Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > VINÍCIUS, CHICO & TV GLOBO

Encontros e desencontros no telejornalismo

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

VINÍCIUS, CHICO & TV GLOBO

Antônio Brasil (*)

Eram tempos difíceis no Brasil e no nosso jornalismo de TV. O ano era 1973, e o país vivia mais uma ditadura. Produzir um telejornal diário estava se tornando um desafio cada vez maior. O que deveria ser ao vivo estava sendo gravado, para comodidade dos censores, maior tranqüilidade dos editores e ignorância dos telespectadores. O que não era obrigatório ? elogiar as ações do governo, por exemplo ? era proibido ? epidemia de meningite em bairro da Zona Sul do Rio. Os órgãos de "insegurança" da época nos forneciam diariamente, discretamente, via telefone, uma pauta muito mais extensa e completa do que a nossa tímida apuração sequer ousaria. Tinha mais assunto proibido do que matérias a serem cobertas. Fazer jornalismo de TV estava muito longe dos seus verdadeiros objetivos, mas muito próximo do poder.

Entre os assuntos proibidos estava entrevistar figuras condenadas pelo regime, como os políticos cassados ou as personalidades "congeladas" por decisão estratégica da própria emissora. Ditadura, para quem gosta, é uma verdadeira festa! A lista desses condenados ou congelados era extensa, e incluía coincidentemente os inimigos do regime e os inimigos da empresa. Todos juntos, no mesmo saco. Fazer jornalismo de TV, em tempos de censura à brasileira, era um exercício delicado de criatividade que envolvia sempre muitos riscos. Tudo demandava muito "jeitinho", com grandes doses de frustração, negociação e paciência para alguns jornalistas que insistiam em continuar trabalhando no meio e "sobreviver" aos tempos!

Cada matéria tinha que ser avaliada com o maior cuidado antes de ser pautada, produzida ou ir ao ar. Tudo era sempre muito nebuloso, e os interesses quase sempre conflitantes. Pensar ou sugerir algo que desagradasse a alguém poderia ser muito perigoso. Nada era muito claro. Todos pareciam ter o sagrado e legítimo direito a exercer alguma forma de censura. Alguns, mais do que outros, adoravam exercer esse direito, e o faziam com muito zelo e, por que não dizer, algum prazer. Qualquer matéria, ao ser produzida poderia gerar promoções ou uma avalanche de problemas ao ferir as suscetibilidades e interesses de muitos poderosos do momento. Seja para aqueles que tinham que exercer a decisão ou para aqueles que tinham que executar essas decisões, o dia-a-dia era como viver atrelado a uma "montanha russa" meio desgovernada e muito perigosa, com um percurso repleto de surpresas e absurdos.

Uma dessas situações mais absurdas e ao mesmo tempo mais constrangedoras aconteceu numa festa em casa de Vinícius de Moraes, na Gávea, no Rio de Janeiro. Algum pauteiro um pouco mais corajoso ou meio desavisado a considerou suficientemente importante ou inócua para se tornar pauta de telejornal da Globo. Meio sem saber o que fazer, fomos mandados pela chefia de reportagem para cobrir o que acabaria sendo um momento histórico. Em tempos de vacas magras, estávamos indo cobrir um "encontro" entre os principais artistas brasileiros da época e o grande músico argentino Astor Piazzolla. Ele estava no Brasil para uma série de apresentações, e todos estavam ansiosos por conhecê-lo e ouvi-lo. Música e política, naqueles dias, se confundiam muito, e todas as festas ou reuniões de artistas eram muito perigosas.

Para nossa surpresa, Vinícius, muito à vontade, vestindo um despojado macacão jeans, cercado de mulheres lindíssimas e muita bebida, nos recebeu com a maior "diplomacia" e alegria, de um jeito que só ele sabia. Creio que ele estava meio surpreso de receber uma equipe do Império, mas nos deixou bem à vontade. Suas festas, na época, eram famosas, animadíssimas, verdadeiros pontos de encontro de toda uma geração de artistas e intelectuais. Todos estavam ansiosos por trocar experiências, informações ou, simplesmente, aproveitar a ocasião para se divertir muito num período de muitos medos, poucos motivos para comemorações e raríssimo scotch confiável de boa qualidade e excelente procedência.

