Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO

Ensaio de orquestra

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

INFORMAÇÃO & CONHECIMENTO

Nilson Lage (*)

Uma das grandes contribuições da teoria da "comunicação de massa" para enterrar o conceito de homo sapiens e jugular a eterna vocação humana para o livre pensamento é a aplicação ao universo da polis ? política, polícia, espaço de juris e civis ? da maestria das orquestras.

Na música, instrumentos de vocação própria ? os naipes ? submetem-se, por acordo ou injunção, ao comando de um regente, cujo papel, no entanto, é quase dispensável no momento do espetáculo. Antes da apresentação, ao contrário, cabe a ele, maestro, conter o arroubo dos violinos, o falsete dos sopros, a barulheira dos timbales. Para isso, segue um arranjo, uma combinação conforme as leis da harmonia, a cultura da época e a capacidade sensória das platéias.

Todos, submissos, devem servir à causa. Quem a define é alguém que impôs a distribuição dos sons: pode explorar a polifonia, liberar por algum tempo os passeio solo de instrumentos, fazê-los dialogar em contraponto ou fuga. Conclui, geralmente, com algo uníssono ou melodioso, que fique na memória da platéia; no caminho, porém, pode distrair o público com um scherzo, um trio, um allegro vivace.

Paisagem morena

Essa é, em tese, também a arte dos ministros da propaganda, dos fabricantes do consentimento, dos engenheiros sociais; a competência de Joseph Goebbels, de Walter Lippman, de Zbigniew Brzezinski.

Para grandes e pequenas coisas.

Por exemplo: para fabricar um Noriega, no Panamá, e destruí-lo quando sua flauta não se submete ao compasso; para promover um bin Laden, no Afeganistão, e enfrentá-lo quando, vitorioso sobre os demônios vermelhos, desafina e se volta, como o anjo caído, contra seu incentivador; para queimar, aqui, plantações feias de coca e, ali, fazer florescer os belos campos de papoulas.

O suporte deve ser a exaltação de algo (por exemplo, quando Reagan comparou os talibãs aos pioneiros que desembarcaram na costa americana e solidarizou-se com o "moderado" sunita Saddam Hussein e seu partido Baath contra os "radicais" xiitas do Irã) ou, mais dramaticamente, para demonizar algo.

Neste caso, é preciso recorrer ao imaginário coletivo. Contra a União Soviética, o retorno a Genghis Khan, aos bárbaros do Oriente que invadiam o Império Romano, aos búlgaros (que deram origem ao nome "bugre", aplicado a povos tribais em todo o mundo), às lendas que cercam o príncipe Vladimir, herói nacional da Romênia, tido como rei dos vampiros. Contra Saddam, uma leitura caricatural, dentre as muitas possíveis, das profecias de Nostradamus (lembram-se da guerra de 1991?). Contra o Islã, o direcionamento específico do anti-semitismo que está na raiz de todo movimento diversionista das elites européias para esconder a pobreza (relativa: incapacidade de alcançar padrões desejados) a que condenam seus povos ? há algumas décadas, contra judeus, agora, contra árabes e turcos que tornam morena a paisagem urbana de Madri, Roma, Londres, Paris ou Berlim.

Anúncios estúpidos

Para conter os foguetes soviéticos em Cuba ou justificar o projeto faraônico da "guerra nas estrelas", recorreram-se às lendas que descrevem o apocalipse como "chuva de chamas vindas do céu". Tal como Orson Welles na sua Guerra dos Mundos (programa de rádio transmitido às 20 horas de domingo, 30 de outubro de 1938), bin Laden acertou na mosca, e não apenas nas torres gêmeas, se pretendia causar impacto popular nos homens simples da América; de passagem, sendo radical, reforçou as posturas radicais do adversário. E nossos cientistas em Alcântara talvez se tenham imolado no altar desses terrores.

Mas não só para "políticas de Estado" serve o ensaio de orquestra. Os senhores da opinião massificada prestam serviços a causas boas e más, grandes empresas ou magnas falcatruas. Em certo tempo, para conter a distribuição de remédios "caros" (o preço quem faz é o mercado; não reflete, em regra, custo de produção) aos doentes de Aids nos países pobres; estes deveriam ser apenas "educados", do que se conclui que só os ricos poderiam ser apenas "deseducados". Para difundir a internet, não tanto pelo que ela representa em termos de possibilidade de informação, mas pelo que contém de besteira, de bizarro, de anúncios estúpidos destinados a explorar inseguranças íntimas das pessoas.

Divisão silábica

Pode-se imaginar que a "revolução da informação" conduz à "sociedade da informação", assim como a revolução industrial conduziu à sociedade industrial. O paradigma é a proporção: se a está para b, então c está para d. No entanto, a linearidade e a regularidade não são comuns em um sistema caótico como a História.

No caso específico, a "sociedade da informação" parece gerar uma turbulência tal que talvez não seja possível dividi-la em etapas sucessivas, ou entendê-la como processo seqüencial. Quer dizer: se o ritmo da transformação imposta superar determinado limite, teremos que conviver com mudanças sobrepostas, percebidas como simultâneas; a noção de formação acadêmica, por exemplo, perderá sentido em um mundo que promete gerar, em dez ou vinte anos, mais novidades do que todo o século XX ? da escova de dente à bioengenharia, do fascismo ao funk. Estudar pode ser parte do trabalho diário de nossos filhos ou netos, independente da ocupação que tenham.

Também nada assegura que a "sociedade da informação" conduza à "sociedade do conhecimento", porque o conhecimento tem sido imaginado como ordenação de saberes e a mobilidade das informações pode impedir que estas se ordenem ou exigir que a ordenação esteja além do limite de qualquer competência humana e se confine ao universo dos bancos de dados.

Como se vê, é preciso supor um "mundo possível" (o conceito é de Leibnitz), dispor de um raciocínio verossímil, que parta de alguma analogia, crença precedente ou fraqueza supostamente difundida ? jamais, no entanto, inteiramente verdadeiro. Porque, se de fato piratear músicas ou programas de computador prejudica compositores, intérpretes e criadores de software, também é certo que compositores, intérpretes e criadores de software são os que menos ganham com a venda, a preço (pelo menos para nós, exorbitante) de CDs, DVDs, sistemas operacionais e aplicativos proprietários.

Como prova o brasileiro que inventou o Bina, ou o que, bem antes dele, imaginou o sistema de divisão silábica das línguas latinas (e apresentou como trabalho final em um curso de extensão, ganhando, por isso, uma placa de metal que durou sete anos antes de se oxidar), cria quem pode, ganha quem tem dinheiro.

E por aí se vê que obedece, assiste a aplaude quem não quer se dar ao trabalho da dúvida.

(*) Jornalista, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem