Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ASPAS

Escreveu, não leu

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

PORTUGUÊS DE MENAS

José Colucci Jr., de Boston (*)

O Prof. Sírio Possenti, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, não gostou do texto que escrevi para a edição 133 do Observatório da Imprensa (8/8/2001). Em sua coluna no boletim eletrônico PrimaPagina (veja Aspas e remissões abaixo), o lingüista da Unicamp chama o texto de "Palpite infeliz".

Incomoda o Prof. Possenti que, ao assinar o artigo, eu me identifique apenas como engenheiro. Peço-lhe desculpas. É que, longe da USP, onde lecionei por pouco menos de quinze anos, já esquecia o apreço que a academia tem por títulos e classificações. Declaro que sou engenheiro mecânico pela mesma Unicamp do Prof. Possenti, fiz mestrado em Bioengenharia (University of Illinois at Urbana-Champaign), um outro mestrado em Arquitetura e Desenho Industrial (USP) e doutorado em Arquitetura (USP), onde tratei de tema ligado à bioengenharia, com pesquisa de laboratório feita nos EUA. Omiti essas credenciais por considerá-las irrelevantes para o assunto tratado, mas vejo agora que não são. Explico.

Meu currículo eclético (esqueci de dizer que também sou músico amador, e fui designer gráfico e fotógrafo profissional) coloca-me em dissensão com o Prof. Possenti, já que ele acredita que engenheiros não devem opinar sobre gramática e, por extensão, sobre tudo o que não seja engenharia. Eu, de minha parte, acredito que especialização é coisa para formigas. A evolução nos deu um cérebro versátil e adaptável. Devemos tirar partido dele.

Antes que me entendam mal, devo qualificar o que disse. Seria presunção achar que o mero diletantismo autoriza qualquer um a emitir opiniões idôneas sobre assuntos complexos. Em nome da honestidade intelectual, o não-especialista deve indicar os limites de sua contribuição para o assunto. Minhas leituras em lingüística e semiótica são poucas e desatualizadas, mas não são inexistentes. Por influência de meu orientador no mestrado da FAUUSP, o advogado Décio Pignatari, li Chomski, Saussure, Barthes, Peirce e mesmo a hipótese de Sapir e Whorf, este último um engenheiro, não me é desconhecida. Jamais achei que conhecimento tão limitado me autorizasse a pontificar sobre lingüística, tanto que no artigo, na verdade uma crônica, declaro minha ignorância no primeiro parágrafo. Se soubesse que a minha humilde crônica seria submetida à exegese do especialista, usaria de cuidados ainda maiores; declararia minha ignorância já no título, embora duvide que o expediente funcionasse. É que o Prof. Possenti tem dificuldade com títulos.

O professor escreveu longa diatribe contra o título "Português de Menas", pespegado pelo OI ao primeiro artigo da série. Atribuiu-o, inicialmente, ao autor ? Deonísio da Silva. Descobriu o erro e retratou-se. Volta a cometer erro semelhante, ao entender que a minha crônica tem o mesmo título. Não tem. "Português de Menas" ? que é infeliz, concordo ? é o nome da série, a rubrica. Minha crônica chama-se &ququot;Gramático tem de ser radical". Já que escreve para a imprensa, o professor precisa familiarizar-se com esses procedimentos jornalísticos.

Mas ao deter-me em picuinhas e maldades assemelho-me a meu crítico, coisa que quero evitar. Vamos ao que interessa.

Talvez o Prof. Possenti surpreenda-se ao saber que concordo com ele em muitos pontos. A analogia entre a língua e os organismos é limitada, como, de resto, o é qualquer analogia. Em engenharia é comum recorrer-se a analogias para entender problemas complexos. Pode-se, por exemplo, desenvolver o circuito elétrico equivalente do corpo humano. Facilita o estudo, desde que se evite o erro de pensar que o corpo humano se comporta exatamente como se fosse feito de resistores, indutores e capacitores. Deixo claro em meu texto que a analogia proposta, entre a gramática e o DNA, é apenas um exercício ? um exercício que me sinto capaz de defender no formato original, não no simulacro que o professor fabricou para destroçar e sobre suas palhas bater no peito e cantar vitória.