Festa completa

Naquela festa do Vinícius tinha de tudo. Gente bonita e famosa, quitutes baianos e, apesar dos "tempos de cólera", respirava-se alguma liberdade durante alguns instantes. Todos estavam felizes, comemorando aquele "encontro" com muita música de qualidade e muito papo atrasado sobre tudo que não aparecia na TV. Todos estavam ansiosos por contar as últimas, discutir sobre tudo aquilo que não podia ser lido, ouvido ou visto na imprensa. Apesar de sermos "da Globo", fomos todos muito bem recebidos por… quase todos. É claro que tinha sempre um "engraçadinho" que insistia em gritar algum insulto ou refrão do tipo "o povo não é bobo, abaixo a…" De qualquer maneira, ninguém estava lá para se aborrecer, e eu já estava acostumado, fingia não ouvir, deixava pra lá e ouvia, pela primeira vez, o "bandoneon" num daqueles tangos modernos argentinos com a pimenta do acompanhamento dos ritmos baianos. A festa prometia!

De qualquer maneira, quem teve o privilégio de conhecer o velho Vinícius, de usufruir da sua hospitalidade e ser convidado para algumas dessas "festas" não poderia jamais esquecer aquela verdadeira "iniciação" na variedade da cultura musical brasileira em tempos rebeldes. Jovem jornalista de TV, ainda estudante, quase de calças curtas, eu não sabia muito bem como me comportar, o que fazer ou quem mais admirar. Não conseguia sequer acreditar no que via ou ouvia. Era como estar "viajando" pelo espaço entre tantos astros e estrelas. E logo eu, acostumado a ver o mundo somente pela TV, estava ali diante de tanta gente famosa em carne e osso, dizendo tantas coisas importantes. O país vivia momentos difíceis. Muitos daqueles convidados eram heróis da resistência cultural e política de toda uma geração. Eles tinham lutado por ideais culturais e políticos numa das fases mais negras da nossa história. Mas tudo o que conseguia pensar era que, ainda por cima, me pagavam, muito pouco é verdade, para estar ali com tanta gente que sempre admirara de tão longe, testemunhando um momento único e tão importante.

Mas eram tempos difíceis. Apesar da importância do evento, de estar adorando cada segundo, torcendo para que aquela festa nunca terminasse, sabia que algo poderia acontecer a qualquer momento. Mesmo assim, insistia em afastar algum pressentimento negativo, e para minha surpresa, a festa conseguia ficar cada vez melhor. A todo instante chegava sempre mais um convidado ainda mais famoso e importante que improvisava mais uma música extraordinária. Apesar da ditadura, ainda eram tempos muito criativos na nossa MPB. Para mim, a dúvida era enorme entre a obrigação de tentar fazer alguma forma de jornalismo ou, simplesmente, sucumbir à tentação de partir para uma "tietagem" explícita. Tive que me controlar o tempo todo para parecer um jornalista sério, maduro, fazer o meu trabalho e ao mesmo tempo procurar esquecer, por alguns instantes, que estava a trabalho e, principalmente, para quem.

Eram tempos difíceis. Com tanta gente importante, com tanta música de qualidade, tanta alegria no ar não podia acreditar que o grande momento da festa ainda estava por acontecer. E foi mesmo de repente. De uma hora para outra, um certo tumulto entre os presentes, todos pararam de fazer o que estavam fazendo e se dirigiram em correria para o portão principal da velha casa branca na Gávea. Pelo jeito, alguém ainda mais famoso e importante, como se isso ainda fosse possível, acabara de chegar, os presentes estavam visivelmente excitados e preparavam uma recepção especial.

