Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Em busca do público culto

Por lgarcia em 20/08/2000 na edição 96

Fabio Prikladnicki (*)

A atual novela das oito, Laços de família, é, em certo aspecto, diferente das outras. A música de abertura é Corcovado, a trilha sonora contém bossa nova, e, toda vez em que entra em cena o personagem de Flávio Silvino ouve-se Bach (!) ao fundo. Além disso, as cenas que se desenrolam na livraria de Miguel (Tony Ramos) são permeadas por citações e dicas de livros. "Que estranho fenômeno é esse?" parece uma pergunta pertinente. Encontramos uma pista em recente reportagem da revista Veja (9/8/2000), que cita Manoel Carlos, autor da novela: "Coloco no texto livros dos quais gostei, pois acho que a novela presta um serviço dando dicas de leitura". Segundo a reportagem, o autor garante que não ganha nada para fazer isso.

Para os mais céticos, é difícil de acreditar. Há alguns dias foi ao ar um episódio no qual Tony Ramos recomendava livros da coleção "Literatura ou Morte", explicando sua proposta (autores brasileiros criando histórias de suspense em que escritores famosos são protagonistas) e a editora que os publica – Companhia das Letras. Marcelo Marthe, autor da reportagem de Veja, diz: "Ele [o personagem de Tony Ramos] já mencionou mais de 10 obras, dando título, editora e preço (…)".

Para recomendar livros, convenhamos, não é necessário referir-se à editora, pois muitos deles – principalmente os clássicos – são publicados por mais de uma; o que falar então do preço? Contudo, não devemos nos deter na questão do merchandising. Junto a esta quase inimaginável combinação de cultura e novela, perguntamo-nos: será que o público responde bem às tentativas de educação de Manoel Carlos?

Quem é Astrud?

Aparentemente – e eu disse "aparentemente" – a resposta é sim, se tomarmos como base uma outra edição de Veja, desta vez a de 2 de agosto. Em uma caixa intitulada Pára de reclamar, João!", a revista relata que João Gilberto havia ameaçado processar a Rede Globo por ter usado uma gravação sua (o Corcovado da abertura) sem autorização prévia. Veja, então, arrola três exemplos de artistas que tiveram músicas usadas em novelas e viram as vendagens de seus discos irem às alturas, como se João devesse agradecer aos céus pelo fato de a Globo tê-lo escolhido entre tantos.

O primeiro erro de Veja foi partir do princípio de que a única coisa que interessa ao artista é vendagem. O segundo – que vem acoplado – foi argumentar que isso justificaria a desconsideração pelos direitos autorais. Estes são mais que simples taxas burocráticas: seu cumprimento é símbolo de respeito e reconhecimento do artista. O terceiro erro foi ter usado uma falácia. Vamos fazer uma concessão à revista e supor que interessaria a João Gilberto ter uma música sua usada na novela, mesmo sem ter sido consultado, por causa do vil metal. A revista provê dados sobre outros artistas que tiveram suas vendagens alavancadas nessas situações.

Vamos analisá-los: Ivete Sangalo, Maurício Manieri e Caetano Veloso. Mais do que artistas extremamente populares, os três estavam lançando discos novos quando da inclusão de suas faixas. O caso de João Gilberto, à revelia de Veja, é diverso. Para início de conversa, ele não é um artista popular. O público médio da novela também não faz a mínima idéia de que a gravação é sua, ou, pior, nem sabe quem é. Uma conhecida veio me perguntar "quem cantava" aquela música. Respondi-lhe que João Gilberto tocava violão e Astrud Gilberto cantava (pois o trecho que geralmente aparece na TV é o cantado em inglês por Astrud, embora o mais lógico fosse usar a parte cantada em português por João). Minha conhecida calou-se, nem sequer se atreveu a perguntar de quem se tratava.

A melhor lição

Para piorar as coisas, o disco de João não é nenhum lançamento. Trata-se de uma gravação (antológica, diga-se de passagem) de 1963: o famoso álbum Getz/Gilberto, dueto com o saxofonista americano Stan Getz. O disco é facilmente encontrado no Brasil (ao contrário de seus outros álbuns), mas algo me diz que os telespectadores de Laços de família desta vez se contentarão com a gravação presente no CD da trilha sonora da novela. A não ser, é claro, que João regrave alguma canção de Peninha, assim como Caetano fez com Sozinho (motivo do incremento nas vendagens de seu CD Prenda Minha), o que nós, de bom senso, sabemos que, felizmente, não acontecerá.

Não é uma subestimação do público de novela, mas uma baixíssima parcela dele saberia identificar a Suíte para Orquestra nº 3 em Ré Maior, de Bach, no meio da trama. Portanto, é iludir-se demais pensar que sairiam por aí devorando as dicas literárias do livreiro Miguel. Em um dos episódios, foram mencionados Kafka, Mann e Joyce. Ora, apenas para quem esses nomes são velhos conhecidos a citação faz sentido. Seria muita ingenuidade acreditar que o autor estaria "educando" o público quando faz esse tipo de coisa: ninguém vai a uma livraria à procura de Joyce porque ouviu falar na novela (e muitos, decerto, nem conseguiram distinguir seu nome em meio aos diálogos). Se, em uma situação absurda, viesse a comprar algum dos autores acima, provavelmente o deixaria de lado já nas primeiras páginas, porque, convenhamos mais uma vez, é muito mais divertido assistir à novela das oito.

Novela e cultura constituem uma combinação impossível, mas não por questões normativas. Não há nada que impeça a Globo de fazer menção a escritores clássicos e colocar bossa nova na trilha sonora. O problema é que o público não procura em Laços de família adquirir cultura, nem mesmo orientação literária. A novela tem a pretensão de ensinar ao público o que é boa leitura assim como tenta ensiná-lo que não se deve maltratar os recenseadores, pois eles exercem um importante papel social. Esse público vive em um mundo no qual as meretrizes têm nome de personagens de Machado de Assis, mantêm relações cordiais com seus cáftens e freqüentam livrarias, de onde saem recomendando livros às amigas – "Esse aqui é muito bom". A um público que necessita ser ensinado sobre a importância do Censo, deve-se ensinar, antes mesmo que literatura e música, a parar de ver novela.

(*) Estudante de Jornalismo da UFRGS

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