Eu jamais atribuí aos gramáticos o papel de controlar a mudança das línguas. O que digo no texto é que aos gramáticos cabe decidir que mudanças devem ser incorporadas à norma. É frase perfeitamente neutra. Quem é que as incorporaria à norma senão eles? A partir daí a questão passa a ser outra: quem é que liga para a norma dos gramáticos? Muita gente, eu diria. Há cada vez mais gente estudando, há manuais de redação e estilo, há colunas sobre gramática nos jornais. O domínio do código verbal traz inegáveis benefícios ao seu possuidor, daí o interesse de muitos em aprender, às vezes quase como uma segunda língua, a norma culta. A repressão social responsável pelo controle das mudanças lingüísticas, de que fala o professor em sua coluna, se realimenta, entre outras coisas, na norma culta. Senão a turma escreviam assim.

Partindo do que eu não disse, o Prof. Possenti chega à conclusão, por reductio ad absurdum, de que o controle da evolução de uma espécie é exercido pelo geneticista. Minha afirmação não autorizava essa linha de raciocínio. Comparei os gramáticos a enzimas de reparo do DNA, que recuperam a informação perdida ou alterada, e, já que estamos nisso, jamais falei em meio, falei em pressões ambientais. Lá pelas tantas o professor enxerta em seu texto uma frase dizendo que falar em meio social é um resquício do velho positivismo. Assim, solta, a frase leva o leitor a crer que cometi esse pecado. Eu nunca disse isso. Esse é mais um dos tantos malabarismos que pontilham o texto do docente. Tal vício, infelizmente, é encontradiço entre os que dominam bem o código verbal, como é o caso do autor da crítica. Acham que a pena afiada os exime de cuidados na leitura.

O Prof. Possenti diz que não conheço sintaxe. É verdade, e não tenho defesa. Faltando-me os conhecimentos gramaticais do engenheiro Euclides da Cunha, ou a inventividade do engenheiro da palavra João Cabral de Melo Neto, considero-me um aprendiz. E, como tal, tenho de agradecer-lhe a gentileza de não ter apontado os muitos defeitos estilísticos de meu texto. Escolheu corrigir a interpretação que fiz de Napoleão Mendes de Almeida, mas escolheu mal. A frase "Gente simpática, mas que condescende demais com o coloquial" está mesmo errada, segundo a gramática de Mendes de Almeida. Pode ser que o Prof. Possenti discorde, mas neste caso terá de se haver com o fantasma de Napoleão, um adversário certamente mais formidável do que este engenheiro.

O professor também disse que "outro equívoco de Colucci é repetir a velha ladainha segundo a qual se lê muito pouco". Não digo isso. Digo que pouca gente lê livros, como demonstro a seguir. Nós engenheiros temos, por deformação profissional, a mania de fazer cálculos. Mesmo quando não dispomos de dados exatos, fazemos umas contas rápidas de cabeça para ver se os números sustentam as nossas afirmações. Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro, em 2001 publicaram-se no Brasil 329 milhões de exemplares, incluindo-se aí livros técnicos e didáticos. Em número de exemplares, isso é menos da metade do que publicaram no mesmo ano os dois jornais de maior circulação no país. Se acrescentarmos os demais jornais brasileiros, as revistas semanais, as mensais e demais periódicos concluiremos que ? página por página ? os livros representam porcentagem pequena do total. A hipótese aqui é de que o número de páginas lidas seja proporcional ao número de páginas impressas. Assim, as pessoas estão mais expostas ao português dos jornalistas do que ao dos escritores. Não se sabe que mudança a Internet causou nesse balanço, mas não acredito que o tenha deslocado a favor de obras literárias. A afirmação foi posta no texto para dizer que os jornalistas, por serem os referenciais, têm grande responsabilidade na manutenção da norma, e deveriam ouvir os gramáticos.

