Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES >

Elvira Lobato e Chico Santos

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

"Globo fatura R$ 4,5 bi e emprega 20 mil", copyright Folha de S. Paulo, 8/08/03

"Um documento das Organizações Globo apresentado ao mercado financeiro internacional em 2002 dá a dimensão do império de comunicação construído por Roberto Marinho. O grupo absorveu 52% de toda a receita publicitária do mercado brasileiro em 2001 (US$ 4,2 bilhões), o que representou cerca de US$ 2,18 bilhões.

A presença manteve-se nos mesmos patamares deste então. De acordo com levantamento do projeto Inter-Meios, da publicação ?Meio e Mensagem?, o mercado publicitário brasileiro somou cerca de R$ 9,5 bilhões em 2002, dos quais 60% foram para as emissoras de televisão e TVs pagas. Calcula-se que a Globo e suas afiliadas ficaram com entre 60% e 65% da verba total direcionada para as TVs.

O conglomerado de mídia emprega hoje 20 mil profissionais e fatura R$ 4,5 bilhões por ano. É um dos maiores grupos de comunicação do mundo.

O pilar principal do grupo é a TV Globo, surgida em 1965 com o canal 4 no Rio de Janeiro. A concessão do canal foi outorgado à família pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 1957, e levou oito anos para ir ao ar.

Hoje, a Globo cobre praticamente todo o território nacional. Com uma rede formada por 115 emissoras geradoras e afiliadas, é vista em 99,84% dos 5.043 municípios. A empresa calcula que concentra, no momento, 69% da audiência no horário nobre e 75% do total das verbas publicitária no mercado de TV aberta, com transmissão gratuita.

Até o ano passado, o peso da Rede Globo podia ser medido também pelo número de concessões de emissoras de televisão que ela detinha. A família Marinho chegou a acumular participações acionárias em 32 emissoras de TV, mas a crise financeira obrigou-a a rever esta política.

No ano passado, o grupo colocou 27 emissoras à venda. Segundo as Organizações Globo, 21 emissoras já foram transferidas para terceiros e as outras seis estão em fase final de negociação de venda. As cinco emissoras mantidas são consideradas a espinha dorsal da rede (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Brasília).

Mídia impressa

Nos últimos cinco anos, as Organizações Globo avançaram também sobre o mercado de mídia impressa. Em 1998, a família Marinho surpreendeu com o lançamento quase simultâneo do jornal ?Extra?, no Rio de Janeiro, e da revista ?Época?, em São Paulo. Os dois lançamentos consumiram investimentos estimados na ocasião em R$ 100 milhões.

Em 2000, o grupo lançou, em sociedade com a Empresa Folha da Manhã S.A (que edita a Folha), o jornal ?Valor Econômico?, com investimento conjunto de US$ 50 milhões.

Em 2001, comprou o ?Diário Popular?, que pertencia ao ex-governador de São Paulo Orestes Quércia. Mudou o título para ?Diário de S. Paulo?.

O pilar do grupo no segmento de mídia impressa continua sendo ?O Globo?, lançado em 29 de julho de 1925 por Irineu Marinho. Segundo o IVC, é o segundo maior jornal do país (a liderança pertence à Folha) e teve uma circulação média diária de 254.386 exemplares em junho.

Sucessão

As Organizações Globo estão preparadas há cinco anos para a falta de Roberto Marinho. Segundo analistas, a morte do empresário não deverá provocar alterações na rotina da conglomerado, porque a divisão de poder entre os herdeiros foi estabelecida em uma reestruturação feita em 1998.

Na época, os herdeiros Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho deixaram as funções executivas e passaram a se dedicar às ações estratégicas. Roberto Marinho ficou como presidente do grupo e os filhos assumiram as três vice-presidências criadas.

A mudança, segundo explicações da época, buscou diferenciar a empresa da estrutura tradicional familiar, deixando a gestão executiva para profissionais.

A estrutura montada em 98 mantém-se até hoje. No ano passado, o grupo esboçou uma reestruturação mais ampla, criando a Globo S.A. A nova holding passaria a controlar as emissoras de rádio, televisão e jornais que, por força da lei, eram mantidas como empresas isoladas.

