Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > ABSTENÇÃO & PROTESTO

Embriaguês democrática e ressaca nacional

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

ABSTENÇÃO & PROTESTO

Moacyr Francisco (*)

Não me lembro de um só veículo de comunicação que não tenha se referido ao corrente pleito como “festa democrática” ou coisa parecida. Nossa mídia ? além de outras pelo mundo todo ? vem se expressando como num acordo tácito de que ocorre no Brasil uma eleição “do mais alto nível”, “com respeito mútuo entre os candidatos”, “exemplo de democracia adulta” ou “maturidade eleitoral”, seja lá o que for isso.

Mas sinto que esse porre de civismo e tamanha embriaguês de cidadania poderá, sim, resultar numa “ressaca-monstro” de uns… deixe-me ver… quatro anos. Isso, claro, se uma “cirrose eleitoral”, seguida de um “coma pós-democrático”, não nos abater primeiro.

Ainda que as intermináveis loas à evolução do grau de “consciência política” do povo brasileiro ganhem os melhores espaços no noticiário, devido à destituição de vários “caciques” do poder pelo país afora, claro, há ressalvas. Uma delas, o Brasil e o mundo sabem: seu nome é Enéas!

O atual campeão de votos já há muito é também campeão em despertar o ressentimento e manifestações explícitos de repúdio pela imprensa como um todo, e mais ainda entre aqueles cujo discurso tem como norte os indevassáveis “valores democráticos”; aqueles mesmos do partido que mais se destacou nessas eleições. Desde sua primeira candidatura, em 1989, Enéas já “coleciona” um receituário pronto de maledicências e ofensas pessoais; especialidade dos que partem para a destruição de reputações e rebaixamento moral antes ? e em vez de ? refutar com argumentos e provas seus adversários políticos. Ora, a essa altura já posso ver dedos acusadores e difamatórios em minha direção.

Mas antes que profiram as “verdades absolutas” de praxe a meu respeito adianto que meu “voto” de protesto foi de verdade: eu sequer saí para votar. Afinal, tem de haver a possibilidade “democrática” de um cidadão exercer o direito de desobedecer a um dever. Minha “consciência de cidadania”, certamente movida pelos mais puros instintos politicamente corretos, me autorizou a tomar essa atitude, posto que não vi em nenhum candidato a nada qualidades suficientes que valessem o risco de ser assaltado (no caminho ou mesmo nas urnas).

Esse não-desejo de ver quaisquer dos postulantes disponíveis ensejando quaisquer dos cargos, a meu ver, é tão legítimo quanto o de militantes e quejandos de esquerda ou direita. Só que esse sentimento é sutilmente(?) vetado(!) pelos próprios militantes e pela nossa imprensa “democrática e isenta”. Todo esse oba-oba eleitoreiro propalado pela mídia se deve ao fato de não haver ocorrido alguma “baixaria” capaz de destruir uma candidatura (exceto o caso Roseana, que já foi e será lembrado ad nauseam contra Serra caso Lula perca pontos neste segundo turno).

Os assuntos realmente incômodos, como a ligação do PT com Fidel e Hugo Chávez ou uma aproximação com a narcoguerrilha colombiana, foram abordados en passant em apenas duas entrevistas na TV (por Willian Bonner, depois por Boris Casoy), mas jamais entre os próprios candidatos. Tanto bom-mocismo entre os quatro camaradas vem bem a calhar nesse momento de declaração dos “apoios” tão insuspeitados quanto interesseiros, nublando a indecência dos próprios “acordos”, os quais (quase toda) nossa mídia abençoa com prazer e sem o menor questionamento.

Vergonhosa parcialidade

Nossos crédulos veículos de informação, apostando na conversão-relâmpago de Lula, seguem na sua esteira de paz e amor praticando o bom e (já) velho diversionismo. E a bola da vez tem barba, grita, sonha com a bomba atômica, e diz “Anauê!”. Será que não passa pela cabeça desses brilhantes jornalistas que voto “cacareco” não tem destinatário, pois quem elege um candidato “real” o terá como seu próprio deputado (no caso) também?

Que não faz sentido 1,6 milhão de pessoas saírem de casa para votar em “protesto” ? todos ? no mesmo candidato, alguns amargando horas de fila apenas para ter e ser motivo de “chacota” depois? Ou quem o elege é tão burro que não pensa que cedo ou tarde pagaria o preço dessa “gozação”? Parece que não. A imprensa se empenha em desmerecer Enéas meramente pela sua figura pessoal e suas “idéias”, já que não podem (ainda) atacá-lo no plano profissional/ político. Além disso, porque contam com a concordância automática de “companheiros” que não têm rosto, não têm voz e nem mesmo opinião própria que possa ser declarada.

Deve ser mesmo difícil aceitar que um sujeito sem tempo, sem verbas e sem vivência política antecedente (fator extremamente positivo para um novato, desde que este não seja médico) tenha descoberto sozinho ? talvez empiricamente ? um marketing mais eficaz do que somados os esforços dos “medalhões” da propaganda, contratados a peso de ouro pelos dois principais partidos. Mais ainda: deve ser um golpe duro demais para o segundo colocado em número de votos ? a estrela máxima do PT ? (mais ainda à sua militância historicamente revanchista) esse “sapo de fora” obter pelo voto da “livre democracia amadurecida-mas-nem-tanto brasileira” o triplo de votos daquele…

A vergonhosa parcialidade da nossa imprensa “engajada” é indisfarçável, mas, atrás da formidável cara-de-pau empregada nessa “ação entre amigos”, quando instada reage com aquele ar de indiferença entediada dos que se julgam moralmente superiores. É de fato insuportável! Isso me faz lembrar um adesivo (geralmente colado em carros velhos) que, a título de gozação, dizia que “a inveja é uma… uma… o que era mesmo”?

(*) Publicitário, São Paulo

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