Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > PORTUGAL

Elisabete Villar

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

PORTUGAL

"Jornalista do futuro: tecnológico, ?faz-tudo? e ?free-lancer?", copyright Público (www.publico.pt), 24/08/03

"Computador às costas, com antenas; viseira com vídeo e máquina fotográfica incorporados; bloco e caneta electrónicos; GPS e outras maquinetas. Os equipamentos que andam a ser congeminados nos laboratórios das universidades para apetrechar o ?jornalista do futuro? farão com que os repórteres se assemelhem a criaturas robotizadas como o ?Exterminador? do cinema – mas dar-lhes-ão também a autonomia e capacidade de trabalho que hoje só se obtém na redacção.

Exemplo disso é a Mobile Journalist Workstation, um projecto do Centro Para os Novos Media da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, liderado pelo investigador John Pavlik, para quem ?a melhor forma de prever o futuro é configurá-lo?. Este equipamento, cuja designação que pode ser traduzida como ?estação de trabalho móvel para jornalistas?, está a ser testado e apurado há muitos meses, permitindo realizar trabalhos de fundo quase instantaneamente sem ter de sentar-se à secretária.

É que à informação recolhida e redigida pelo repórter, a que se pode aceder ?em directo?, somam-se os arquivos e informações complementares. Isto é, quem consulta a informação tem a oportunidade de enveredar pelo ângulo que mais lhe interessa, podendo, por exemplo, inteirar-se sobre detalhes arquitectónicos ou históricos do edifício onde decorre um evento em lugar de saber coisas sobre o acontecimento em si.

A tecnologia permite assim realizar aquilo que Pavlik designa por ?situated documentaries?, documentários muito mais contextualizados, pela quantidade e diversidade de informação a que o receptor, de preferência munido de um computador que cabe na palma da mão, pode ter acesso.

Mas independentemente da maquinaria utilizada, a ideia de um jornalista ?faz-tudo?, que concentra nas suas mãos diversas fases do processo de produção de notícias, já se instalou em muitas redacções.

Em Itália, por exemplo, a Mediaset de Berlusconi está já a criar jornalistas ?ultra-versáteis?, a que falta apenas a recolha de imagens. Os repórteres disporão das imagens de que necessitam para ilustrar ou elaborar as peças directamente nos seus computadores. Sentados no seu ?estúdio virtual?, montarão a reportagem em completa solidão. Aos técnicos, em contrapartida, recorrer-se-á apenas para potenciar o serviço.

A redacção da Seimilano, canal de TV milanês da Benetton, composta por 20 repórteres, já funciona também neste modelo, sem apoios técnicos, já que os ?videojornalistas? dão conta de todas as fases de produção das notícias. É a revolução permitida pelas máquinas de filmar digitais, que aliam um mínimo de qualidade à facilidade de manipulação e uso.

Mas Giovani Toti, redactor do telejornal Studio Aperto (de um dos canais da Mediaset) e membro do conselho de redacção da estação, deixa um alerta: ?O jornalista será encarregado de novas funções e isso pode ser uma vantagem profissional. Todavia não gostaria que, transformado num ?mero? técnico, o jornalista deixasse o seu mester?.

O jornalista enquanto historiador

Danilo Moi, do ?Giornale della Trexenta?, lembra outras tarefas que poderão caber ao jornalista na era da Internet. É que a imensa informação que existe na Web necessita de alguém que, no meio do caos, crie alguma ordem. ?A principal tarefa do ?jornalista on-line? será essa. A necessidade de encontrar uma hierarquia na excessiva quantidade de notícias, de acontecimentos, de ideias, levará a que as publicações electrónicas se tornem cada vez mais filtros e não fontes de informação?.

As publicações ?on-line? não se limitam a dar a notícia, mas acumulam também o histórico dos acontecimentos – pelo que ?o jornalista do futuro será um historiador do presente?. O aumento da quantidade de informação determina também um aumento da ?distância temporal subjectiva? em relação aos acontecimentos.

O jornalista ?on-line? deverá, portanto, ser capaz de interpretar os acontecimentos de forma cada vez mais rápida e eficaz – deverá raciocinar mais depressa do que os outros.

