Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > COLAPSO DO PENSAMENTO

Entre iluministas, iluminados e ilusionistas

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

COLAPSO DO PENSAMENTO

João Gomes Moreira (*)


Introdução


Aqui/Agora

Eu me codifico e me computo.

Descubra-me e me interprete:

comunicação informação ruído…

Eu tenho uma loucura nos meus olhos que

às vezes querem ver mais do que podem.

(Kuri)


Sete de setembro de 2003 é o dia do atentado ao World Image Center (apenas um trocadilho, uma alegoria para enfatizar local e significado do episódio) no Brasil. Numa prosaica tarde, dia da Independência da Pátria, sim, um sinistro como uma bomba abrigada num dos dois principais centros do poder da informação e comunicação do país, explodiu. De um país de cerca de 175 milhões de habitantes entre índios, negros, mestiços e brancos. É… o Brasil não é só branco e azul (cores da realeza?), é verde e amarelo também. Um país com cerca de 23 milhões de analfabetos e mais uns 15 milhões de semi-analfabetos e analfabetos funcionais. Vale ressaltar o pensamento dos filósofos iluministas que afirmavam no século 18: "Não há liberdade para o ignorante. Não se nasce indivíduo, diziam, torna-se ao vencer a desordem dos apetites, a estreiteza do interesse particular e a tirania das idéias recebidas." (Finkielkraut, 1987, p. 147,148).

Um país-continente no qual, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 94% dos domicílios brasileiros têm pelo menos um aparelho receptor de televisão. Um país em que mais de 60% da população ganham apenas um salário mínimo. Um país em que assistir à TV é uma das principais atividades de lazer e entretenimento (por opção ou falta de opção?). Não, não assistimos ao episódio que durou 10 minutos e gerou gastos (públicos) e prejuízos (privados) orçados em quase 5 milhões de reais (cf. <http://ultimosegundo.ig.com.br de 21/9/03>. Mas, não pretendemos fixar a atenção e observação em valores monetários, e sim em outros valores que, de tão valiosos, são imensuráveis.

O poder dos meios

Os séculos 17 e 18 foi um período de novos valores, da nova classe econômica e social dos burgueses e do liberalismo que gerou o movimento cultural do iluminismo do Velho Mundo. Pensadores afirmam que a mídia forma o quarto poder de um Estado Democrático constituído sob a égide do principio de separação de poderes idealizado por Charles Secondat Montesquieu (1689-1755) em O espírito das leis (1748). Na nossa pátria amada, o quarto poder é concessão do Estado. Um poder impressionante e de grande amplitude. Na obra Powershift: as mudanças do poder Alvin Toffler (1993) elabora descrição escrupulosa. O pensador declara que entre as três formas de poder que sempre existiram no mundo, a força, a riqueza e o conhecimento, este se torna proeminente, com a revolução provocada pela novas tecnologias de informação e comunicação. No capítulo segundo, "Músculo, dinheiro e inteligência", diz Toffler:


Os não-fato e os fatos controvertidos são igualmente produtos do conflito pelo poder na sociedade e armas nesse conflito. Os fatos falsos e as mentiras, bem como os fatos "verdadeiros", as "leis" científicas e as "verdades" religiosas aceitas são, todos, munição no jogo do poder que está acontecendo, e são uma forma de conhecimento, no sentido em que o termo será usado aqui (1993, p. 42).


Comunicação, informação, dados são em Toffler elementos em mutação, e a mais importante forma de poder. Neumann (1991) declara que o homem é a única criatura capaz de atribuir significado aos fonemas, ligar fatos ao contexto histórico e compreendê-los em circunstâncias históricas, tornando-se fator de conhecimento. Enfatiza ainda:


Seja dialogando, escutando rádio, vendo televisão, lendo jornal ou revista, recebemos não somente informações, mas uma bagagem formativa que nos faz homens livres e escravos. Portanto, o ato de informar está ligado à finalidade sócio-moral (Neumann, 1991, p. 13).


A informação veiculada pelos meios de comunicação de massa tem o poder de formar opinião. Informações que, processadas, interpretadas, se tornam referencial teórico de cada cidadão para tomada de decisões e posicionamento nas tarefas e acontecimentos de sua vida cotidiana. A cosmovisão de cada indivíduo não é estática. É um constante vir-a-ser. Para Miranda (apud Neumann, p. 13), "todo processo de comunicação, independente do veículo usado, deve ser entendido como um momento pedagógico que afirma ou nega a perspectiva da construção de uma nova sociedade".

Conteúdos reais e artificiais

As mídias recortam parte da realidade, pois é impossível a alguém ou alguma organização abarcar a realidade em sua totalidade. Este recorde é editado (padronizado) e apresentado à massa. Essa padronização pode sofrer alterações de significado. O sujeito que obtém acesso a este "recorte" da realidade, conseqüentemente, é levado a modificar o meio cultural e sua presença no mundo, (Gutiérrez, 1978, p. 18).