O Prof. Possenti reprova, com propriedade, o uso que fiz do termo "aleatório" quando aplicado a mudanças na língua. Cita Sapir (1921), que introduziu o conceito de deriva. Segundo Sapir, toda a língua se afasta continuamente de qualquer tentativa de normatização, desenvolvendo novas características e transformando-se com o tempo em algo tão diferente da língua original a ponto de constituir uma nova língua. Chuto a minha própria canela por não ter pensado em usar o conceito. Os organismos também derivam, e de maneira não totalmente diversa. O processo de deriva genética ocorre quando a freqüência de determinados alelos na população muda sem que haja estímulo externo. A analogia teria dado mais graça ao exercício. Ainda segundo Sapir, os dialetos aparecem quando grupos de indivíduos se desconectam do grupo principal e a língua original deriva de modo independente. O paralelo entre a formação dos dialetos e a formação de novas espécies é quase irresistível. Bastaria lembrar de Darwin e das ilhas Galápagos.

A crônica, em tom que não se pode confundir com o de um ensaio, revela a minha preferência de engenheiro por gramáticos que fixem normas claras, lógicas, mas não imutáveis. Se o professor me imagina entre os que abominam a experimentação e as formas populares, e batalham pelo vernáculo, coloca-me em companhia que não me convém. Até mesmo um engenheiro consegue curtir a recriação da locução mineira de Grande Sertão: Veredas, do médico Guimarães Rosa, ou a prosa exuberante de Catatau, do professor de história e de judô Paulo Leminski, este um dos meus favoritos. Sei que o mestre Napoleão não aprovaria essas escolhas, mas, que diabos!, quero-o para contrabalançar o bombardeio exagerado de fatores mutagênicos, não para me dizer o que ler. E quero que os descendentes literários dos autores citados continuem a estender os limites da língua.

Neste ponto do texto acho seguro adotar um tom mais pessoal. Protegidos dos leitores pela chatice da polêmica, seremos, com certeza, o professor e eu, os únicos a chegar até aqui. E já que estamos sós, permito-me a liberdade de lhe dar um conselho profissional. Quando abrir a firma de engenharia, como prometeu fazer em sua coluna, e for esboçar uma planta, não comece pelos galhos. Comece pelos frutos.

(*) Engenheiro, e-mail <j.colucci@rcn.com>

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"Palpite infeliz", copyright PrimaPagina, 14/08/2001, <http://www.primapagina.com.br/pp/colunas/littera/2001/08/0002>

"José Colucci Jr., que se identifica como engenheiro (não diz se é civil, elétrico, de computação, de produção, etc), entrou no debate sobre língua. Seu texto, publicado no Observatório da Imprensa, também se chama ?Português de menas?, como o assinado há duas semanas por Deonísio da Silva (quando critiquei o título, que é uma invenção descabida, o Observatório mandou dizer que eu deveria saber que quem dá títulos às matérias não é o autor, é o próprio órgão; transfiro, pois, ao Observatório, por observar tão mal, a crítica que fizera a Deonísio).

Colucci defende basicamente que as gramáticas devem ser radicais. Escreve que gosta mesmo de Napoleão Mendes de Almeida, e não gosta muito dos jovens gramáticos, por serem muito condescendentes. Não menciona nenhum.

O charme do artigo é a comparação da língua aos organismos e a suposição de que também está sujeita à evolução. Como os organismos, uma língua se adaptaria ao meio. Assim, aceita que uma língua pode mudar, mas não muito. O correto é que o faça como os organismos: nem se repetem exatamente, nem mudam bruscamente ou demais. O DNA controla isso.

O equívoco é atribuir aos gramáticos o papel de controlar a mudança das línguas. O problema dessa opção é que, para que a metáfora da evolução se aplique às línguas, teríamos que supor que o controle da evolução de uma espécie é exercido pelo geneticista ou o especialista em engenharia genética, o que seria um evidente absurdo.

A engenharia genética produz plantas ou animais especiais, alterados. Quem faz trabalho análogo em língua talvez sejam os poetas e romancistas (como Joyce e Guimarães Rosa, que quase inventaram línguas), ou então inventores de línguas artificiais como o esperanto. Nunca os gramáticos, que, quando são bons, apenas organizam bem os fatos, não controlam sua difusão. Quem faz esse controle é a sociedade, através de seus variados aparelhos ? escola, família, grupos profissionais, etc. Eventualmente, os gramáticos são invocados como autoridades.

Há muitos problemas no texto de Colucci. Há outro de ordem geral que diz respeito à própria metáfora da evolução. Os lingüistas a abandonaram no final do século passado, depois de a cultivarem de variadas formas e terem percebido que não funciona. Explica pouco e mal.

