Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MEMÓRIA CURTA

Esperando Gugu

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

MEMÓRIA CURTA

José Carlos Aragão (*)

Lendo ou vendo as retrospectivas de 2003 na mídia, fica fácil comprovar a máxima histórica que diz que "brasileiro tem memória curta": ninguém se lembrou da fenomenal egüinha Pocotó. Ela ? e o indefectível artrópode miriápode de nome Lacraia que a introduziu, via Gugu, no cotidiano de tantos papos de botequim, de escritório, de escola e outros ? sumiram de nossa memória e de nossas vistas com a brevidade de fogo-fátuo. Graças a Deus!

Aquela outra máxima, que diz que "um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la", também deve ser invocada por causa desse lapso da mídia. Porque, no fundo, fica aquela dúvida: devemos ficar relembrando a egüinha Pocotó para que nos acautelemos contra outras aberrações congêneres ou é melhor colocar uma pedra sobre o ocorrido e apagar de vez a lembrança desse episódio que nos envergonha como povo?

Infelizmente, temos duas memórias, ambas curtas: uma específica e outra genérica. A específica ? como atestam as omissas retrospectivas de 2003 ? já condenou ao ostracismo o servil (ou ser vil?) eqüídeo e o distinto cavaleiro que, como sugeria a letra da canção (canção?!), lhe fustigava impiedosamente as ilhargas. A mesma memória específica, efêmera que é, nos privou de conceder longa vida a outras aberrações mais ou menos recentes, que vieram e se foram a galope de égua: Florentinas de Jesus, danças em boquinhas de garrafas, bondes de tigrões etc.

Mas é justamente a nossa memória genérica, mais curta que a outra, que nos permite dar vida a uma profusão de baixarias e esquisitices travestidas de novidade, que vão e voltam, ciclicamente. Se uma tal dança da motinha teve vida breve e gloriosa e, hoje, ninguém dela se lembra mais, nada impede que sejamos contemplados, no ano que começa, com outra esdrúxula coreografia que será repetida à exaustão em gugus, faustões e outros eméritos propagadores dessas meteóricas porcarias pela TV. Se, até há bem pouco tempo, um tapinha não doía, outros refrões de gosto duvidoso sempre parecem pairar sobre nossas cabeças, como nuvens cinzentas, e cairão, mais dia, menos dia, feito tempestade multimidiática via rádio, TV e e-mails em massa. Enfim, se nossa memória curta específica reduz a vida dessas pragas, nossa memória curta genérica não impede sua constante mutação e, ao que parece, nunca estaremos a salvo delas.

Como Vladimir e Estragon

Mas de que se alimentam, afinal, essas formas desprezíveis de mau gosto, alienação e pauperização do senso crítico?

Do nosso irracional e mórbido apetite pelas desgraças humanas? (Basta ver a quantidade de populares que se acercam de um corpo estendido no asfalto de qualquer cidade, os índices de audiência de um Ratinho, um Gil Gomes ou um Datena, ou quantos telespectadores se sentem frustrados quando não há acidentes espetaculares em corridas de Fórmula 1.) Do espaço que a mídia, de modo geral, concede a esse tipo de manifestação, num vale-tudo sem tréguas e sem regras pela audiência quantitativa? Ou tudo não passa de uma ambição pelo sucesso rápido (ainda que breve) vaticinado por Andy Warhol ? uma coisa que dá e passa ? sem maiores conseqüências, e que uma espécie de seleção natural se encarregará de limar da história?

Correndo o risco de que certas considerações acerca desses fenômenos ocasionais sejam rotuladas de preconceituosas e até reacionárias, não há como negar que, ao se conceder, nos veículos de comunicação (com todo o seu potencial multiplicador intrínseco), espaço, tempo e visibilidade a essas aberrações, outras manifestações de real valor cultural, consistentes e conseqüentes, são preteridas ou definitivamente abandonadas.

Impor verticalmente normas, regras ou critérios de seleção e acesso poderia caracterizar a reedição da censura prévia ou o cerceamento do livre arbítrio de cada um. Delegar à sociedade organizada a definição de parâmetros, além do risco de se chegar ao mesmo conflito anterior, não seria fácil, pois implicaria mobilizar as pessoas para que elas criassem mecanismos que as privassem do que elas mais apreciam.

O impasse está criado.

Assim, se estamos inapelavelmente fadados a ver lacraias, tigrões e egüinhas pipocando em busca de seus 15 minutos de celebridade, e a mídia em sua diuturna busca por 15 minutos de audiência, parece restar-nos ? como chegam a cogitar Vladimir e Estragon, enquanto esperam Godot ? a forca. Ou, simplesmente, esperar, sem sequer saber se o próximo domingo será legal.

(*) Escritor e jornalista, Belo Horizonte

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