A crise financeira na qual o grupo já estava mergulhado abortou o projeto. Quatro meses depois de os herdeiros de Roberto Marinho anunciarem a criação da Globo S.A., a holding Globopar -que detém a participação acionária na Net Serviços, ex-Globo Cabo – comunicou a suspensão do pagamento de sua dívida (de US$ 1,365 bilhão), dando início a uma longa, e ainda inconclusa, renegociação com credores.

Na sequência, a Net Serviços se viu obrigada também a suspender o pagamento de suas dívidas, por incapacidade financeira de honrar os compromisso.

A crise do império

Na estratégia de diversificação das atividades do grupo, iniciada nos anos 90, está a origem da crise financeira. A diversificação começou com a entrada no mercado de TV a cabo, inicialmente com participações minoritárias e, depois, assumindo o controle acionário das operações.

Na época, a avaliação dos especialistas era que o mercado brasileiro atingiria 6 milhões de assinantes de TV paga no ano 2000. A Globo Cabo (hoje Net), esperava chegar a 2001 com 3,5 milhões de assinantes. Hoje ela tem 1,3 milhão.

A expansão da rede da Net foi financiada com recursos captados no exterior. As sucessivas crises cambiais brasileiras e a queda de poder aquisitivo da população atingiram em cheio o projeto. De 1996 a 2002, a Net Serviços acumulou R$ 3 bilhões de prejuízos.

A situação da empresa só não é pior graças a um esforço de capitalização feito em 2002 que contou com a ajuda estatal do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A participação do banco no capital da empresa saltou de aproximadamente 4% para 22,1%.

No primeiro trimestre deste ano a empresa conseguiu obter lucro (R$ 42,8 milhões), atribuído basicamente ao efeito do movimento de valorização do real em relação ao dólar registrado este ano.

A Globopar, principal holding do grupo, apresentou no ano passado prejuízo de R$ 5 bilhões. A cifra é maior que os lucros somados do Bradesco e do Itaú, os dois maiores bancos privados do país no mesmo período (R$ 4,2 bilhões)."

 

***

"Empresário influiu durante 7 décadas", copyright Folha de S. Paulo, 8/08/03

"Nenhum brasileiro acumulou tanto poder ao longo do século 20 como o jornalista e empresário Roberto Marinho, criador do maior conglomerado de mídia e entretenimento do Brasil.

Seu império começou a ser erguido a partir do jornal ?O Globo?, herdado do pai, Irineu Marinho, e cresceu sem interrupção ao longo de sete décadas.

Com uma fortuna familiar de US$ 1 bilhão, ele consta da lista dos homens mais ricos do mundo elaborada pela revista ?Forbes? no ano passado.

A história das Organizações Globo pode ser dividida em três grandes fases. A primeira delas começa em 1925, com o lançamento do ?Globo?, percorre os anos 30 e 40, com o sucesso das revistas de quadrinhos norte-americanas, e passa pela aquisição da rádio Globo (44).

A segunda começa em 1965, quando entra no ar a primeira emissora de TV, que se tornaria porta-voz do regime militar.

A terceira começa em meados dos anos 90, quando o grupo abre o capital, investe em novas mídias e dá início ao processo de sucessão de Marinho.

Roberto Pisani Marinho nasceu no Rio de Janeiro no dia 3 de dezembro de 1904. Seus pais -Irineu Marinho Coelho de Barros e Francisca Pisani Barros- tiveram cinco filhos (três homens e duas mulheres).

Irineu Marinho foi um jornalista importante do início do século 20. Fundou, em 1911, ?A Noite?, um jornal de oposição que logo conquistaria a liderança no mercado de vespertinos.

Em 29 de julho de 1925, lançou ?O Globo?, com duas edições diárias e uma tiragem inicial de 33.435 exemplares. Roberto Marinho tinha 20 anos e foi trabalhar com o pai, como repórter e secretário particular.

