Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FIM DO NP

Emir Sader

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

MUDANÇAS NO JB?

"JB: Sai Fritz Utzeri, entra Conti – novas Noticias do Planalto", copyright Agência Carta Maior, (http://www.cartamaior.com.br/agencia), 14/02/01

"Depois de digna passagem pela editoria do Jornal do Brasil, Fritz Utzeri dirigiu ontem e-mail a toda a redação, anunciando sua saída, formalizada hoje no JB. Entra Mario Sergio Conti, que foi levado a José Antonio Nascimento Brito pelo Boni – como sempre, associado a Miguel Pires Gonçalves, de olho numa entrada de novo em algum canal de televisão –, depois de viagem a Paris de Boni e de Conti. Uma primeira versão dizia que Carlos Jereissatti estaria na parada, o que apontaria para a candidatura de seu irmão Tasso, que foi sempre o negociador das dívidas do JB junto ao governo. Outra, mais atual, fala de que o jornal se engajaria na candidatura Collor (sic!), pelos vínculos de Tanure – novo dono majoritário do JB – com ex-presidente. Belo destino do autor de Notícias do Planalto, depois de passagem chapa branca pela Folha de São Paulo."

FIM DO NP

"Victal e sua máquina", copyright no. (www.no.com.br), 12/02/01

"Na semana passada, 400 pessoas se abarrotaram em um galpão da Vila Madalena, sob um calor que beirava os 40 graus, sem ar condicionado que funcionasse, para prestar sua última homenagem ao jornal mais bizarro de São Paulo, o ‘Notícias Populares’. Muitos ali eram ex-funcionários, repórteres e editores que trabalharam no ‘NP’ no início da década. Outros eram recém-demitidos, dado que o ‘NP’ circulou pela última vez no dia 20 de janeiro deste ano. O rei da noite, entretanto, foi um senhor de 63 anos, cabelos brancos, jaqueta jeans e barriga um tanto proeminente, que distribuía adesivos do ‘NP’ a uns poucos sortudos. Festejado por absolutamente todos os jornalistas presentes no galpão, Manoel Barbosa Victal viu todas as fases do ‘NP’. De seu nascimento anti-político para destruir o esquerdista ‘Última Hora’ à transformação em um jornal cult, que hoje estampa camisetas de grife. De seu realismo fantástico dos anos 70, com bebês-diabos e vampiros, à ameaça de ensacamento por atentado aos bons costumes nos anos 90.

Manoel Victal foi repórter, editor de polícia, sub-secretário de redação, secretário gráfico e novamente repórter em sua vida no ‘NP’, o jornal que durante anos foi a melhor tradução da periferia da Grande São Paulo. Victal não estava lá no nascimento do jornal, em 15 de outubro de 1963, mas assistiu a tudo de camarote: era sub-chefe de reportagem do ‘Última Hora’, seu principal concorrente, a razão imediata pela qual o ‘NP’ foi criado.

Em quase trinta anos, Victal escreveu tanto sobre crimes (‘Lembra do Bacalhau, que aos 17 anos apavorava a região de Santo Amaro com o tio, o Hélio Gato?’), telefonou tanto às 103 delegacias de São Paulo (‘Sei de cor o telefone de várias. E também o nome de cada escrivão que atende’) e revelou tantas histórias (‘Uma vez encontrei uma menina sequestrada antes da polícia’) que, quando a tragédia bateu à sua porta, não teve forças para investigar: ‘Meu irmão foi morto no Rio de Janeiro. Estava dormindo na rua e a polícia disse que, bêbado, não percebeu quando a chama da vela pegou no cobertor. Ficou carbonizado. Mas outros me disseram que tinha sido assassinado a tiros antes, por problema de mulher. Fiquei tão abalado que não perguntei nada para ninguém, não falei com delegado. Não quis saber.’

Nascido em Ilhéus, Bahia, onde começou como repórter de rádio, Victal veio a São Paulo por sugestão desse mesmo irmão. Era início dos anos 60 e ele logo descolou uma vaga na ‘Última Hora’ de Samuel Wainer. Quando o colunista de ‘Última Hora’ Jean Mellé fundou o ‘Notícias Populares’, em 15 de outubro de 1963, e com ele levou metade da redação, Victal não foi chamado. ‘Não tinha experiência na época. E para o ‘NP’ foram só os grandes’, conta.

Manchete era escolhida pelos office boys

A idéia do novo jornal era simples: deixar a política de lado, noticiar crimes, notícias sindicais e muito sexo, e assim roubar os leitores do ‘UH’. ‘O método de Jean Mellé era escrever meia dúzia de manchetes e ler para os office-boys da redação. Jornalista não podia opinar. A que agradava mais aos contínuos era a escolhida.’ O ‘NP’ começou com uma tiragem de 8 mil exemplares contra mais de 140 mil do ‘UH’. Quinze anos depois, a situação era exatamente o inversa.