A indústria cultural tem como capitães dos processos de produção, distribuição e divulgação o rádio e a televisão. Morán (apud Neumann) declara que estes são os meios de comunicação mais hegemônicos da indústria cultural e também são apropriados pelos detentores do capital, permanecendo o processo de enriquecimento e expropriação dos capitais dos mais débeis pelos mais fortes. Para Neumann (1991, p. 16), "a televisão é como uma arma de controle da classe trabalhadora, e também o veículo de maior influência sobre a consciência dos indivíduos".

Uma questão se coloca no ar: que tipo de influência? Por exemplo: a música de Mozart influi em que e como? E a música, rap, funk ou axé music? Voamos para outras galáxias ou rastejamos, regredimos para outras cavernas (para além de Platão), em caminhos tortuosos e declives cada vez mais abissais, mais e mais para baixo, recuando no tempo para a era primordial das cavernas e pinturas rupestres? Perséfone nos acompanha ao mundo inferior. o torreão da cultura foi sitiado pela barbárie que promove o infantilismo, a negação, a anulação da identidade cultural do indivíduo ? enfim, a autonomia (cf. Finkielkraut, 1987). "E a vida com o pensamento cede suavemente o lugar ao face-a-face terrível e irrisório do fantástico e do zumbi" (ibid., p. 159). Este pensador francês, comentando os grandes eventos de massas, divulgados pelos meios de comunicação, diz:


(…) Seu espetáculo, como o dos super-stars, esvazia as cabeças para melhor ofuscá-las e não vincula nenhuma mensagem, mas traga todos em uma grandiosa profusão de som e luz. Acreditando não ceder à moda senão formalmente, esquece ou finge esquecer que essa moda visa precisamente ao aniquilamento do significado. Com a cultura, a religião e o rock-caridade, não é a juventude que é tocada pelos grandes discursos, é o próprio universo do discurso que é substituído pelo das vibrações e da dança" (Finkielkraut, 1988, p. 156).


A discussão de Neumann em sua obra Educação e comunicação alternativa, de 1990, destaca a televisão como o "veículo de maior influência sobre a consciência dos indivíduos". O Setor de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na "Carta aos Comunicadores", (1984) "denuncia também os grupos dominantes, pelo fato de usarem a concessão dos meios de comunicação social (MCS) para preservar os seus interesses, confundindo e manipulando a opinião pública." (apud Neumann, 1991, p. 17).

Linguagens e comunicação real

O quadro A primeira missa do Brasil, de Victor Meirelles, apresenta o ofício religioso pelos prelados da igreja que desembarcaram em Porto Seguro e ali celebraram missa pascal. É um retrato, uma paisagem muito impressionante. Mas… a missa foi celebrada em latim para os ameríndios de… qual língua? Será que aconteceu uma ligação, aconteceu comunicação efetiva ali? Quando pensamos nisso não encontramos objetividade, praticidade no feito. Mas foi lá pelos idos dos século 14. E hoje, nosso sistema de emissoras de televisão aberta apresenta objetividade e comunicação efetiva? Ou se assemelha aos nobres soldados da Companhia de Jesus que desembarcaram naquele distante abril de 1500 com os venturosos navegantes portugueses? Segundo Libâneo (2000), vivemos uma era de "sociedade pedagógica". Os meios de comunicação detêm "poder pedagógico". E destaca ainda:


A mídia especializa-se em formar opinião e modificar atitudes, não apenas no campo econômico e político mas, especialmente, no campo moral. Vemos diariamente a veiculação, a disseminação de saberes e modos de agir, por meio de programas, vinhetas e chamadas sobre educação ambiental, Aids, drogas, saúde. (2000, p. 57)


A lenda de Narciso

Parece-nos que a sociedade atual percorre sua trajetória com algumas semelhanças ao relato mítico da lenda de Narciso. Um semideus que não correspondeu ao amor da ninfa Eco e foi castigado pela deusa Afrodite, tendo como suplício o decreto divino de enamorar-se pela própria imagem refletida nas águas tranqüilas de uma fonte. Suas tentativas infrutíferas de aproximar-se dessa bela imagem levaram-no ao desespero e à morte (cf. Harvey, 1987, p. 353). Numa interpretação livre do mito, acreditamos que a ninfa é o que está lá fora, que pode nos auxiliar no processo de maturidade, individuação e emancipação intelectual. A cultura e a educação que nos levarão à plenitude de nosso ser. Mas, nos extraviamos, a ninfa não nos convence… só ouvimos suas ultimas palavras… (daí seu nome Eco).