Vinte e um dias depois, Irineu Marinho morreu de infarto, enquanto tomava banho. Instado por sua mãe a assumir a direção do jornal, Roberto Marinho preferiu confiá-la a um colaborador do pai, Euricles de Matos, enquanto continuava seu aprendizado dentro do jornal.

Apenas em maio de 1931, quando Euricles de Matos morreu, Roberto Marinho assumiu definitivamente a direção do jornal.

Tinha então 26 anos. Fizera os estudos primários em escolas públicas, depois cursara uma escola profissionalizante e interrompera o curso de humanidades para trabalhar com o pai no ?Globo?. Não chegou, portanto, a concluir curso superior.

?O Globo? surgiu como um jornal noticioso, em oposição ao jornalismo partidário que ainda se praticava na época, e defensor, simultaneamente, de causas populares e da entrada no país de capital estrangeiro.

?O Globo? apoiou o governo provisório instituído pela Revolução de 30 e, em 1932, a Revolução Constitucionalista.

Com posição editorial sempre cautelosa, fez do combate ao comunismo uma de suas marcas.

O jornal fez restrições ao golpe que gerou o Estado Novo (1937), mas Marinho participou do Conselho do Departamento de Imprensa e Propaganda, responsável pela censura a jornais.

Na Segunda Guerra Mundial, ?O Globo? foi a favor do rompimento com a aliança da Alemanha, Itália e Japão e tomou posição a favor do fim da ditadura de Getúlio Vargas.

Embora o jornal fosse o cartão de visita de Marinho, o crescimento financeiro do grupo se deu por causa da edição de gibis, histórias em quadrinhos norte-americanas e de empreendimentos imobiliários.

Em dezembro de 1944, Roberto Marinho comprou a rádio Transmissora, da RCA Victor, e inaugurou sua primeira emissora, a rádio Globo.

Com a eleição de Vargas, passou a lhe fazer forte oposição. Em 53, o jornal fez campanha contra a criação da Petrobras.

Naquele mesmo ano, a rádio Globo foi franqueada ao jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), que a usou para atacar Vargas e os empréstimos do governo a Samuel Wainer (1912-1980) para o lançamento do jornal ?Última Hora?. Embora o próprio ?Globo? tenha se beneficiado de empréstimos oficiais.

O suicídio do presidente, em agosto de 54, provocou grande comoção popular, durante a qual duas caminhonetes da rádio Globo e dois caminhões do jornal foram incendiados.

Em 1955, elegeu-se Juscelino Kubitschek (1956-61), a quem Marinho fez oposição moderada e de quem ganhou a primeira estação de TV, a Globo do Rio.

Na eleição seguinte, apoiou Jânio Quadros, mas em seguida discordou de sua política externa e se decepcionou com a renúncia, em 1961.

Ele inicialmente foi tolerante com o sucessor de Jânio, João Goulart (PTB), mas logo passou a conspirar para derrubá-lo. Colocou seus veículos à disposição da oposição e apoiou o golpe militar de 1964.

No entanto, foi durante o governo de João Goulart que Roberto Marinho ganhou sua segunda concessão de TV, a Globo de São Paulo.

As Organizações Globo, ?integradas no processo revolucionário?, deram seu total apoio aos governos que se estabeleceram a partir de 64.

Sob o regime militar, Marinho deu um salto decisivo na expansão de seus negócios ao inaugurar, em abril de 65, a TV Globo do Rio. Seu jornal estava entre os mais vendidos na cidade e a rádio era líder de audiência.

A TV Globo se firmou rapidamente por três razões: um acordo financeiro e operacional com o grupo norte-americano Time-Life, a colaboração com o regime militar e o declínio das TVs Tupi e Excelsior.

O acordo com o grupo Time-Life (injeção do equivalente hoje a US$ 25 milhões, mais assessoria técnica e comercial) recebeu inúmeras críticas, porque Marinho ignorou o artigo 160 da Constituição de 1946, que vetava a participação acionária de estrangeiros em empresas de comunicação.

O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar o acordo concluiu que a Constituição fora de fato desrespeitada, mas o procurador-geral da República, em 67, e o presidente Artur da Costa e Silva, em 68, decidiram que a operação havia sido legal.

