Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Ninguém quer imagens ou sons que impliquem o uso de equipamentos, produzam matérias sensacionais e, provavelmente, outras vítimas. Bastam informações seguras e contínuas.

Emoções, debates e intimidação

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

CASO TIM LOPES

Alberto Dines

Quinze dias depois da tragédia que enlutou a família de Tim Lopes e o jornalismo brasileiro percebem-se dois movimentos:

** Autoridades de todos os níveis, pressionadas pela emoção pública orquestrada com competência pela Rede Globo, começam a se mexer. Deixam de lado rivalidades partidárias, interrompem o jogo de empurra e param de dizer bobagens. Perceberam que o Grande Irmão está de olho. E que atrás dele está uma nação que finalmente sente-se violentada. Na véspera das eleições, o clima é de tolerância zero para as tolices governamentais.

** A mídia, no entanto, continua desconcertada e baratinada. Quando se fala em mídia, e não em Imprensa, incluem-se todas as redes abertas de TV, públicas e privadas, canais pagos e internet. Grandes espaços foram dedicados ao brutal assassinato, abertas as torneiras da emoção, inchadas as retóricas, solta a compulsão politizadora , acirrada a tendência para banalizar o mal.

Evidências:

** O pólo jornalístico de São Paulo, o mais forte do país, não consegue ser verdadeiramente nacional. Substituiu o Rio, a partir do fim da década 70, mas continua mostrando que não tem sensibilidade federal. Na visão mais otimista dir-se-á que é capaz de cobrir a região mais rica do país; um olhar mais cético usaria adjetivos como "provincial", "paroquial" ou "bairrista". Os grandes diários cobriram muito mal o episódio desde o desaparecimento do repórter (O Estado de S.Paulo, bem melhor; a Folha, um desastre ? não tinha gancho para responsabilizar o governo e não queria dar a impressão de solidariedade à Globo).

** Os semanários ? veículos nacionais por excelência ? mostraram a que vieram. Vieram para mostrar coisa alguma. Todos sediados na Paulicéia e treinados no mercado paulista. Na primeira semana (edições de 10/6 e 12/6), dos quatro semanários apenas IstoÉ conseguiu produzir uma chamada de capa sobre a violência no Rio. Com muito mais tempo para pesquisar, na segunda semana (edições de 17/6 e 19/6), a mesma IstoÉ conseguiu montar uma matéria de capa, enquanto Época (do Grupo Globo) incluiu Tim Lopes na capa mas não como assunto principal. Veja e CartaCapital consideraram o assunto secundário. O critério de avaliar as capas é mais generoso porque a análise do que foi publicado nas páginas internas mostraria que prevaleceu o opinionismo e a cascata.

** A tentativa de montar um "debate" sobre microcâmeras foi, no mínimo, patética.Tim Lopes não estava invadindo a privacidade de ninguém, queria flagrar uma situação de delinqüência. É legítimo. Ilegítima tem sido, ao longo dos últimos anos, a exploração de grampos.

** Patética também a posição de alguns críticos e jornalistas tentando induzir os eleitores a imaginar que Tim Lopes foi obrigado a fazer a matéria por chefes que precisavam produzir picos de audiência. "Por Tim estava lá?", perguntaram os jornalistas cariocas num manifesto. E eles próprios responderam: estava lá porque era um repórter [veja remissões abaixo].

** É desleal sugerir que o jornalismo deve ter limites no momento em que a mídia brasileira está sob censura judicial. Além dos limites éticos (incorporados ao cerne do ofício, portanto inseparáveis do seu exercício), a atividade e a devoção ao jornalismo devem ser obrigatoriamente irrestritos.

** Outra tentativa de explorar a tragédia colocando a Globo no banco dos réus ? por negligência na segurança ao repórter ? também caiu por terra com as manifestações da Fenaj, do Sindicato dos Jornalistas do Rio e do grupo de jornalistas cariocas que acompanham o caso. Os pecados do Grupo Globo são outros. Se as demais redes comerciais (SBT, Band, Record e Rede TV!) não têm interesse, recursos ou competência para exercer o jornalismo de campo não significa que este deva ser o paradigma do tele-reportagem brasileira.

** Ninguém está cobrando dos jornalistas que descubram o paradeiro de Elias Maluco ou desvendem o seu esquema na Vila Cruzeiro. O narcotráfico só pode ser flagrado e desmascarado pelas autoridades. Mas o narcoconsumo está aí, nos bailes funk (alvo da última matéria de Tim Lopes) e em outros pontos da sociedade onde se tangenciam os diversos submundos e marginalidades. Inclusive nos bairros ricos das cidades onde, teoricamente, a bandidagem não atua de forma ostensiva. Ninguém quer imagens ou sons que impliquem o uso de equipamentos, produzam matérias sensacionais e, provavelmente, outras vítimas. Bastam informações seguras e contínuas. Isso é mais fácil, menos perigoso. Implica, porém, a disposição de sair das redações e bater perna. Em nossos jornais sobraram pouquíssimos repórteres de polícia, nosso radiojornalismo está sendo feito na base dos recortes, cobertura do trânsito, microfones na cara das autoridades e chatíssimos "debates".

A grande verdade é que, nestas duas semanas, não se produziu matéria capaz de mostrar que os repórteres brasileiros ? de luto pela morte do seu colega ainda insepulto ? não estão intimidados.

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