As metáforas hoje são outras. A lingüística mais biologizante é a chomskyana, mas sua metáfora é computacional, isto é, privilegia as operações do cérebro, não o próprio organismo. Além disso, não há para as línguas nada comparável ao meio, o habitat dos organismos. O ?meio? da língua é marcadíssimo por valores sociais, históricos, estilísticos. Sua ação sobre as línguas é de natureza bem diversa da ação do meio sobre animais. Falar em meio social é, aliás, um equívoco, por um lado, e resquício do velho positivismo.

Outra interessante metáfora atual para o dinamismo da língua é a de Wittgenstein, que a compara a uma cidade: vai crescendo, sendo construída e ocupada, às vezes contrariando o ?plano? inicial ? bem de acordo com a tese de que o uso faz a língua; até mesmo o sentido.

Há problemas bem mais circunscritos. Por exemplo, Colucci imagina que, se não houvesse gramáticos para regular a evolução das línguas, elas mudariam aleatoriamente. Ora, a tese é absurda. As línguas certamente não seguem uma rota fixa em sua história, mas é bem provável que tenham uma deriva (a tese é de Sapir, exposta num livro de 1921, que Colucci certamente não leu), ou seja, as mudanças se encadeiam. Têm uma ordem, portanto.

Isso em termos gerais. Mas, mesmo em nível local, é fácil perceber que as mudanças ? que têm tudo a ver com as variações ? não são aleatórias. Basta verificar que, por exemplo, ?caipiras? falam carça e brusa, (por calça e blusa), mas não *carado (por calado) ? ou seja, a passagem de l a r ocorre no final e no meio da sílaba, mas nunca no início.

Este tipo de regularidade ocorre em todos os casos de variação e de mudança. Ou seja, Colucci comete dois erros: o de imaginar que as mudanças lingüísticas são aleatórias e o de supor que é o gramático quem as controla, e não a sociedade, através de variados mecanismos de ?repressão? que os sociolingüistas conhecem bastante bem, desde a eliminação aos poucos dos ?erros? da fala infantil.

Colucci comete outros equívocos, de variada natureza. Por exemplo: diz que gosta de Napoleão M. de Almeida, embora imagine que ele o criticasse por empregar palavras sem função sintática. É que ele acha, por não saber sintaxe, que na frase ?Gente simpática, mas que condescende demais?, o ?que? ou o ?mas? não tem função sintática. Ora, ambos têm: o ?que? retoma o nome anterior e introduz a subordinada ? o que lhe dá pelo menos essas duas funções. Quanto ao ?mas?, faz seu papel habitual de coordenada adversativa. Colucci confunde problemas de sintaxe com opções estilísticas. (Neste ponto, pensei em ser maldoso e perguntar: já que ele gosta tanto do Napoleão, por que não aprende nem segue sua gramática? Mas vou passar…)

Outro equívoco de Colucci é repetir a velha ladainha segundo a qual se lê muito pouco. Pode ser verdade, mas também é verdade que se lê mais do que antigamente, até porque antigamente menos gente sabia ler. Este equívoco é invocado porque é a tradicional falsa explicação para outro problema: escreve-se mal (porque se lê pouco). Primeiro, pode-se discutir se se escreve mesmo mal hoje (seria bom dizer onde, quem, etc.). Segundo, porque escrever se aprende escrevendo, e não lendo (embora ler não seja de todo inútil, e provavelmente seja até necessário).

Não há dúvida, no entanto, de que nem todos lêem de tudo. Eu, por exemplo, não leio engenharia. Não lembro de ter lido nada disso na vida, exceto a planta de minha casa… Em compensação, é evidente que Colucci não conhece a bibliografia do campo no qual decidiu arriscar um palpite. Aliás, não entendo por que se imagina que o campo da linguagem é um palpitódromo. Acho que vou fazer o mesmo: vou abrir uma firma de engenharia. E ao esboçar uma planta, vou começar pelos galhos… [Sírio Possenti é professor de Lingüística no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de Os humores da língua e A cor da língua e outras croniquinhas de lingüista (Mercado de Letras) e de Mal comportadas línguas (CRIAR Edições)]

    
    
                     

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