Neste cenário, Moi acredita que surgirá uma nova figura profissional, ?subordinada?, nas redacções. Trata-se do equivalente moderno da dactilógrafa, entende o cronista, um pequeno servo que tem a ingrata tarefa de fazer a investigação metódica que permite ao ?verdadeiro jornalista? ser veloz.

Resulta assim claro que a informação ?on-line? de alto nível ?irá precisar de investimentos, apesar do aparente e badalado ?baixo custo? de um jornal electrónico?. Mas esse esquema irá alimentar sobretudo o aparecimento de jornalistas super-especializados em determinadas matérias. Moi prevê que a figura do jornalista ?generalista e genérico? venha a desaparecer a médio prazo. Sobrará o ?repórter temático?.

A ética e deontologia deverão, por isso, manter-se como importantes peças de base da actividade, dado que a credibilidade das fontes de informação, tendo em conta a sua gigantesca quantidade, será porventura ainda mais crucial.

Distintos poderão ser os vínculos entre profissionais e órgãos de ?media?, tendo em conta até que a tendência é para que o repórter elabore peças a difundir em diversos suportes. Carlo Massarini, apresentador do programa Media Mente, da RAI 3, pensa que o laço será mais ténue do que hoje. ?O jornalista desvincula-se do jornal porque trabalha ?em tempo real?. O jornalista do futuro será, portanto, um ?free-lancer? – no que alguns profissionais dos nossos dias estão já actualizados."

"O que esperar", copyright Público (www.publico.pt), 24/08/03

"Os jornalistas terão de dominar cada vez mais instrumentos e equipamentos técnicos, com o incremento das tecnologias aplicadas à informação. Isso permitirá a elaboração de trabalhos mais completos e contextualizados, dando aos repórteres mais autonomia e menos dependência das redacções, o que poderá contribuir para a desvinculação do profissional em relação ao ?media? em que publica. Há jornalistas que temem ver a profissão transformada em mero trabalho técnico, anónimo e insípido.- Se o cenário tecnológico e de modelo industrial se mantiver, tudo aponta para a distribuição do mesmo trabalho informativo em diferentes plataformas, o que hoje já sucede em muitos grupos económicos. O jornalista que as empresas do futuro mais irão procurar será aquele que se sente confortável com todas as linguagens mediáticas; que consegue elaborar uma história passível de reprodução em vários formatos, da TV à imprensa, passando pela rádio, a Internet, telemóveis ou agências de notícias.

No jornal norte-americano ?Orlando Sentinel?, do grupo Chicago Tribune, o modelo já está em vigor. Keith Wheeler, editor do título, contou no Congresso Mundial de Jornais de 2000, realizado no Brasil, como as coisas acontecem naquela redacção. Imagine-se que chega ao jornal a notícia de um crime (como, onde, emitida por quem? Não ficou claro, porém a notícia chegou). O redactor lança rapidamente a notícia na Internet. Armado com um computador portátil, um telefone móvel, uma mini-câmara de vídeo e um caderno, lança-se às ruas. Vai até à cena do crime, de onde amplia a notícia para todos os que estão ligados à Net e envia uma primeira crónica para a rádio e as primeiras imagens para televisão.

Regressado à redacção, consulta notícias de outros meios e mistura-as com ingredientes próprios para escrever a reportagem que aparecerá no dia seguinte na edição em papel. Enquanto isto, vai actualizando a notícia ao longo do dia para a rádio, TV e Internet. Segundo Wheeler, graças a esta forma de trabalho o número de leitores do jornal aumentou em 15 por cento. Porém, não esclareceu se o sucesso se prende com a qualidade dos conteúdos ou com a compaixão do público diante dos esforçados jornalistas que, de repente, se viram convertidos em correspondentes de guerra urbanos. E pelo mesmo salário."

"Revistas de culinária tiram a barriga de misérias à imprensa portuguesa", copyright Público (www.publico.pt), 25/08/03

"O grupo Edimpresa, de Francisco Pinto Balsemão, vai lançar, no final de Setembro, uma nova revista mensal de culinária intitulada ?Boa Mesa?, entrando assim num mercado disputado palmo a palmo pela Meribérica, Impala, PressPeople, Instituto Vaqueiro e Hachette Filipacchi. Apesar da crise na imprensa, as revistas de culinária constituem em Portugal um dos mais pujantes segmentos de mercado, a comprovar que, como garante a sabedoria popular, ?os olhos também comem?.

