Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > TV ABERTA vs. TV PAGA

Entre o massivo e o plural

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

TV ABERTA vs. TV PAGA

Nelson Hoineff (*)

Um artigo de Richard Huff no New York Daily News (11/12/02) cita pesquisa da Nielsen mostrando que em 2002, pela primeira vez, mais pessoas nos EUA viram as redes de TV a cabo (combinadas durante o chamado horário nobre) do que as redes abertas.

A conclusão era esperada. Na verdade, as redes por assinatura passaram à frente das redes abertas em setembro (o que foi objeto de comentário neste Observatório). No total, 48% da audiência nos EUA durante o horário nobre ficou com as 200 redes de TV por assinatura, contra 45% com as sete redes abertas ? seis das quais concentram quase toda a audiência. Os 7% restantes fixam-se nas emissoras independentes.

Há várias razões para que esse quadro não seja possível no Brasil. A primeira está nas regras do mercado. Dos 170 milhões de brasileiros, menos de 3,5 milhões assinam algum sistema de TV paga. Os que ficam de fora assim o fazem porque as assinaturas são caras (correspondem a quase meio salário mínimo) ou porque o que é vendido não lhes interessa.

O que é vendido é programação ? e aí está uma boa segunda razão para o fracasso do modelo brasileiro. A programação colocada à venda no Brasil difere muito pouco da que é vendida nos EUA, mas agravada por uma circunstância: o que é bom para os EUA nem sempre o é para o Brasil.

Entre duzentos e poucos canais (na verdade cerca de 300), quase todos são criados, produzidos e operados dos EUA. Nos anos 80, as plataformas de TV por assinatura que se instalaram nos EUA tiveram como núcleo a criação desses canais, enquanto os operadores tornaram-se exatamente o que são: prestadores de serviço e mecanismos de distribuição dos canais existentes, criando pacotes diferenciados para cada área do país.

É natural que existam demandas diferentes para canais segmentados voltados para crianças ou para mulheres; para populações rurais ou concentrações de grande exigência cultural; para nichos de etnia oriental, árabe, negro ou judaica; para espelhos, enfim, da natureza plural da sociedade. Isso está na essência da segmentação.

O meio a e indústria

No Brasil não se criou nem uma rede independente de TV por assinatura sequer, nada que fosse capaz de contemplar as exigências particulares de populações ? as quais, se por um lado não dispõem de condições financeiras para pagar por 200 canais que não querem ver, por outro não encontram a oferta de uma grade de programação que contemple sua demanda. As grades de TV por assinatura no Brasil foram montadas tendo prestadores de serviço como núcleo e espelhando-se numa situação de confronto com a demanda natural da sociedade.

O irônico é que a assinatura de um sistema de TV paga no Brasil tornou-se um capricho justamente no momento em que a televisão aberta atingia o seu mais baixo patamar histórico. Houve uma época em que o Brasil podia se orgulhar de ter uma televisão aberta bem acima da média internacional; hoje, com as exceções de praxe, tem uma das piores televisões do mundo.

A fuga da televisão aberta, portanto, por qualquer telespectador com mais de dois neurônios, é um processo natural que deveria fortalecer o mercado de TV por assinatura. Se isso não acontece é também porque a dicotomia entre TV aberta?baixaria versus TV paga?alto nível está longe de acontecer. Ainda há quem acredite que boa televisão é a televisão que exiba o material institucionalmente consagrado.

Na última semana de novembro, a equipe de transição do PT promoveu no Rio um seminário destinado a colher subsídios para a montagem de sua política para o audiovisual. Na mesa voltada para a televisão, surgiram boas sugestões de nomes como Gabriel Priolli, Mauro Garcia e Marco Altberg, por exemplo.

Mas houve também quem sustentasse a inexistência de formas próprias ao veículo e insistisse que a televisão nada mais é do que uma instância reprodutora da produção cinematográfica. Detalhes aparentemente irrelevantes como esse mostram a dificuldade que ainda existe até mesmo em setores mais intelectualizados de entender a televisão como um veículo autônomo (portanto como um meio de expressão) transformado, como os demais, em indústria.

Grosseria e leviandade

Enquanto esse imbróglio cultural não for resolvido, dificilmente a TV aberta retomará padrões aceitáveis de qualidade e de maneira alguma a TV por assinatura deixará de ser a usina de prejuizos que é neste momento. Ambas as indústrias punirão a sociedade brasileira com uma programação desqualificada, num caso, e com a dilapidação indireta do patrimônio público, em outro.

Nos EUA, a televisão aberta investiu numa programação 100% norte-americana e num altíssimo índice de programação regionalizada. A televisão por assinatura apostou numa programação também americana e na formação de centenas de redes capazes de produzir imagens americanas e alimentar uma monstruosa estrutura de talento e mão-de-obra local. O resultado é que as empresas de midia deram certo e a divisão dos hábitos dos espectadores acompanhou de modo bastante razoável as características da própria sociedade.

No Brasilm, criamos redes de TV abertas que vivem abertamente na indigência e um modelo de TV por assinatura que não leva em consideração nem a demanda públicas nem as exigências mais rasteiras de compromisso social. O resultado é o nível da programação que se observa a cada instante e uma situação quase falimentar de toda a estrutura de TV paga, além da humilhante ausência do Brasil nas telas brasileiras.

Mecanismos como o projeto da deputada Jandira Feghali ? recentemente aprovado na Câmara ? em defesa da presença maior da programação regional nas TVs poderiam ser mil vezes mais eficazes se desenvolvidos tecnicamente e não apenas como bem-intencionadas decisões políticas. Não é minimamente razoável que se possa pensar numa televisão brasileira como ela é hoje ? centrada nas redes, com pouquíssima participação de centenas de afiliadas que em muitos casos nem câmeras têm. Isto em redes bem estruturadas como Globo e SBT, quando em outros casos nem a cabeça-de-rede tem condições de manter índices mínimos de nacionalização e padrões de qualidade acima da bestialização.

Não é adequado que se trate de maneira leviana um meio poderoso como a televisão. O que a Nielsen acaba de comprovar nada mais é do que a evidência de que a TV como meio massivo está com os dias contados. Não é normal que 200 milhões de espectadores vejam apenas 6 canais de TV ? e é mais anormal ainda que 170 milhões vejam apenas dois ou três. Mas, como na velha piada do rabino e do fiel que queria ganhar a sorte grande, é necessário que o temente a Deus se disponha a pelo menos comprar o bilhete.

A inversão de valores que se observa cotidianamente nas atrações da televisão aberta ou nas grades dos operadores de TV por assinatura intuem que televisão seja assim mesmo, uma coisa feita com grosseria e leviandade. Não é o que acontece nos EUA, na Inglaterra e em outras sociedades que, não apenas por mero acaso, desenvolveram televisões de alto nível, lucrativas e capazes de atender à demanda regional e a amplos segmentos da sociedade.

(*) Jornalista e diretor de TV

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