Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > EDUCAÇÃO & NEGÓCIOS

Ensino privado vai com sede ao pote

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

EDUCAÇÃO & NEGÓCIOS

Victor Gentilli

A USP não é mais a maior universidade do Brasil. Foi superada pela Unip, do empresário Antonio Carlos Di Gênio. Pior: entre as quatro maiores universidades privadas do Brasil, apenas a USP é pública. O terceiro lugar fica com a Estácio de Sá, do Rio de Janeiro e o quarto com a Ulbra, com sede em Canoas, na Grande Porto Alegre.

A Folha de S. Paulo de domingo (2/12/01) traz ampla matéria sobre o assunto, mostrando o poder destes grandes "conglomerados" do ensino superior.

Se a Folha não se limitasse a mostrar os quatro maiores, outros grandes grupos privados iriam aparecer. Em especial a Uniban, concorrente em São Paulo da Unip, e a UniverCidade (que não é apenas um erro de português mas também um erro de informação, posto que é apenas Centro Universitário e não Universidade), principal concorrente da Estácio de Sá no Rio de Janeiro.

No mesmo domingo, o Jornal do Brasil mostra como os conglomerados também atuam nos ensinos fundamental e médio, fazendo com que escolas tradicionais direcionadas ao público de classe média paulatinamente sejam incorporadas por grupos maiores ou simplesmente fechem as portas ? como a Canarinhos-Camaiore, instituição de ensino fundamental que funcionava há 39 anos e não abriu matrícula para 2002, optando por encerrar as atividades.

Esse domínio dos grandes grupos privados certamente ampliou-se neste 2001, posto que as instituições sem autonomia para criar cursos encontraram o protocolo do MEC fechado para solicitar novos cursos.

Sintomático que a principal matéria sobre o ensino superior tenha saído na Folha de S. Paulo. Os maiores diários do Rio de Janeiro têm nos conglomerados de ensino bons anunciantes, que sistematicamente compram páginas inteiras dos jornais.

Em São Paulo, os vínculos entre a Unip e o grupo O Estado de S.Paulo vão se tornando cada vez mais ostensivos. Grande anunciante do jornal, é visível para qualquer leitor atento a proteção que as instituições do empresário Di Gênio desfrutam no bravo matutino paulista.

Filantropia fajuta

Os números apresentados pela matéria da Folha são arrasadores. Impressiona a forma como a Estácio de Sá superou a UFRJ no Rio de Janeiro em número de alunos matriculados. Em 1999, a Estácio era a oitava maior universidade do Brasil e perdia no Rio para a UFRJ, que contava com pouco mais de 29 mil alunos. De 1999 a 2000, a Estácio cresceu 41,6%. Em um ano, a hoje maior universidade do Rio de Janeiro passou de 23 mil alunos para 34 mil.

O mérito da Folha limitou-se exclusivamente a buscar nos dados frios do Censo do Ensino Superior, divulgado pelo Inep, as informações que mostrassem as novidades e mudanças no ensino superior. Uma análise mais cuidadosa vai permitir um retrato realista e revelador da atual realidade do ensino superior no país. A matéria da Folha nem faz referência, por exemplo, à greve de cem dias que as universidades federais ainda mantinham quando da publicação da reportagem. E aceitava de barato a versão do governo sobre a saída de Eunice Durham do Conselho Nacional de Educação.

Ainda há muito a apurar. Na mesma edição da Folha, página A-9, Josias de Souza indica um dos caminhos para uma boa apuração na matéria "Filantropia paga avião e BMW", na qual informa sobre as instituições de ensino "filantrópicas" e irregulares sob a mira da Receita Federal.

Tanto os jornais como a revista Época continuam repercutindo as escandalosas declarações do fundador da Estácio de Sá, de que pesquisa e tese são "inutilidades pomposas". É preciso acompanhar o Conselho Nacional de Educação e todas as demais repercussões [continua].

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