinião?, justificaram.

Mais internacional

Mais cobertura internacional do que a média actual é um dos grandes desejos dos jovens jornalistas – que se vêem como parte de uma comunidade global e querem um jornal que reflicta isso.

E é nas pessoas que recai a tónica das abordagens que consideram necessárias. ?Dêem-nos os factos e as últimas novidades, mas não deixem de nos envolver com histórias sobre o que pensam e como vivem os jovens iraquianos, por exemplo?, resume a equipa do ?Seattle Times?. Ou, como conclui Leslie Koren, uma redactora de 30 anos do jornal ?The Record?, de New Jersey, ?histórias sobre pessoas que podiam estar aqui mas que, por acaso, estão lá?.

Outra forma de dar uma face humana às notícias do estrangeiro é observar as comunidades imigrantes na sua terra natal e a maneira como os Estados Unidos são entendidos noutras regiões. No fundo, os jovens repórteres querem uma publicação menos ?americanocêntrica?.

No jornal ideal, a adoração no altar da objectividade seria opcional. ?Quando um acontecimento tem flagrantemente apenas um lado ou é errado, seria mais interessante sublinhar isso do que procurar distanciar-se quando é impossível?, defende a equipa do ?Boston Globe?.

Peças narrativas, ao estilo das revistas, são igualmente almejadas. ?Quanto mais tempo se puder passar com uma banda, um político, um polícia e experienciar o que ele vive para fazer um perfil aprofundado, melhor?, acredita Melissa Maerz, de 24 anos, editora no ?City Pages?, para quem faz todo o sentido criar séries de peças sobre o mesmo assunto.

O jornal ideal abraçaria um tom coloquial, com recurso a linguagem menos formal. Mesmo o uso de palavrões não seria mal visto em algumas edições apropriadas, dizem os inquiridos.

Todavia, há que não confundir isso com condescendência. Um jornal não deve ?falar de cima? aos seus leitores, alertam os jornalistas sub-30. Nem presumir que eles sabem tudo. Como se gere então esta ténue fronteira entre paternalismo e clarificação? O repórter policial Mike Rosenwald sugere colunas especiais em que se responde a uma pergunta de curiosidade geral, enquanto Hernandez, do ?The Seattle Times?, propõe que as histórias tragam uma caixa que esclarece imediatamente as principais questões do assunto (quem, o quê, quando, onde, como), libertando o redactor para elaborar a peça de forma mais envolvente e rejeitando o ?lead?.

Bastante entretenimento

O jornal de sonho deveria ?atribuir mais peso ao entretenimento, mas não à custa das notícias?, de acordo com a maioria dos consultados. Mas ninguém exigiu mais cobertura de ?celebridades?. ?Os jornais presumem que a nossa geração só se interessa por tolices e bisbilhotices sobre famosos. É pura mentira?, atesta Andisheh Nouraee. Pelo contrário, estes jovens afirmaram querer ?mais análise subversiva da cultura popular?.

As novas gerações querem aprender a enriquecer as suas vidas: como ocupar o seu tempo de lazer, decorar os seus apartamentos ?de solteiro?, cozinhar ou jardinar com pouco tempo ou habilidade. Além disso, o jornal ideal deveria incluir peças sobre como gerir dinheiro, pedir um empréstimo ou evitar dívidas, mais do que sobre negócios ou comportamentos da Bolsa – mas não ao ponto de o transformar num manual sobre ?como fazer?.

Histórias sobre assuntos polémicos, como o uso recreativo de drogas ou doenças sexualmente transmissíveis seriam escritas sem tons alarmistas e sem apontar dedos acusatórios. Subculturas e estilos de vida alternativos seriam cobertos em detalhe no jornal de sonho – que traria críticas sobre ?sites? da Net, jogos de vídeo e histórias sobre os efeitos da teconlogia na vida quotidiana.

A Internet seria usada para oferecer o que não pode ser feito em papel. Leslie Koren, do ?Record?, resume a ideia: ?Escrevemos a história tal como a vemos e depois damos às pessoas as provas documentais, na Web?, como relatórios completos, entrevistas na íntegra ou registos públicos relevantes.