E eu, óbvio, ainda mais curioso, me preparei, querendo saber quem era aquele convidado-surpresa que poderia ser ainda mais famoso, aguardado com tanta ansiedade, causando tanto tumulto entre tantos "famosos". Eis que surge, ao volante de um tremendo jeep conversível preto reluzente, que tornava toda a situação ainda mais inusitada e misteriosa, o convidado surpresa: era ele, Chico Buarque de Hollanda, com a companheira e atriz de sucesso Marieta Severo. Eles resolveram sair do auto-exílio, arriscaram enfrentar a mídia e comparecer ao encontro dos encontros. Ao ser cumprimentado pelo poeta e pelos demais convidados, o tumulto, sem dúvida, foi ainda maior. Uma confusão de gritos, abraços, cumprimentos acalorados e algumas lágrimas. Rapidamente alguém se lembra de trazer algo para os novos convidados beberem. A festa agora estava completa e aquele momento prometia ser mesmo inesquecível! Creio que eu era, provavelmente, o mais jovem "convidado-penetra" naquela celebração, e não sabia mais como me conter, muito menos o que fazer. Lá estava eu, trabalhando no que mais gostava, em televisão, cercado por alguns dos artistas mais importantes da minha geração e me preparando para tentar entrevistar o grande Chico. Tinha que me beliscar o tempo todo para acreditar que tudo aquilo era verdade e que não estava, simplesmente, sonhando. Lá estava eu, me preparando para obter uma entrevista "exclusiva" com um dos artistas mais importantes e mais arredios do país, artista consagrado e herói do movimento estudantil. Tentar ou sonhar… não custa!

De volta à realidade

De repente, da mesma forma surpreendente em que tudo estava acontecendo, veio a notícia que deixaria aquela noite para sempre na minha lembrança. No entusiasmo do momento, alguém da equipe resolveu comunicar à nossa chefia que a matéria ficaria ainda melhor do que o planejado. Chico Buarque de Hollanda em pessoa acabara de chegar e tentaríamos uma entrevista exclusiva! Esta informação, verdadeira senha secreta, fez o mundo inteiro desabar, pelo menos para mim. Jamais esqueci a confirmação pelo rádio da nossa "viatura de reportagem" aos berros, de uma forma tão insensível quanto inegociável.

"Se o Chico está aí, então vocês caiam fora, imediatamente! A pauta caiu! Vocês deveriam saber que nós não podemos colocar o Chico no ar"! E eu, ainda na minha ingenuidade de aprendiz de foca, insisto tentando disfarçar a decepção. "E o resto da matéria? Como fica?" A resposta não tarda, é fria e automática: "Não fica. Cai também. Fora, todos vocês, agora mesmo! Estamos precisando de vocês. Tem um assalto com tiroteio na Invernada de Olaria". Aquela palavras eram fortes, firmes e decididas. Vinham diretamente das profundezas de um jornalismo de interesses muito claros e objetivos. O futuro, sem dúvida, garantiria àquele jornalismo e seus arautos a devida recompensa por tanto zelo e dedicação.

É importante lembrar aos mais jovens que naqueles tempos o grande Chico estava em meio a um grande litígio com a Globo. Constantemente vítima da censura, se recusara a participar de um dos famosos festivais promovidos pela emissora que, em retaliação, tinha resolvido dar o troco, o gelo. Assim como faria mais tarde com Brizola, haviam decidido que o destino do Chico, um dos nossos maiores artistas, seria o congelamento, condenado a um verdadeiro "ostracismo televisivo". Sem dúvida, ele não resistiria por muito tempo, daria o braço a torcer como tantos outros artistas e viria, de joelhos, pedir perdão ao poder da TV. Nada disso aconteceu.

Os tempos se passariam, Chico sobreviveu, tornou-se ainda mais importante, continuou lutando por seus ideais e, pragmático, chegou mesmo a estrelar programa na emissora. Todos foram devidamente perdoados, mas esquecer? É perigoso!

De minha parte, jamais consegui esquecer aquela festa na Gávea e as palavras, sempre as palavras, do nosso "poetinha".

Eram tempos difíceis. Apesar de muito jovem, estava aprendendo uma das principais lições para a sobrevivência dos jornalistas em nosso país: "Manda quem pode, obedece quem sabe!

Como terminou a festa? Nunca soube. Muito envergonhado, um pouco menos sonhador, voltei só para recolher a nossa "tralha", desculpando-me com todos pelo caminho, tentando arranjar uma boa desculpa para justificar por que estava saindo, meio de fininho, no melhor da festa. Todos me olhavam com pena e compreendiam! Mas foi, mais uma vez, o velho poeta que me deu uma inesquecível demonstração de sabedoria, descontração e bom humor. Com um sorriso irônico no rosto, um enorme copo de uísque na mão e um tapinha amigo nas minhas costas, foi logo dizendo: "Tem nada não, garoto, uma dia essa porra muda!" Ameacei um sorriso juvenil, aceitei um gole rápido do bom uísque, fiquei ainda mais ruborizado, ainda mais envergonhado e me encaminhei cabisbaixo de volta para o nosso "camburão", de volta à realidade. Eram tempos difíceis e eu ainda teria muito o que viver e aprender.

