Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > NOVOS TEMPOS

Esquerda, torta e direita

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

NOVOS TEMPOS

Luciano Martins Costa (*)

Há alguns anos, durante a instalação do capítulo brasileiro de uma instituição destinada a prevenir a discriminação e a intolerância na imprensa, fui constrangido na USP por um professor da Escola de Comunicações e Artes, que insistiu em me apresentar como representante da "imprensa burguesa". Eu tinha um cargo de confiança no jornal O Estado de S.Paulo, portanto, na opinião daquele mestre, eu era o inimigo a ser escrachado. E ele caprichou: na composição da mesa, colocou-me de costas para a platéia, de modo que toda vez que precisava responder a uma pergunta, eu era obrigado, deseducadamente, a falar de costas para o interlocutor, ou corria o risco de sofrer um torcicolo. Não importavam minhas idéias, não importava minha história pessoal. Para aquele comissário do povo, eu era a Imprensa Burguesa e ele precisava manter sua imagem diante dos alunos.

Lembrei-me disso a propósito dos debates em Porto Alegre, da torta no rosto de José Genoíno, do crescente desfile de neo-esquerdistas que a eleição de Lula vem produzindo no nosso meio. É mais ou menos como o fenômeno Paulo Coelho: o cara diz que é mago, e toda a imprensa, inclusive os chamados críticos de literatura, assumem como fato comum que ser mago é uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Assim, Paulo Coelho é mago tanto quanto certos oportunistas começam a ser tidos como esquerdistas.

Menos crítica, mais credulidade

Não me surpreendeu, portanto, que um dia destes um jovem colega tenha afirmado, ao se referir aos jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa, como pertencentes a um segmento profissional de segunda categoria. Manifestações de preconceito como essa, e a facilidade com que temos absorvido com excessiva liberalidade algumas qualificações ou rótulos para figuras públicas, têm a mesma origem na má qualidade de pensamento que parece afetar o ambiente jornalístico. Parece que um número cada vez mais reduzido de profissionais manifesta coragem para questionar certas afirmações lançadas à opinião pública com o propósito evidente de construir imagens adequadas ao momento político.

Por exemplo, gosto de lembrar a atitude de colegas que, no governo Collor, faziam questão de deixar bem clara sua intimidade com o poder e, muito recentemente, se tornaram amigos de infância de Lula. Também não me escapa a figura que, num desses jornais populares, costumava escancarar fotografias de vítimas de crimes violentos, geralmente acompanhadas de títulos e legendas absolutamente desrespeitosos, e hoje comparece a debates sobre democratização da informação na pele de herói (heroína) dos excluídos. Ou o coleguinha que, nas festas da tribo pós-moderna, passeava com a bandeja de cocaína e hoje anda que é unha-e-carne com os procuradores que combatem o crime organizado e o narcotráfico.

A memória é uma maldição, diria Hamlet. Encontrar essas figuras nos bares da cidade ou nos eventos profissionais tem sido uma triste maneira de constatar as razões pelas quais anda a imprensa atolada em crise. Existem, claro, as razões de gestão, os motivos da macroeconomia, mas também não podemos ignorar as causas que residem no coração da imprensa, na consciência de cada profissional. A fatia do espectro profissional que lida com o dia-a-dia do fazer notícia está, de fato e tristemente, ficando menos crítica e mais crédula, enquanto o outro lado do balcão se profissionaliza e se recicla. Há tortas para todos.

(*) Jornalista

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