Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > DIPLOMA DE JORNALISMO

Emoção demais, jornalismo de menos

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

DIPLOMA DE JORNALISMO

Vicente Alessi Filho (*)

Quanta emoção envolve a questão da obrigatoriedade, ou não, do diploma universitário para jornalistas. Talvez seja tudo muito simples: toda vez que a má gestão das empresas jornalísticas atinge o auge do impossível, como hoje em dia, brigar pelo fim da exigência de diploma para jornalistas surge como operação de economia de custos. Sem falar que os patrões sempre consideraram a lei indevida intromissão nos seus domínios. Corporativismo!, eles gritam. Naturalmente o único corporativismo a que se permitem é o seu próprio.

Uma das vertentes é a comparação do Brasil com o resto do mundo, pois somos, provavelmente, o único lugar na Terra onde a exigência existe. Patrões de forma geral gostam dessa tese, assim como aqueles que gostariam de exercer essa profissão sem grande esforço, à medida que o fim da obrigatoriedade abriria as portas das redações para qualquer um.

Vamos lembrar: no imaginário da garotada que está diante de um exame vestibular, jornalismo é profissão excitante: correspondente da… em Londres, correspondente de guerra, viver em Paris e Nova York, por que não? Já ralar na matéria de rua, cobrir enchentes, incêndios, o dia-a-dia triste e cretino da cidade, é idéia que não lhes passa pela mente; eles nem sabem que isso existe. E não sabem nada a respeito do mercado: existe emprego?

Para os patrões seria ótimo não haver a lei, que ? acho eu ? carrega consigo a adoção de piso salarial mínimo. Bela economia de custos em tempos bicudos. Melhor exemplo do que o de Assis Chateaubriand para o repórter Orlando Criscuolo?: “Ué! Se você não consegue pagar as contas com o salário que eu pago, o que está esperando para usar a carteira funcional dos Diários Associados, sô!?” ? num convite explícito à vigarice.

Poderíamos voltar ao tempo em que jornalista estava mais para marginal do que para outra coisa, dando carteiraço a torto e a direito em campo de futebol, boate e em porta de cinema. Achacando o ricaço que atropelou alguém, que foi pego com menino de programa no banco de trás do carro, ameaçando colocar seu “boneco” na primeira página.

E gente séria ganhando merreca e adotando muitos empregos ao mesmo tempo: na pauta da rádio de manhã, na reportagem de jornal ou em assessoria à tarde, no fechamento de outro jornal à noite. E isso num tempo em que o mercado de trabalho ? falamos de São Paulo, capital ? era muito maior.

Via salário que você mesmo determina, você, ou seus prepostos, seleciona quem bem entende, acerta a vida dos amigos e dos amigos e parentes dos amigos e vizinhos. Tudo gente que gosta de escrever…

Média ruim

O que se propõe, então, é outra questão: qual o real interesse das empresas por qualidade jornalística, assim como eu e você a entendemos? E nem forço demais a mão na questão ideológica. Vamos voltar aos fins dos anos 1960 e início de 70 e tentar mensurar o quanto a imprensa melhorou depois da lei exigente de diploma para nós? É verdade que temos gente de má formação, ignorantona, que chega à faculdade e obtém seu registro profissional; mas a quantidade de picaretas caiu vertiginosamente, e nós somos testemunhas. Ganhamos alguma respeitabilidade.

Se o Primeiro Mundo funciona de outro jeito, por que é que nós, no Brasil, temos uma lei que exige diploma? Porque nós, e o legislador, sabíamos que tipo de empresário de comunicação tínhamos Brasil afora ? e ainda temos. Nós nos envergonhávamos com os picaretas e o legislador era vítima dos achaques. Não podemos ser Primeiro Mundo de vez em quando, quando interessa, e Terceiro ou Quarto quando também interessa: Primeiro Mundo, por exemplo, quando se trata da obrigatoriedade do diploma para jornalistas, mas Quarto quando se fala em salário mínimo ou quando se trata da distribuição e do uso da terra.

Temos ilhas de excelência que nos remetem ao Primeiro Mundo mas nosso dia-a-dia é de África mesmo, aquela que estava localizada em algumas esquinas e hoje já chega ao meio dos quarteirões. E estou falando do exercício do jornalismo, que coloca a dúvida na forma de pergunta o tempo todo, que pergunta ao Tony Blair se sente as mãos sujas de sangue.

Amigo meu, piloto de Boeing 767, treme toda vez que lê matéria sobre aviação, temeroso das bobagens potenciais. Ele tem razão. Mas jornais e revistas sempre tiveram consultores, formais e informais, para questões mais técnicas ? perderam o hábito em favor da economia, pois nem sempre sabem viver às próprias custas, nem sempre sabem gerir o seu negócio sem a mão publicitária do governo e, antigamente, do Banco do Brasil.

Mas a média de nossas escolas é muito ruim, nós sabemos. E elas expelem gente demais para o mercado todo ano. Mas ruim não é só a escola de jornalismo: é o ensino médio nacional, que não ensina o sujeito a ser curioso, a ter dúvidas. Mas isto é outra história.

(*) Diretor editorial da revista AutoData

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