Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > UNIVERSO MARQUETEIRO

Em três anos, riqueza, poder e arte

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

UNIVERSO MARQUETEIRO

Nilson Lage (*)

A Unisinos ? Universidade do Vale dos Sinos ? publicou há algumas semanas nos jornais do Sul anúncio que reflete o neoliberalismo do Conselho Nacional de Educação (onde é previsível: trata-se de órgão que notoriamente representa os interesses dos empresários do ensino particular de massa) e do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (onde é surpreendente para as pessoas que desconhecem a cultura acadêmica nefelibata, recém-instituída ali).

O Inep, seguindo a orientação de intelectuais honestos que pairam na estratosfera, desativou, na prática, o antigo sistema de avaliação constituído pela combinação do exame nacional de cursos e da avaliação das condições de ensino, em troca de um projeto confuso de avaliação institucional que, na melhor hipótese, demorará para começar a ser implementado e que corre o risco de se tornar mais uma iniciativa estatal do tipo me-engana-que-eu-gosto.

É certo que o sistema anterior não funcionava bem, isso principalmente por culpa do Conselho Nacional de Educação, que reduziu o quando pôde as exigências de qualidade no instrumento eletrônico de avaliação e simplesmente engavetou todas as denúncias feitas pelas comissões visitadoras. Para o conhecimento público, restou o Provão, que só não foi mais revelador da catástrofe do ensino privado porque a vertente nefelibata do movimento estudantil decidiu boicotá-lo ? a princípio buscando uma bandeira política “anti-FHC”, depois porque constatou que era um bom negócio.

O anúncio da Unisinos convoca os jovens para um curso de “comunicação digital”, ministrado em três anos, “com ênfase em empreendedorismo, jornalismo e design”. A menção a jornalismo é propaganda enganosa: não se espera que os jovens candidatos façam a distinção necessária entre “ênfase” e “habilitação”, ou saibam que a regulamentação profissional é bastante explícita quando prevê o registro para bacharéis “em jornalismo ou em comunicação social, habilitação jornalismo” ? em nenhum outro caso.

A Unisinos é um dos agrupamentos de cursos (tenho pudor de usar do nome “universidade” nesse contexto, embora a Constituição o autorize) que empregou bom número de comunicólogos aposentados de universidades públicas. Talvez o ódio tradicional dessas pessoas ao jornalismo explique essa nova tentativa de derrubar a regulamentação do ofício, criando uma zona cinzenta de “formados mas não habilitados”.

Há, no entanto, outros aspectos que mostram que os comunicólogos da Unisinos são mais insipientes (com s mesmo) do que se pensava.

O absurdo começa pelo nome, “comunicação digital”. Pode-se falar em “mídia digital”, “mediação digital” (as mensagens são intermediadas por transcrições em código booleano), mas “comunicação digital” é bobagem: seria, no máximo, alguma troca feita com dedos, com algarismos ou com signos seqüenciados linearmente ? neste caso, a fala ou o texto. A comunicação humana se efetiva através de interfaces não-digitais ou em ambiência não-digital: não se pode confundir código e mensagem, menos ainda código e processo.

A segunda bobagem é a articulação, no mesmo contexto, de palavras chaves do universo marqueteiro: “jornalismo”, “design”, “empreendedorismo”. No reino da fantasia, do preconceito e da mentira em que o discurso publicitário se movimenta, quem não quer ser “jornalista” (isto é, dominar a opinião pública, aparecer na tela da Globo, dar carteiradas em restaurantes ou em guardas de trânsito etc)? Quem não quer ser “designer” (isto é, artista, criador, exótico, dono da Globeleza, chamando escritório de atelier)? Quem não ser empreendedor (isto é, morador de condomínio de luxo, comprador de uma frota que vai do Jaguar blindado ao fusca redesenhado, capaz de ter milhares de empregados e comprar milhões de votos)?

Do ponto de vista estritamente lógico, é como se a Unisinos oferecesse um curso de culinária, “com ênfase” em gastroenterologia e cultivo de hortas. Do ponto de visa da retórica, tudo se explica: sobre os discursos até ingênuos da ideologia, funda-se a esperteza até fulgurante do estelionato. Ou ainda, como se conclui dos primeiros parágrafos deste texto: no reino da bicharada, confundem-se os novos gatos, folgam os ratos de sempre.

* professor titular da UFSC

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