Mais ainda: os jovens jornalistas querem mais interacção com os leitores, através de fóruns, ?chats? e outras iniciativas.

E desejam que as matérias que dizem respeito à juventude sejam cobertas por jovens. Diz uma das equipas: ?Nas redacções [norte-americanas], tem-se hoje uma perspectiva que é largamente acima dos 40 e masculina. O que sai desse universo é tratado na imprensa como visto através de um aquário e com grande distância?.”

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“Portugueses querem mais qualidade”, copyright Público, Lisboa, 2/2/03

“Muito semelhantes, na organização, aos títulos que já hoje existem, os jornais ideais de três jovens jornalistas portugueses seriam muito mais bem feitos: no cuidado da escrita, no tempo dispendido a investigar, na articulação com a restante actualidade, na obrigatória contextualização dos temas, na qualidade final.

Ana Kotowicz, d? ?A Capital?; Maria João Almeida, do ?Expresso? e Nuno Azinheira, da Agência Lusa, todos com menos de 30 anos, foram convidados pelo PòBLICO a fazer uma reflexão semelhante à do estudo apresentado nestas páginas. Não lhes foi dada, contudo, a oportunidade do ?brainstorming? que ocorreu nas conversas de grupo nos EUA. E os resultados foram talvez menos ousados, muito mais direccionados a um jornal ?possível de concretizar? do que a um jornal ?de sonho?.

O modo como Ana Kotowicz descreve a organização do jornal que idealiza resume, de certa forma, os testemunhos recolhidos: ?A opinião deve ocupar um espaço importante, embora nunca mais do que a informação. Há secções de política (bastante), mais sociedade do que economia, local, internacional (forte), cultura (plural), ?media? e desporto. Há ainda espaço para serviços e passatempos. Palavras cruzadas e ?cartoons? e aqueles coisa que dão sempre jeito saber: farmácias, cinemas, programação TV. Semanalmente, há um suplemento cultural e outro económico. Aos domingos, uma revista e um suplemento infantil.?

Os jovens jornalistas consultados são unânimes em garantir o acesso de todos à informação. Querem um jornal barato e possível de encontrar em todo o lado. ?Infelizmente, os jornais tornaram-se mais um negócio do que um serviço público?, lamenta Maria João Almeida, para quem o jornal ideal ?deveria chegar ao maior número de localidades possível. Mesmo às aldeias mais recônditas, nem que fosse por encomenda! Quem não tem acesso aos jornais, refugia-se na TV, o que é pena pois é uma informação dada com muito menos precisão e detalhes?.

A aposta vai para os temas de interesse geral, que ?afectam mais directamente a maior parte da população?, diz a redactora do ?Expresso?. Ana Kotowicz tem regras de ouro: ?Nunca dar cobertura ao telelixo e seus protagonistas. Esquecer quezílias pessoais entre ditas personalidades. Nunca invadir a vida privada de figuras públicas?. Maria João Almeida também rejeita as ?coscuvilhices?, ?temas de TV género Big Brother? ou festas do Jet Set. Já Nuno Azinheira crê que ?não há matérias que não devam ser cobertas pelos jornais. As temáticas de interesse são cada vez mais heterogéneas e abrangentes. A questão não está em o que tratar, mas sim, como tratar. Só há uma exigência: o respeito escrupuloso pelas regras jornalísticas?.

Contudo, aponta prioridades: ?Apesar do internacional ser cada vez mais importante, a actualidade nacional merece a primazia?. E sublinha o papel da economia na actualidade bem como o surgimento do segmento ?people?, que gira em torno das vedetas. Actualidade, afirma, é tudo o que interessa às pessoas. ?Pode-se perguntar se a política é tão importante como o Big Brother. E a resposta é: pode ser. A maior parte dos jovens não gosta de política. Hoje, o ?light? ganha cada vez mais peso. Mas é possível coexistirem no mesmo jornal secções de política e internacional com TV e ?people?. E a tendência é essa: satisfazer nichos de mercado cada vez mais restritos?.

Para Ana Kotowicz, de cobertura obrigatória são ?a cidadania, se possível ensinando os leitores a ser melhores cidadãos e mais preocupados. E dar espaço a quem emerge na cena cultural?.