Semanalmente, cinco publicações lutam pela preferência do público, a que se juntam outras tantas mensais e mais três com publicação regular ao longo do ano. Nem mesmo as revistas de televisão escapam à moda da culinária – todas apresentam semanalmente um destacável com receitas ilustradas, o que prova o interesse que o assunto desperta no público.

Um dos pioneiros nesta arte é o chefe António Silva, o fundador e actual director culinário da ?Teleculinária?, a mais antiga revista da especialidade que continua no mercado. ?Começámos em 1976 e chegámos a fazer 260 mil revistas por semana. Havia senhoras que a compravam para oferecer às filhas e às mães. Ainda hoje há gente que me diz que aprendeu a cozinhar comigo, o que muito me honra. Não fico envaidecido mas fico comovido?, conta o chefe Silva, que também chegou a cozinhar nos ecrãs da RTP.

Lembrando a primeira revista de culinária portuguesa, ?O Banquete?, de Maria Emília Cancella de Abreu, o cozinheiro vê com bons olhos a evolução do mercado e o destaque que é dado em Portugal à culinária. ?É bom que assim seja, porque o público tem muito por onde escolher?, diz, acrescentando, contudo, não ter o hábito de folhear a ?concorrência?, para não se influenciar. ?Eu gosto de fazer por mim, embora esteja sempre a aprender com o povo, com as donas de casa?, revela.

Leitores do sexo masculino são cada vez mais

Donas e donos, porque há muito que cozinhar deixou de ser património exclusivo das mulheres. ?A maioria do nosso público ainda é feminino, mas temos cada vez mais homens a escreverem-nos, a pedirem-nos receitas e conselhos?, afirma Graça Morais, directora da ?Mulher Moderna na Cozinha? e de ?Segredos de Cozinha?, dois títulos da Impala, editora de revistas como a ?Maria? e a ?Nova Gente?. A responsável garante que ?os tempos mudaram? e que ?há agora muitos mais homens que vivem sozinhos, que gostam de cozinhar, de reunir amigos em casa e de fazer os seus petiscos?.

Directora da ?Segredos de Cozinha? há oito anos, Graça Morais assistiu à multiplicação de títulos neste segmento de mercado e encara o negócio com sentido prático: ?Os bons produtos são sempre vendáveis, desde que vão ao encontro das necessidades dos leitores.? Ingrediente imprescindível para o sucesso das receitas é o marketing e, por isso mesmo, o título conta há meses com a colaboração do barranquenho Zé Maria, vencedor da primeira edição do Big Brother. ?Temo-lo a ele, como poderíamos ter qualquer outro chefe, porque ele cozinha muito bem?, assegura Graça Morais.

Em concorrência directa está agora a PressPeople, uma editora de Cascais que lançou, só de há um ano para cá, duas revistas semanais (?Receitas de Sucesso? e ?Cozinha Semanal?) e mais duas mensais (?Cozinha de Sucesso? e ?Cozinha Tradicional de Sucesso?). Pelo meio, há ainda edições especiais da ?Receitas de Sucesso?, dedicadas ao chocolate, ao bacalhau, ou ao leite condensado, só para citar algumas. A directora editorial, Manuela Bica, não tem dúvidas: ?Há mercado para todas, enquanto tiverem este tipo de receitas, simples de confeccionar e com alimentos que agradam aos portugueses. Um bacalhau vende sempre bem, uma peça de carne no forno também é um sucesso. Ou então, os morangos, na época deles?, exemplifica.

Também Carlos Capote, autor de programas televisivos e que desde o início do mês dá a cara a um destacável de culinária na ?TV Guia?, acredita no potencial do negócio. ?Temos um receituário tão rico, que tem pano para mangas. Mas isto é tudo uma questão de marketing e há que manter o pessoal entretido a cozinhar, porque este país está num estado lastimável?, comenta.

O cozinheiro acredita que ?há mercado para todos? e que o seu objectivo é ?dar a conhecer algumas receitas caídas em desuso, mas sempre com ingredientes fáceis de arranjar e a baixo custo?. Confrontado com a possível saturação do mercado editorial, Capote diz esperar que isso não aconteça. ?Deus queira que não. É que isto já dá trabalho a muita gente?, desabafa."

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