Comunicação parcial; comunicação incompleta; informação não-formativa, não-transformativa, mas conformativa. As ninfas tinham poderes proféticos e assemelhavam-se às fadas. Mas a bela Eco foi rejeitada. E o castigo imposto a Narciso imaginamos que esteja relacionado às questões de visão e beleza. Quais são as visões dos semideuses? O que eles vêem e ouvem? Quais são as visões de ouvintes, telespectadores, enfim, consumidores da cultura de massa? O que significa a paixão de Narciso por sua própria imagem? O poder enfeitiçante da beleza? A efemeridade, a inconstância e a inatingibilidade da imagem (projetada na água do lago provocado por uma iluminação)? A futilidade do mundo de aparências? O enigma do espelho, tão recorrente na literatura sagrada, nas artes (e.g. I Coríntios 13 de Paulo, Alice através do espelho, de Lewis Carroll) etc.? Uma enfermidade que apresenta o distanciamento de dois hemisférios cerebrais? Corrupção e/ou atrofiamento das faculdades de crítica, análise e criatividade?

O mito só declara que Narciso apaixonou-se por sua própria imagem. E isso foi sua tragédia. A realidade não pode ser alcançada apenas com a contemplação da imagem. Abaixo da linha das aparências é que existe a essência, a consciência.

Pedagogia da ilusão

O que se vê é uma pedagogia da ilusão. Os tripulantes das caravelas de hoje seguem cartilha de método baseada em código dogmático, arbitrário e unívoco. A pluralidade cultural, regional, social e econômica exige postura diferenciada do que se vê. Uma sintonia entre emissor, meio e mensagem é necessária para fechar o círculo. Quebrando o círculo vicioso estabeleceremos o círculo virtuoso de meios democráticos, étnicos, multiculturais e acima de tudo éticos. A sintonia fina de uma pátria real em sua vocação de ser a Nova Roma dos trópicos conforme sonhou o antropólogo Darcy Ribeiro.

Chrétien de Troyes (poeta francês que escreveu o poema A lenda do Graal, século 12) apresenta a pergunta do cavaleiro Parsifal: a quem serve o Gral? Parafraseando, a questão mais elementar neste fato é: a quem servem os meios de comunicação de massa? O que diz a Carta Magna? Assim reza o Capítulo V ? "Da Comunicação Social da Constituição Federal":


Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

? 3? compete a Lei Federal, inciso II: estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. O artigo 220 remete ao artigo 5? para observação dos seguintes termos:

IV ? é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

V ? é assegurando o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

X ? são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XIII ? é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

XIV ? é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo de fonte, quando necessário ao exercício profissional.

Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I ? preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II ? promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;

IV respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família, (CF, 1997, p. 131,132; 17,18).


Considerações finais

Não pretendemos estabelecer um libelo ao moralismo, um truísmo ou uma apologia da alta cultura ou ilustração, mas tão somente uma reflexão sobre os veículos de comunicação e informação situados historicamente no tempo e espaço. Será que temos complexo de avestruz? Que tudo engole e, ao pressentir o perigo, enfia a cabeça num buraco no chão, deixando a retaguarda, os flancos como alvos fáceis para predadores? A Junta Tuitiva na cidade de La Paz, em 16 de julho de 1809, proclamou: "(…) Temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez." Mas isso foi há muitos e muitos anos, nas distantes montanhas dos Andes…

(*) Professor de Ciência da Computação, tecnólogo, mestre em Educação pelo Unasp, doutorando em Ciência da Informação pela American World University, Iowa, EUA; coordenador de Pesquisa e Extensão do Instituto de Ensino Superior de Rondônia <http://www.joaogomes.8m.net>

Referências bibliográficas

1) Bíblia Sagrada. I Coríntios. Brasília-DF: SBB, 1969.

2) Constituição Federal. Brasília: Senado Federal/SEEP. Versão atualizada de 1997.

3) FINKELKRAUT, Alain. A Derrota do Pensamento. 2?ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

4) GALEANO, Eduardo. As veias Abertas da América Latina. 26?.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

5) GUTIERREZ, Francisco. Linguagem total. Uma pedagogia dos Meios de Comunicação. São Paulo: Summus, 1978.

6) HARVEY, Paul. Dicionário Oxford de Literatura Clássica Grega e Latina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.

7) MIRANDA, Márcia. Serviços de Comunicação no movimento de Direitos Humanos. Revista Cultura Vozes, Petrópolis, (7): 5-15, setembro, 1985.

8) MORAN, José Manuel. Contradições e Perspectivas da Televisão Brasileira. Cadernos Intercom. São Paulo: Cortez, (2):5-28, março, 1982.

9) KURI. O Negócio da Pia. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

10) LIBÂNEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? São Paulo: Cortez, 2000.

11) NEUMANN, Laurício. Educação e Comunicação Alternativa. Rio de Janeiro: Vozes, 1990.

12) TOFFLER, Alvin. Powershift: as mudanças do poder. 3?ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.

13) Último Segundo. Jornal Online. Disponível em http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/brasil/artigo. Acesso em 21/9/03.

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