Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > ECOS DA CAMPANHA

Entre o fútil e o enfadonho

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

ECOS DA CAMPANHA

Berto Oliveira (*)

Somente um imprevisível el niño de dimensões magníficas poderia ter alterado as condições meteorológicas deste segundo turno e, por conseguinte, modificar a atmosfera semi-árida da campanha presidencial. O clima se caracterizou por secas prolongadas na criatividade e a temperatura média dos programas eleitorais variou entre o fútil e o enfadonho. Apesar de tudo, os ventos sempre estiveram a favor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Então, não deu outra. Ele venceu.

A única variação perceptível nas condições de temperatura e pressão deste segundo turno deu-se por conta da intempestiva passagem de um conhecidíssimo cometa. Apesar das suas dimensões globais, ele causou menos frenesi do que aqueles espíritos exaltados que se aferventaram em imputar-lhe um caráter cataclísmico maior do que realmente possuía.

Não foram poucas as falanges de patrulhamento que se lançaram em campo na vã tentativa de conter os improváveis estragos da sua má influência. Mas, tão inesperadamente como chegou, foi-se o astro a trilhar o seu caminho celeste e voltamos todos ao nosso tedioso cotidiano eleitoral.

O céu esteve sempre nublado para o vôo dos tucanos, mas nunca tão diáfano para o brilhar das estrelas. Com exceção, é claro, daquela solitária da via-crúcis botafoguense. Sem nenhuma nebulosa em sua órbita, a estrela de cinco pontas do PT brilhou mais do que nunca no formoso céu, risonho e límpido da pátria amada e, graças ao big-bang das urnas, vai continuar a brilhar pelo menos durante os próximos quatro anos.

Indo de um planeta para outro. Durante toda evolução do horário eleitoral do segundo turno, o candidato José Serra não parou de denunciar o candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela sua fuga aos debates. Lula contra-atacou numa propaganda do horário gratuito onde reafirmou seu desejo de participar de um único debate. O debate da TV Globo. É claro! Mas por que somente este debate? Só Deus e o PT sabem. De modo que os demais programas previamente acertados com as outras emissoras foram para as calendas gregas e acabaram virando uma espécie de samba de uma nota só.

Por falar no tal spot publicitário do candidato Lula: foi curioso vê-lo exibido nas TVs Record, SBT, Bandeirantes, Rede TV! e tantas outras convidando o telespectador para o debate da TV Globo. Fica a dúvida: será que a godmother da Rede Globo de Televisão iria consentir que a sua telinha fosse veículo de propaganda de um programa em qualquer outro canal, por mais patriótico que fosse seu propósito?

Ou o monopólio das Organizações Globo já tomou dimensões tão astronômicas que as demais redes concorrentes já se assumiram de vez como afiliadas informais, ou o que assistimos foi um estranhíssimo episódio ao arrepio da ética por pressão do poder econômico ou imposição de uma esdrúxula legislação eleitoral. Decerto o PT não tem nada a ver com essa história, mas as redes de televisão o que têm a dizer sobre isso?

A próxima panacéia

Quem esperava um debate tão torturante quanto os do primeiro turno surpreendeu-se. Não há como deixar de reconhecer que a Central Globo de Jornalismo saiu-se melhor do que a encomenda e conseguiu criar um modelo de programa mais atraente para o telespectador.

O que a princípio parecia ser um estranhíssimo arremedo do excelente Roda-Viva, da TV Cultura, com ilustres desconhecidos, mostrou-se uma dinâmica e interativa forma de entrevista coletiva. À solta pelo areópago global, os candidatos atuaram com relativa espontaneidade e durante as suas exposições puderam achegar-se mais aos eleitores indecisos escolhidos para fazerem as perguntas e até tratá-los pelos próprios nomes.

Lula saiu-se bem melhor que Serra. Beneficiado pela sua folgada posição nas pesquisas, o candidato petista esteve mais descontraído e conseguiu mais objetividade nas suas argumentações. Já o tucano, acuado pelo provável capote das urnas, não teve outro jeito senão ficar o tempo todo a cutucar o oponente com suas próprias desditas partidárias.

A única mancada da noite ficou por conta de Lula que, na sua fala final, ironizou o emocionado chamamento de mais um voto feito por Serra aos seus eleitores, afirmando que se fizesse o mesmo pedido aos seus eleitores passaria dos 100% de votos. Foi como chutar cachorro morto.

Enfim, como na televisão nada se cria, tudo se copia, certamente esta nova fórmula de debate político há de tornar-se a panacéia da próxima eleição. Quem tiver alguma dúvida quanto a isso que aguarde para ver e votar.

(*) Pedagogo, Rio de Janeiro

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