‘Quando entrei no ‘NP’, já nos anos 70, me surpreendi com o ambiente da redação, que parecia uma família, uma coisa que nunca tinha visto.’ O ambiente familiar, entretanto, não se espelhava nas histórias que Victal ajudava a levantar, como o famoso caso do Pelezão com a psicóloga tarada. ‘Tinha uma psicóloga em Higienópolis que resolveu sacanear o marido. Acho que ele não estava dando muito no couro, sei lá. Então ela pegou o carro e foi na fila de um albergue municipal para mendigo. Escolheu um negão, chamou e começaram a transar ali perto, dentro do carro. Um PM flagrou os dois, mas a psicóloga, em vez de pedir desculpas, começou a xingar. O policial levou os dois para a delegacia. Lá, ela continuou a xingar todo mundo. O delegado se ofendeu e, para se vingar, chamou o ‘NP’. Nossa, foi uma festa!’, lembra o ex-editor, que fumava três maços de Chanceller na época e era magro como um palito.

O jornal transformou o mendigo, que tinha o apelido de Pelezão, em celebridade instantânea, um personagem da cidade. Para não perder seu novo artista de vista, a redação do ‘NP’ resolveu colocá-lo no hotel Ben-Hur, vizinho ao jornal. ‘Durante semanas, contamos a sua história, onde nasceu, como acabou na sarjeta. Por causa das matérias, a cantina Cê Que Sabe, do Bixiga, ofereceu para ele um serviço como manobrista. Mas ele, além de encher a cara e bater os carros, inventou que estava se engraçando com a mulher de um dos sócios. Foi demitido. Depois, ele arrumou uma namorada, uma enfermeira da Santa Casa. Ela dava flores para ele e sabe o que o cara fez? Roubou a carteira dela e foi preso’, conta Victal. Nunca mais se ouviu falar do Pelezão. A psicóloga também sumiu do mapa.

Grandes reportagens, nem sempre reais…

As grandes séries de reportagens do ‘NP’ sempre mobilizaram os leitores e fizeram história no jornalismo popular brasileiro, mas nem sempre eram reais. Nos anos 70, por exemplo, o jornal viveu sua fase de realismo fantástico, por assim dizer. O caso do Bebê-Diabo, de 1975, é célebre. ‘Foi tudo inventando. Um repórter da ‘Folha’, Marco Antonio Montandon, foi ao ABC, em São Paulo, checar uma pauta. A pauta era furada e ele fez uma crônica. Era um sábado à tarde. Estávamos completamente sem assunto, sem manchete para a primeira página. Por isso aproveitamos a matéria e o NP saiu com a seguinte manchete: ‘Nasceu o Diabo em São Paulo’.

No dia seguinte o departamento de circulação ligou para a redação e perguntou o que tinha acontecido: ‘Não tem mais jornal nas bancas’, disseram. Decidimos continuar com o assunto. Saímos com uma suíte e, a partir daquele momento, perdemos o controle do processo. Vinham telegramas, cartas e ficou uma coisa codificada entre o leitor e o jornal. Ficamos 22 dias com o Bebê-Diabo na manchete. Na cola do Bebê-Diabo, apareceu a Loira-Fantasma’, conta o então secretário do ‘NP’, José Luiz Proença, no livro ‘Espreme que Sai Sangue – Um Estudo do Sensacionalismo na Imprensa’, de Danilo Angrimani. E, vale dizer, depois da Loira-Fantasma, houve o Vampiro de Osasco e outras criaturas.

Mas se as décadas de 70 e 80 foram divertidas profissionalmente para Manoel Victal, o mesmo não se pode dizer dos anos 90. ‘Contrataram uma artista gráfica para mudar o jornal, tornaram as fotos coloridas, diminuíram o tamanho dos textos e quase demitiram toda a redação. Na época, havia quase 80 jornalistas na redação, vários sexagenários. Reduziram para 40 e começou a chegar a nova geração, aos poucos, em doses homeopáticas. Minha única função nesses últimos dez anos foi fazer a ronda por telefone, ligar para as delegacias da capital e perguntar se algo aconteceu. Sabia que podia fazer muito mais, por isso foi doloroso.’

Em 95, uma segunda tragédia aconteceu em sua vida pessoal. Seu filho mais velho, viciado em drogas injetáveis, morreu contaminado pelo vírus HIV. ‘Eu arrumava emprego para ele na gráfica do ‘NP’, mas ele logo sumia’, lamenta, emocionado, para logo mudar de assunto: ‘Tenho oito netos; vou buscar as fotos’.

Aos 63 anos, aposentado oficialmente desde 94, Victal estava de férias quando a última edição do jornal ‘Notícias Populares’ circulou em São Paulo, há 24 dias. O jornalista se tratava de uma crise de bronquite quando seu enteado telefonou: ‘Você viu o ‘NP’ nas bancas? Tem um anúncio dizendo que é a última edição!’ Manoel Victal sentiu o chão se abrindo na Vila Zatt, bairro pobre da zona norte de São Paulo. Precisou sentar. Tomou um copo de água e foi ao jornaleiro checar pessoalmente a história.

A folga acaba no dia 20, e no dia 21 ele estará lá, na alameda Barão de Limeira, pronto para assinar a papelada de rescisão de contrato. A redação onde trabalhou não existe mais. Os computadores foram retirados em carrinhos de supermercado. ‘O RH da ‘Folha’ disse para eu deixar um currículo lá, que eles encaminhariam para empresas interessadas. Vou deixar uma cópia no sindicato dos jornalistas também. Tenho esperanças de voltar para uma redação. Não posso e não quero parar de trabalhar. Sempre dei o sangue, sempre deixei a família em segundo plano. Fazer o quê? É a minha cachaça.’

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