As reportagens e entrevistas são géneros eleitos pelos redactores entrevistados. Além disso, ?o jornal ideal tem obrigatoriamente espaço para investigação. Tem um compromisso com os leitores, de denunciar situações, mas de forma sustentada, fundamentada. Não acredito em histórias que se atiram para a praça pública por mero espectáculo informativo, que só servem para subir vendas?, sustenta Ana Kotowicz.

E Maria João Almeida defende que ?o jornalista deve passar mais tempo fora do que dentro da redacção. Não há nada que substitua o contacto pessoal?. Mas ?trabalhar em casa está fora de questão, a confusão de uma redacção faz parte do jornalismo?, lembra a repórter d? ?A Capital?.

No jornal ideal as secções estão bem articuladas e comunicam, defende Maria João. E ganha a imparcialidade e isenção, sublinha Ana Kotowicz, que, porém, acredita no jornalismo de intervenção. ?A notícia nem sempre se limita aos factos. Lembrar o que alguém disse antes de ser primeiro-ministro pode fazer toda a diferença ?. A linguagem deve ?aproximar o leitor da informação. O jornal ideal tem de ser de leitura fácil, mas não simplista?. As imagens devem fugir ao óbvio, acrescentar algo que não foi dito, segundo os três jovens, que aplaudem a infografia. Contextualizar a informação é obrigatório.

E Maria João Almeida deixa uma última nota: ?O jornal ideal é aquele que trabalha para a motivação dos seus empregados, que gere a força humana como motor da empresa. As administrações em Portugal são bacocas, fogem das mudanças e das sugestões dos trabalhadores. Muitas vezes, nem sabem bem o que os trabalhadores andam a fazer desde que o trabalho apareça feito. Devia haver um sistema de avaliação para jornalistas e editores (e porque não também administradores), como exigência de qualidade. E maior comunicação entre administração e trabalhadores, nem tanto pela questão de salários, mas pelo desenvolver de novas ideias, projectos e métodos.?.”

 

DOMÍNIO AMERICANO

“EUA dominam ficção importada pela Europa”, copyright Público, Lisboa, 3/2/03

“Entre produções integrais e co-produções, são os programas norte-americanos que mais passam nas TV europeias, incluindo Portugal. Reino Unido é país mais dependente dessas importações. Alemanha tem colocado ficção noutros países

A ficção e os filmes de origem norte-americana continuam a dominar as importações de programas das televisões da Europa Ocidental, de acordo com os mais recentes estudos, que reportam a 2001. Em Portugal, país que baixou para quase metade o número de horas prenchidas com programação internacional, o peso dos programas oriundos daquele país face ao volume total de programas estrangeiros é de mais de 50 por cento (ver texto em baixo).

Dados revelados esta semana pelo Observatório Europeu do Audiovisual mostram que o volume total de filmes e programas de ficção comprados ao estrangeiro e difundidos nas cadeias televisivas da Europa Ocidental foi, em 2001, de 320 239 horas, um aumento de três por cento em relação ao ano anterior.

E embora o volume de importações dos Estados Unidos tenha recuado pelo terceiro ano consecutivo, a programação de origem norte-americana continua a dominar o mercado de importações, inclusive por via da multiplicação de co-produções norte-americanas. No Reino Unido, por exemplo, 93 por cento do volume total de películas cinematográficas importadas e transmitidas pelos diversos canais analisados neste estudo provinham de empresas americanas ou foram por elas co-produzidos.

Em contrapartida, entre os principais países exportadores de programas de TV da Europa Ocidental (o Observatório reúne 35 estados europeus e a União Europeia), apenas a Alemanha viu o volume das suas exportações progredir significativamente em 2001, registando um aumento de 16 por cento.

Estes dados são disponibilizados pela Essencial Television Statistics e fundam-se numa análise da programação de ficção e filmes nas TV da Europa Ocidental desde 1994.

Números que permitem apurar que, após três anos de crescimento, entre 1996 e 1999, o volume total (em horas) de ficções importadas baixou ligeiramente – dois por cento – entre 1999 e 2000. A situação inverteu-se no ano seguinte, registando-se um aumento de programas estrangeiros de três por cento.