A TV Globo conquistou os cariocas no verão de 1966, quando fez com exclusividade a cobertura ao vivo das enchentes que deixaram dezenas de mortos e feridos no Rio.

A idéia da cobertura ao vivo foi do executivo Walter Clark (1936-1997), que viria a implantar, nos anos 70, o famoso ?padrão Globo de qualidade?.

A ?lua-de-mel? da emissora com o público duraria até 82, quando a Globo foi identificada com a tentativa de impedir a vitória de Leonel Brizola para o governo do Rio, no episódio conhecido como Caso Proconsult.

Roberto Marinho teve grandes adversários, como Assis Chateaubriand (1892-68), Carlos Lacerda, Samuel Wainer. Brizola foi outro desafeto de décadas. Em 15 de março de 94, o locutor Cid Moreira leu, no Jornal Nacional, texto de Brizola, que ganhou na Justiça um direito de resposta. ?Tudo na Globo é tendencioso e manipulado?, teve de afirmar o locutor.

A TV Globo ficou associada ao regime autoritário por ter sido porta-voz dos militares e por ter crescido naquele período. As empresas jornalísticas do grupo se adaptaram às regras impostas pelos governantes: o noticiário político desapareceu e o econômico fazia eco aos ?milagres? de Delfim Netto e sucessores. Caso célebre de colaboração foi ?Amaral Neto, o Repórter?, programa em que supostos documentários ajudavam a construir a imagem positiva do regime.

Em 1972, o então presidente Emílio Médici chegou a afirmar: ?Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz?.

Esse tipo de procedimento tendencioso acabou permeando o conteúdo editorial dos veículos de Marinho até a década de 80, já no correr do processo de transição democrática.

Em 1983, Roberto Marinho começou a mudar os rumos de seus compromissos políticos. Naquele ano, ele informou ao presidente João Baptista Figueiredo (1979/ 85) que daria apoio a um projeto que previsse a alternância de poder no governo federal.

Mas, no primeiro semestre de 1984, a Rede Globo ignorou completamente as manifestações populares em favor de eleições diretas para presidente da República. Somente a partir do comício da Candelária, no Rio, quando a campanha já tinha se consolidado e eram grandes as pressões e as hostilidades contra a emissora, a TV transmitiu reportagem completa, ao vivo.

Com a derrota das Diretas-Já, a disputa pela sucessão de Figueiredo foi para o Colégio Eleitoral. Marinho passou, então, a apoiar a candidatura moderada de Tancredo Neves (PMDB) contra Paulo Maluf (PDS). Tancredo foi eleito pelo voto indireto, mas morreu antes de tomar posse.

Roberto Marinho manteve sua influência no governo herdado por José Sarney (1985/90): nomeou os ministros Leônidas Pires Gonçalves (Exército) e Antonio Carlos Magalhães (Comunicações) e influiu na escolha de titulares da área econômica, como Maílson da Nóbrega.

Com Sarney, a família Marinho conseguiu mais quatro concessões de TV.

A imagem politicamente antipática do grupo nasceu durante o governo militar e se cristalizou no início da década de 80, quando se acelerou o processo de redemocratização.

Casos como as coberturas parciais e enviesadas das greves dos metalúrgicos do ABC (79), da eleição para o governo do Rio de Janeiro (82), a relutância na cobertura da campanha das Diretas-Já (83/84), a polêmica edição do debate entre os candidatos a presidente Fernando Collor e Lula (89) marcaram não só a imagem da emissora como de todo o grupo de Marinho.

O slogan ?O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo? vem, desde então, sendo repetido em diversos episódios históricos.

Na eleição presidencial de 89, Marinho apoiou Fernando Collor de Mello. O segundo turno foi disputado por Collor e Lula. O último debate foi transmitido ao vivo pela Globo. Mas, no ?Jornal Nacional?, a emissora apresentou uma edição do debate francamente favorável a Collor, que teve um minuto e 12 segundos a mais de tempo de exposição. Era uma evidência da parcialidade da emissora.

Collor e Marinho se entenderam até agosto de 92, quando a campanha pela destituição do presidente já tinha sido encampada por toda a sociedade.

