Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Escolas: internet já

Por lgarcia em 15/07/2003 na edição 233

EXCLUSÃO DIGITAL

Deonísio da Silva

Bem disse Demétrio Weber no Estadão da última segunda-feira (14/7): "está para completar três anos uma boa idéia que nunca saiu do papel".

Com efeito, já foram arrecadados R$ 2,3 bilhões para o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que visa garantir linhas telefônicas, informatização e acesso à internet para escolas públicas, bibliotecas, centros de saúde, órgãos de segurança e entidades de assistência a deficientes, além de atender o público em áreas remotas e de fronteira.

O Ministério da Educação (MEC) ? que mesmo depois da criação do Ministério da Cultura jamais perdeu o "C" de Cultura ? quer integrar 42 mil escolas à rede. É urgente que sejam desembaraçadas logo as dificuldades legais, pois o Brasil vai mal em educação ? recentes e insuspeitas avaliações mostram que nossos alunos não entendem o que lêem. Já sabíamos que estudantes ainda lêem muito pouco e agora descobrimos que entre os que lêem, são muitos os que não entendem os textos.

O Brasil é tão vasto e complexo que esses 42 mil pontos representam apenas 20% das escolas do país. São escolas que já têm computadores, mas continuam sem acesso à web. Ou seja, cerca de 4 milhões de estudantes de ensino médio continuam freqüentando escolas sem aceso à Internet.

Convenhamos! Como é que os professores vão ensinar? As escolas, em sua maioria, não têm bibliotecas. Quando têm bibliotecas, essas estão quase sem livros nas estantes. Às vezes, as escolas contam com prédios, estantes e livros, mas estão sem bibliotecárias. E os acervos não recebem livros novos há anos!

Uma boa escola começa com bons professores ao redor de uma boa biblioteca. E agora, nos tempos da internet, com acesso à web, pois a pesquisa ganhou um terreno amplo na rede.

O Brasil, país de bacharéis, não pode permitir que iniciativas tão importantes como a do Fust sejam interditadas por problemas de redação do cipoal legislativo em que foram jogadas desde o dia de sua criação. Que sejam chamados advogados, consultores jurídicos e tantos profissionais de direito quanto sejam necessários para dotar as escolas de internet já.

Nosso atraso tecnológico em comunicações, que não é ainda maior porque este foi um terreno em que o governo Fernando Henrique Cardoso mais avançou, ainda é imenso. E é simplesmente inconcebível que se use a desculpa de legislações e normas para prorrogar mais uma vez a implementação dos benefícios do Fust.

O acesso desses estudantes à rede da web vai ao menos atenuar enormes dificuldades de leitura. Há jornais, revistas e livros disponíveis na internet, obviamente. E se os jornalistas quiserem que os leitores saibam mais, pautem profissionais que vão às escolas onde o acesso à internet está garantido para que o público possa comparar mais uma das grandes divisões do Brasil: a diferença abissal que já existe entre aqueles que têm acesso à web e os outros!

Como sempre, a conta mais salgada é paga pelos outros! E por culpa de leis, essa não! O episódio lembra o diálogo que o diretor da Faculdade de Direito de Minas, o jurista Mendes Pimentel, teve com Francisco Campos, em 1937, quando desabou sobre o Brasil a Constituição de 1937, chamada "polaca", por copiar a Constituição fascista da Polônia. O diretor disse que não era necessário tanto palavrório, bastariam dois artigos: "Art. 1o – Fica revogada a lei que aboliu a escravatura no Brasil. Art. 2o – Os brancos passam a ser também escravos".

Hoje, os novos escravos não têm internet! São escravos da lentidão e da desinformação de um mundo veloz.

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