Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Espera-se a contribuição dos fabricantes de bebida

Por lgarcia em 05/02/1998 na edição 38

Paulo Nassar

 

Nunca se falou tanto em cidadania empresarial como nos últimos tempos. Sobre esse tema jorrou muita luz, muita câmara e – reconheçamos – também muita ação. Um dos ícones desse movimento tem sido a Fundação Abrinq, liderada pelo apostólico Oded Grajew, que com sua ação conseguiu que empresas como a Volkswagen e GM proibissem seus fornecedores de utilizar o trabalho de crianças na cadeia produtiva.

Outras atividades no campo da cidadania podem ser encontrados entre os associados do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas; ver URL, abaixo), que se autodenomina “a primeira associação de grantmakers da América Latina”. Ou seja, uma instituição que representa, no Terceiro Setor, uma parcela das mais importantes organizações empresariais que buscam “expressar a responsabilidade e conseqüente participação da iniciativa privada na reorganização do espaço público, visando a melhoria das condições de vida do cidadão brasileiro através de ações eficazes e de longo alcance”.

Apenas discurso? Não, pois uma série de contínuas atividades promovidas pelas empresas associadas ao Gife mostra, no cotidiano de milhares de brasileiros, um conjunto orgânico e articulado de empresas trabalhando efetivamente pela cidadania.

Os exemplos citados foram estimulados pelo advento do novo Código Nacional de Trânsito, em vigor desde 23 de janeiro – que, em boa medida, mede o grau em que o comportamento-cidadão é incorporado por pedestres, motoristas, autoridades, imprensa e pelos setores industriais de alguma forma envolvidos com a questão do trânsito no Brasil.

Nesta terra de Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi e outros tantos pilotos vitoriosos e fracassados, os motoristas e pedestres estão esperneando e gritando, a favor e contra o novo Código. Enquanto isso, os dirigentes de dois mais importantes segmentos industriais diretamente ligados ao assunto – automóveis e bebidas – estão num estranho e confortável silêncio. Nenhuma referência ao assunto em seus comerciais ou nas páginas de opinião dos jornais, constantemente freqüentadas pelos executivos desses setores. Pior: boa parte da imprensa verde-amarela ainda não pautou nenhuma conversa sobre o tema com esses empresários.

É pertinente saber a opinião daqueles que fabricam os veículos e daqueles que dão munição para uma das principais causas de milhares de mortes ocorridas em acidentes de trânsito no Brasil: a embriaguez. É bom lembrar que a comunicação de marketing desses segmentos industriais tem permanentemente associado a imagem do automóvel e da bebida alcoólica ao sucesso e ao prazer.

Os criadores desses anúncios hedonistas poderiam se manifestar sobre a conveniência de inserir, nos comerciais de automóveis e de bebidas, mensagens advertindo que “a combinação de automóvel com bebida pode matar”, da mesma forma como a indústria tabagista foi obrigada a informar seus consumidores sobre os riscos do vício do fumo. Esses segmentos industriais poderiam destinar uma parcela de sua verba de comunicação – ou mesmo de seu lucro – para a produção de filmes, anúncios e cartilhas voltados para a educação de trânsito de seus consumidores.

Entre os publicitários preocupados com o assunto, umas das raras exceções é Júlio Ribeiro, dono da Talent, que há muito tempo recusa-se a fazer propaganda de bebidas. Outro profissional da área, Agnelo Pacheco, proprietário da 14? agência do ranking brasileiro de propaganda, já endossou essa proposta. Uma boa idéia, você não acha?

 

Gife – http://www.gife.org.br

 

 

Victor Gentilli

 

Carros caindo aos pedaços não podem mais circular: a autoridade apreende. E ruas caindo aos pedaços, quem vai apreender? Qual a autoridade capaz de interditar uma via pública imprestável?

Como já anunciado neste OBSERVATÓRIO, o novo Código Nacional de Trânsito transformou-se em tema do momento. Dedicam-se páginas e mais páginas nos jornais e vários minutos nas rádios e TVs.