Em 1994 e 1998, Roberto Marinho apoiou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.

A partir de 1995 as Organizações Globo iniciaram um processo de reconstrução de sua própria imagem. A TV Globo, que então completava 30 anos, mudou a orientação jornalística, em busca de um noticiário mais isento e despolitizado, e inaugurou o Projac (Projeto Jacarepaguá), maior complexo de estúdios, auditórios e produção televisiva da América Latina.

A construção do Projac, aliás, foi cercada de polêmica porque o empreendimento recebeu empréstimo de US$ 38 milhões da Caixa Econômica Federal, operação que contrariou parecer técnico da CEF e que foi questionado na Justiça.

A partir de 1995, passou a ficar mais nítida a dificuldade enfrentada pela emissora para manter os mesmos índices de audiência e sua liderança em horários estratégicos.

Vencido pela idade, Roberto Marinho foi participando cada vez menos das atividades de suas empresas. Em depoimento gravado no final de 2000, a memória já estava fraca e seletiva, fixada apenas em ?O Globo?, o vespertino de Irineu Marinho que deu origem ao império."

 

"Roberto Marinho, chefe e irmão maior", copyright Jornal do Brasil, 8/08/03

"É sempre oportuno lembrar que Roberto Marinho recebeu o jornal fundado por seu pai, Irineu Marinho, 25 dias após seu lançamento. Tinha 21 anos e já secretariava o pai, que apenas lhe deixou o título, vencedor em concurso popular, uma impressora antiga e dívidas.

Muito moço, todavia já se guiava pelo bom senso, virtude que o acompanhará pelo resto da vida. Julgou necessário familiarizar-se com as operações de um diário e, para isso, deixou a direção com o editor Euricles de Matos.

Aos 26 anos assumiu o comando. Como chefe da família, cuidou dos estudos de seus dois irmãos, Ricardo e Rogério, formados em Direito. E começou a crescer.

Um pormenor que muito pouca gente conhece. Nos primórdios de suas atividades, Roberto Marinho ganhou dinheiro com negócios imobiliários, aos quais se dedicou por muitos anos, orientando-se por sua incomum visão empresarial.

Eu entrei na vida de Roberto Marinho, quando ainda o jornal ocupava um velho prédio no Centro da cidade. Foi no início de 1952. Eu voltava de viagem de trabalho aos Estados Unidos entusiasmado com uma idéia nova, adotada, se não me engano, pelo Los Angeles Times: as promotions do cruzader paper. Vale recordar que, nessa época, a palavra promoção era usada na acepção de elevação funcional. Tive de demonstrar na redação que o emprego de promoção, como movimento a favor de, se coadunava perfeitamente com a base latina promovere.

Roberto Marinho topou, prevenindo que enfrentaríamos oposição. E me avisou: você só terá um chefe, eu.

O Globo, então, era um vespertino que lutava contra quatro poderosos matutinos : Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Jornal e Diário de Notícias. Nem classificados tinha.

E com o apoio contínuo de Roberto Marinho, que discutia comigo as campanhas, partimos para a escalada. Não repetirei aqui a lista dessas promoções. Prefiro acentuar o resultado.

Encontrei em Roberto Marinho o chefe corajoso e prudente, firme até para encarar os censores da ditadura. Admirei-o cada vez mais e vejo que sua morte celebra seu êxito profissional e social, para não falar do esporte em que foi campeão nacional, o hipismo, durante cinco anos.

Muito particularmente, porém, para mim ele foi o irmão maior, já que apenas 12 anos nos separavam em idades. (Walter Poyares é professor da PUC-Rio e conselheiro da UniverCidade)"

 


"Vai tranqüilo, Roberto Marinho", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 78/08/03

"Redação de O GLOBO, 7 e meia da noite, 2 de maio de 1981. O jovem repórter Marcelo Beraba entra e vem direto à minha mesa de editor-chefe.

– Tenho uma bomba. Estou com o filme da cirurgia do major Wilson lá no Hospital Miguel Couto. Um médico fez as fotos dentro da sala e me entregou.

