Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > COPA DE VACAS MAGRAS

Entre a fachada e a palhaçada

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

COPA DE VACAS MAGRAS

Cláudia Rodrigues (*)

Uma das coisas mais fantásticas da globalização é a ausência de opções. É fantástico porque a idéia original seria a de pluralidade, uma pluralidade que daria fim às dicotomias. Chega a dar saudade daquela pobreza do capitalismo vs. comunismo. Nos últimos dias tivemos duas notícias do mundo político que comprovam a ausência de opção, a existência de uma ditadura que não usa farda nem tom agressivo no neomundo capitalista. Terno é a roupa e sorrisos sociais, a melhor arma dessa ditadura.

Uma das notícias foi a de que os EUA e a Rússia fizeram um acordo para diminuir o arsenal nuclear. A notícia era essa, mas de fato não havia nada de novo, e ambos os países continuam a fabricar armamentos. Fachada. A notícia foi dada, os anestesiados devem ter embarcado nela, mas não havia notícia alguma ali, foi nitidamente uma armação, afinal nada mais fácil para os governantes do que chamar a imprensa para dar uma notícia. No ar, o jabá internacional. Quem não der, quem ousar não acreditar ou questionar a armação é que está por fora. E todos os jornais deram como sendo uma notícia, e importante, o que é pior.

A segunda notícia do mundo político foi o pronunciamento do Ministério da Economia argentina anunciando o fim do corralito. Fim? Que fim? Cidadãos de mais de 65 anos, os maiores beneficiados, terão de esperar três anos para retirar o dinheiro que é deles. A grande maioria das pessoas será obrigada a trocar suas moedas por títulos de uma economia falida. Essa notícia também era fachada. Fim do corralito temporário, início dos encurraladitos por tempo indeterminado.

Já não dá mais para focar a preocupação nos programas de perversão que exploram as biopatias mais comuns, como o voyeurismo, o sadismo, o masoquismo e a histeria, embora não se possa negar que esse tipo de programa ajuda muito a embaçar qualquer chance que os telespectadores pudessem ter para aguçar a visão crítica diante da tela de televisão quando ela se presta, em parcimoniosos momentos, a dar alguma notícia. E sempre depois de um jornal fica aquele gosto de quero mais, ficam porquês no ar e uma perplexidade diante de como se noticiam os fatos.

Trocando de canal

E não adianta trocar de canal para encontrar uma notícia bem dada. O Jornal da Cultura ainda é o melhorzinho, mas tem medo de ir mais longe, faltam correspondentes no exterior, vive de notícias prontas, até interpreta bem as notícias enlatadas, mas fica faltando o contato direto com a fonte e acaba ficando pobre. Aí tem o Boris Casoy com suas frases sempre as mesmas, defendendo bem o que acredita sem dar crédito aos que não concordam com ele. Mais uns cliques, 30 ou 40 segundos sem respirar, e entramos em contato com o mundo da perversão de batina, que não contente em invadir a maioria das rádios ganha a cada dia mais concessões na televisão. E não é uma questão de ser ou não religioso, não é uma questão de opinião. Esses programas das televisões e rádios de igrejas são apelativos ao máximo, doutrinários ao extremo, operando numa terra de analfabetos. Dói, e a fachada do bem contra o mal é só fachada. É o mal a favor do contra o bem.

Rapidamente pululam imagens de moças peladas e chega-se à Bandnews, a notícia na hora em que você precisa. Até que é verdade, querendo saber as últimas é só entrar na Bandnews. Mas antes de uma hora já se está ouvindo tudo de novo, igualzinho, e o tom das notícias é absolutamente robótico, somos levados a crer que o mais trágico dos acontecimentos é um fato corriqueiro. Aliás, essa peculiaridade é a principal característica do Jornal Nacional, que até hoje parece carregar o fantasma do Cid "Segurei as Ondas da Ditadura" Moreira nas costas do William Bonner e da Fátima Bernardes.

É a Bandnews na notícia com fachada de americanos, cara de CNN by bananas, e o Bonner e a Fátima com olhinhos assustados, heróis da notícia que ninguém lembra no dia seguinte.

Armando a torcida

Tudo isso eu passei por gostar de futebol. Faz tempo que deixei de assistir televisão, exceto um outro programa, esporadicamente. Mas chegando perto da Copa não resisti e entrei na onda. A primeira decepção foi descobrir que seria obrigada a assistir aos jogos por um único canal, a Globo, a melhor em fachada, o canal que mais prima pelas aparências.

Por exemplo, parece que a torcida na serra gaúcha, em um certo bar, estava animadíssima. Um mero esforço do repórter e do apresentador. Havia meia dúzia de italianos enfileirados, com frases prontas na ponta da língua em frente a uma mesa com comidas típicas da serra gaúcha. Corei só de assistir a tamanha palhaçada.

Também parece que milhares de brasileiros amam ter só uma opção para assistir aos jogos da Copa do Mundo, que adoram escutar a voz do Galvão Bueno o tempo todo quando se trata de futebol. É um trauma de infância que carregamos desde a mais tenra idade; a voz e os comentários desse sujeito que fala sem pensar, que se posta entre Falcão e Casagrande e quase não deixa os supostos entrevistados abrirem a boca. Como se n&atiatilde;o bastasse, é ele quem narra as partidas, sempre fazendo comentários, sem dar um único segundo de silêncio aos ouvidos dos telespectadores.

E, como se já não fosse dose extra tudo isso, agora empacotaram direto para a Coréia a Fátima Bernardes para ficar como um dois de paus a entrevistar o Galvão Bueno, sempre com cara de moça boazinha que depois repete a última coisa nenhuma que ele acabou de dizer. Extra, extra, jornalista entrevista jornalista para saber o que colega pensa sobre supostos pensamentos do técnico da Seleção!

Chega de Galvão Bueno, até porque um monte de gente já descobriu uma técnica infalível: assistir aos jogos sem o som da televisão. No começo é meio esquisito, parece que não vamos entender o que está acontecendo, mas depois de alguns minutos tomamos posse de nossos próprios raciocínios e o jogo fica muito mais interessante, até porque Galvão Bueno logo ao amanhecer é pior do que entrar em elevador de barriga cheia e sentir cheiro de perfume na primeira hora do dia.

Nada contra o sujeito, que deve ter seu valor, já que cobre o assunto há tantos anos. O problema está no excesso, nessa coisa padre Marcelo do futebol, essa cocada com leite condensado por cima, o padrão típico da Globo que temos de engolir sem opção. E a falta de opção, na cultura e no lazer, no esporte e na política, na relação com bancos ou empresas, é o golaço maior do nosso mundinho atual.

(*) Jornalista

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