O quadro geral das fontes de programação, esse, manteve-se estável. Apesar da emergência de um certo número de novas zonas de interesse do ponto de vista da aquisição de programas, o tradicional predomínio da ficção e das longas metragens norte-americanas não foi posto em causa em 2001.

É que, embora o volume de importações integralmente americanas tenha diminuído pelo terceiro ano seguido (em 2001 recuou um por cento), as co-produções em que participam produtores dos Estados Unidos estão a ganhar cada vez mais peso. Algumas destas co-produções poderão contar com um ou mais parceiros europeus, mas podem ser na quase totalidade consideradas iniciativas norte-americanas. Mais: a diminuição das importações com origem em terras do Tio Sam, em termos absolutos, não reduziu o peso relativo desses programas face aos de outras proveniências, antes o aumentando em certos casos.

Em geral, as co-produções – sejam elas totalmente europeias ou incluindo parceiros internacionais – tornaram-se uma componente cada mais importante nas grelhas de programas. Em 1997, elas não representavam mais do que seis por cento do volume horário total de importações, enquanto em 2001 tomavam 13 por cento do tempo de programação total consagrado à ficção e cinema.

Entre as produções nem europeias nem americanas registam-se tendências diversas. A programação japonesa está em alta, com importações que mais do que duplicaram entre 1999 e 2000 e que aumentaram 25 por cento no ano seguinte. Já da Austrália e Nova Zelândia, inversamente, a queda tem sido a pique depois do grande êxito de importações a meio da década de 90.

O volume global de ficções europeias importadas pelas TV da Europa Ocidental manteve-se estável nos últimos cinco anos, a um nível entre os 15 e 16 por cento.

Nesta categoria, os programas provenientes do Reino Unido são claramente os mais difundidos nas estações em apreço – um volume duas vezes maior do que o segundo país europeu da tabela, a França. Com algum volume significativo restam ainda a Alemanha, Espanha e Itália.

Porém, entre estes cinco principais países europeus exportadores de ficção de TV, apenas a Alemanha registou um crescimento visível em 2001, fixado em 16 por cento.

Espanha e Itália viram as suas exportações para outros países europeus diminuírem.”

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“Menos programas estrangeiros em Portugal”, copyright Público, Lisboa, 3/2/03

“Dos programas televisivos de ficção importados pelas estações portuguesas, mais de metade chegam dos Estados Unidos da América. Entre 1996 e 2001, só no último ano a percentagem de programas estrangeiros oriundos daquele país não passou dos 50 por cento, ficando a apenas uma décima desse valor – um peso que se mantém apesar do decréscimo do recurso a programas estrangeiros.

O Reino Unido e o Japão, os dois principais exportadores de programas para Portugal a seguir aos Estados Unidos, registam uma proporção muito inferior. No conjunto de anos em apreço, segundo um estudo do Observatório Europeu do Audiovisual, foi em 2001 que ambas aquelas nações tiveram maior peso na programação estrangeira exibida pelas TV portuguesas: os programas britânicos representaram 8,4 por cento da ficção internacional e o Japão, especialmente por via da animação, preencheu 8,1 por cento desse pacote.

Isto muito embora nos últimos anos considerados no estudo, 2000 e 2001, o número de horas de programação assente em ficção estrangeira tenha decrescido substancialmente, para quase metade: em 1999, foram exibidas quase 11 mil horas de ficção internacional; no ano seguinte não chegaram a ser seis mil as horas de ficção importada.

As co-produções, especialmente as mistas, entre produtores europeus e de outros continentes, ou as não europeias, têm conquistado cada vez mais terreno em Portugal. Enquanto em 1998, por exemplo, as co-produções não europeias não passavam dos 0,4 por cento na totalidade de programas estrangeiros no nosso país, em 2001 representavam 7,3 por cento da programação importada.

Digna de nota entre os restantes fornecedores estrangeiros de programa, apenas a França, ainda assim com um registo bastante modesto, que pouco passou dos quatro por cento em 2001.”

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