Esquecer, jamais

Saí de lá desconsolado, xingando todo mundo, mentalmente, é claro! Até hoje imagino o que perdi. Não fiz a entrevista, saí no melhor da festa, mas nunca me esqueci daquelas sábias palavras do Vinicius: "Um dia essa porra muda". Eu tinha só 19 anos, pouquíssima experiência de vida, quase nenhuma poesia, mas muitos sonhos. Continuo tentando manter o entusiasmo pela profissão, e pelo menos alguns sonhos em relação ao nosso país. Muitos se perderam no tempo e nas frustrações de tantos anos de jornalismo de TV num país que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Quanto ao Vinícius, ele ainda daria grandes festas na Gávea. Escreveria muitas poesias e cantaria belas canções e belas mulheres, mas, assim como eu, apesar dos anos e das "mudanças", não chegaria a ver o Brasil que tanto sonhávamos. Ele morreria poucos anos depois e nunca mais tive o privilégio de encontrá-lo, beber um bom uísque e curtir uma daquelas festas inesquecíveis. Mas continuo torcendo, como ele diria, que essa…, perdão, que esse país mude.

Por que lembrar essa história agora? Por que revisitar um passado que insiste em nos assombrar? Afinal, todos nós gostaríamos de acreditar que os tempos mudam, não é mesmo? Sem dúvida, aquela era uma época dramática para o nosso telejornalismo. Vivíamos entre as limitações de uma censura externa impiedosa de militares e uma censura interna, ainda pior, daqueles que queriam agradar a esses mesmos militares. Produzir um telejornal nessas condições era um esforço diário para criar algumas pautas que fizessem algum sentido jornalístico, mas que não incomodassem a ninguém. Competição com veículos similares? Assim como hoje, também não existia. Já tinham sido devidamente calados ou eliminados pelas leis da ditadura ou as leis do mercado. O público, também, assim como hoje, provavelmente nem notava o que estava acontecendo ao seu redor, muito preocupado em sobreviver. Pouca coisa mudou. Alguns até estavam muito felizes com os resultados de mais um "milagre brasileiro" anunciado patrioticamente com a objetividade e boas intenções dos nossos grandes telejornais. Também não muito diferente dos dias de hoje. Se a situação econômica continua péssima, o futebol pelo menos nos garante mais um milagre na TV.

Para quem se interessar, a matéria do festão do Vinícius na Gávea infelizmente jamais foi ao ar. As imagens que foram filmadas com tanto cuidado e reverência naquele dia histórico para a nossa música se perderam para sempre. Nenhum editor quis se arriscar e colocar uma matéria que poderia "criar" problemas ou desagradar algum censor de plantão. Para mim, assim como em outras ocasiões, perdi o melhor da festa, mas continuei buscando festas alternativas. Recuso-me a viver ou idealizar o passado e nunca desisti de acreditar no futuro. Gostaria de ter voltado àquela festa ou àquele momento, nem que fosse por um minuto. Mas, hoje, faço um grande esforço para acreditar que os tempos mudaram.

Em plena campanha eleitoral pela TV, assisto a tudo com grande curiosidade, torcendo muito pelo novo telejornalismo, tão elogiado e reverenciado pela nossa imprensa. Concordo que devemos estar sempre dispostos a avaliar as "mudanças", aplaudir as novas iniciativas, acreditar nas boas intenções, desarmar os ânimos, perdoar o passado, mas esquecer? Jamais! A história tem se provado muito cruel com aqueles que não lhe prestam a devida atenção. Somos um país de pouca memória e, infelizmente, a nossa televisão não nos permite acesso livre ao seu passado.

Mesmo assim, e apesar de tudo, como já dizia o poetinha, um dia essa porra muda, perdão outra vez, um dia o nosso jornalismo de TV e esse país mudam… de verdade!

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de TV, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ

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