Para os mais novos e desmemoriados: o major Wilson foi o fracassado executor da ação terrorista do serviço secreto do Exército, de jogar uma bomba no Riocentro, durante festa comemorativa do Primeiro de Maio. O objetivo dessa idéia de jerico – soube-se depois – era deter o processo de abertura democrática, responsabilizando os comunistas pelo atentado. Wilson foi para o Riocentro em um carro Puma, levando como cúmplice um sargento. Mas algum santo de esquerda estava de plantão naquela noite e, antes que fosse atirada contra a juventude que se divertia, uma das duas bombas que a dupla levava explodiu dentro do carro, matando o sargento e deixando o major com sérios ferimentos no baixo ventre.

Fazia parte de meu dever consultar Roberto Marinho ou o diretor de redação, Evandro Carlos de Andrade, sobre o jeito de publicar matérias políticas importantes. E Evandro viajara ao exterior. Decidi preparar tudo para lançar as fotos no alto da primeira, enquanto ia pensando em como conversar com o patrão.

A situação se complicou quando o coronel Job Lorena, responsável pela comunicação do I Exército e pelo inquérito militar instaurado sobre a explosão, foi conduzido por um contínuo até o Eli Moreira, chefe da reportagem. Imaginei logo que boa coisa não era e, pelo telefone, pedi ao Eli que fosse engabelando o coronel ao máximo. Mas, pouco depois das 9, o coronel veio, sorridente, até mim, apresentou-se e disse: ?Eu estava conversando com o Eli, porque pensava que ele era o comandante, mas agora descobri que é você.? E rapidamente me disse que sabia da existência das fotos e exigia que nós não as publicássemos sob pena de graves conseqüências para o jornal e a equipe do Miguel Couto.

Com a recomendável suavidade e o melhor dos sorrisos, expliquei que infelizmente eu não era comandante, era apenas também um coronel, que obedecia ordens de dois generais: Roberto Marinho e Evandro, diretor. Infelizmente, Evandro estava viajando e dr. Roberto também já tinha ido embora. Ele me pediu o telefone do dr. Roberto e eu saí do aquário para ir buscá-lo.

Liguei para Roberto Marinho e falei rapidamente sobre o material que tínhamos e a edição planejada, supersensacional, com fotos exclusivas etc. e tal. Expliquei que o coronel estava na redação e sugeri um planinho para mostrar a máxima boa vontade do jornal. Eu daria aquele número de telefone ao coronel mas, a partir daquele instante, o dr. Roberto não mais atenderia. A sugestão foi aceita sem vacilação e Job Lorena ainda ficou um bom tempo grudado a um telefone até desistir.

Pouco depois das 7 da manhã do dia seguinte, uma viatura militar foi buscar Roberto Marinho em sua casa no Cosme Velho para um encontro nada amistoso com o general Gentil, comandante do I Exército, que durou até meio dia. À tarde, fui chamado à sala do dr. Roberto, assim que ele chegou ao jornal e ele estava claramente de mau humor. Não disse uma palavra sobre as fotos. Só perguntou por que eu não tinha também revelado a manchete em que o jornal fazia a revelação, enviada por Merval Pereira, da sucursal de Brasília, de que havia sido encontrada outra bomba no carro. Esse é que tinha sido o tema dominante da ?conversinha? no Palácio do Exército, porque desmontava completamente a farsa que Job Lorena e o serviço secreto do Exército queriam montar no inquérito sobre o atentado.

Expliquei, com a melhor cara-de-pau possível, que nem havia julgado importante consultá-lo, porque a informação tinha sido dada ao Merval por duas pessoas da confiança dele, dr. Roberto: o diretor da Polícia Federal e Tancredo Neves. Imediatamente, ele encerrou a conversa em tom de ironia e matreirice: ?Então valeu a pena o que passei hoje de manhã??

Valeu, Roberto Marinho, para o país e, especialmente, para todos que produziram ou leram aquela edição de 3 de maio de 1981, em que O GLOBO, sob o seu comando, ajudou a restaurar a democracia.

Dizem que, lá em cima, as boas ações valem muito mais do que os pecados."

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