No entanto, o inegável esforço editorial em cobrir o tema – apesar do atraso – foi marcado pelo tom oficialesco que prevaleceu exageradamente nas coberturas. Ou era o cidadão desinformado que falava, zonzo mais com a presença do cinegrafista do que com o desconhecimento da lei, ou a autoridade de trânsito, toda pomposa, não deixando de perder a oportunidade de falar no horário nobre.

Nunca um tema regional foi tão tratado nacionalmente. Se o Jornal Nacional deu tanto espaço, era para os jornais regionais estraçalharem. Estes, com honrosas exceções, minimizaram até mesmo a municipalização do trânsito, tema estadual que se tornou problema da cidade.

A oportunidade é de ouro: trânsito tornou-se finalmente tema nobre. Não é ou não devia ser assunto para foca, tema desimportante, pauta que ninguém quer. É chegada a hora de enobrecer o tema e esquecer o tom pejorativo para qualificar a pauta hoje maculada pelo desdém profissional: “peguei um buraco de rua!”

Repórteres fotográficos, cinegrafistas, infografistas, jornalistas em geral: continuem a mostrar os carros e automóveis circulando em petição de miséria.

Mas não se esqueçam de que trânsito é antes de tudo estrutura viária. É rua, rodovia, estrada, calçada, faixa, semáforo, sinalização, asfalto (sem buraco), etc. Portanto, enquanto todo mundo fica olhando para os carros, ônibus e caminhões, vale a pena alguém olhar para os lados e reportar:

  • o semáforo mal localizado
  • árvores e placas impedindo a visão dos semáforos
  • os quebra-molas fora da legislação
  • as faixas de sinalização apagadas ou inexistentes (horizontais e verticais)
  • as sinalizações que descumprem a lei (Por exemplo: as conversões sem sinalização adequada)
  • a ausência de sinalização em vias não preferenciais
  • os chamados “pontos negros”
  • e tantas e tantas outras coisas que estão visíveis na frente de todos.

 

Carros em condições sofríveis não podem circular.

E as vias em condições sofríveis? O jornalista não vai olhar para os lados?

 

 

M.M.

Jornais, revistas e televisão estão descobrindo agora que o motorista brasileiro – de todas as condições sociais, raças, credos, idades e gêneros – é um dos seres mais próximos, no planeta, ao elo perdido entre os primatas e o homo sapiens (os outros são os motoristas dos outros países).

Até o comportamento patológico dos motoristas de ônibus do Rio de Janeiro está vindo à tona em estarrecidas reportagens. Não digam!

Todo repórter que nasceu no Rio de Janeiro, ou mora nele há algum tempo e só agora constatou a truculência dos ônibus, deveria passar já por um exame de acuidade visual e auditiva.

Não, não é esse o problema. Mais uma vez, na origem do milagre da súbita percepção dos fenômenos pela arguta imprensa nacional está uma entidade chamada governo (aí englobados os três poderes), que promulgou nova lei de trânsito. Partiu do oficialismo, vira notícia.

A lei nem inova tanto em relação ao que já existia – como letra morta, durante trinta anos, com a complacência da imprensa. Que há muito tempo, nos grandes centros, deixou, por exemplo, de noticiar mortes por atropelamento.

A lei assusta pela ameaça da multa, mas isto não é o que mais conta.

Está ressurgindo no seio da população, em articulação com um impulso forte na direção do exercício da cidadania, o benefício da dúvida em relação ao comportamento das autoridades constituídas. Se o sujeito aceita ficar com medo de pagar multas cabeludas, é porque aceita a idéia de que elas serão cobradas.

A contrapartida da preocupação com a lei é, portanto, a esperança de que haja no trânsito brasileiro educação, engenharia, prevenção, fiscalização, repressão e punição.

Isto é novidade.

Motoristas de ônibus e atropeladores de crianças em porta de escola que se cuidem.

Jornalistas também.

 

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Eliane Cantanhêde, Entre aspas

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