Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > EDIÇÕES DIGITAIS

Estadão

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

EDIÇÕES DIGITAIS

Luciano Martins Costa (*)

O Estadão está perto de conseguir, enfim, a unanimidade de seus leitores. A recente mudança do portal na internet, que passa a oferecer a edição do jornal O Estado de S.Paulo em formato PDF (do inglês Portable Document Format ? formato de documento portátil, ou formato de dados empacotados, conforme a versão original do programa), vem recebendo, desde o fim da semana, uma enxurrada de críticas de leitores, especialmente de jornalistas e daqueles que se declaram assinantes do jornal.

As queixas vão desde a demora para baixar o arquivo, passando pela dificuldade
para navegar entre as páginas ? que representa o ato de "folhear"
a edição digital ? até a supressão das "Últimas
Notícias", que desaparece do endereço <www.estado.com.br>
e fica disponível apenas no portal <www.estadao.com.br>Sem
contar a surpresa desagradável de grande número de pessoas que,
por não possuírem uma versão atualizada do viewer
do Acrobat, que permite a apresentação do jornal em seu formato
gráfico, simplesmente não enxergam as fotografias e infográficos.
Para quem conhece essa tal de internet, e até mesmo para quem acaba de
ser apresentado ao mouse, a lição é: sempre dá para
piorar.

O desconforto é marcante desde o primeiro acesso, mas é preciso observar que atinge principalmente o leitor que se dirige ao portal por interesse no Estadão, o jornal, pois fica evidente a escolha de reduzir a importância relativa do diário tradicional entre os conteúdos do portal. O problema é saber qual a porcentagem de leitores que se move por fidelidade ao jornalão e quantos se dirigem ao portal atraídos pelo Jornal da Tarde, pela Rádio Eldorado ou pela Agência Estado. A julgar pela escolha feita, os responsáveis pela mudança estão informando o mercado que o Grupo Estado não vê um valor especial no título tradicional, alinhando-o numa barra de navegação comum.

Pode parecer uma insensatez, à primeira análise, a percepção de que uma empresa aparentemente pode aceitar a dissipação de uma marca sólida, dominante no mercado há quase 130 anos, em função de um modelo de baixo custo ? afinal, o novo formato permitiu à empresa demitir toda a equipe que editava o jornal online. Mas quem conhece a história recente da casa sabe que não se trata de incompetência, mas de uma estratégia claramente definida há mais de dez anos por uma parte da família que ainda detém a propriedade da empresa. Para mim, que estive à frente daquele projeto desde suas origens até a criação do portal Estadão, não há surpresas, a não ser aquela de constatar que parece não haver limites para a capacidade de algumas organizações de agir contra seus próprios interesses.

Novo público

Apesar de conhecer as restrições que um profissional deve se impor na análise de projetos dos quais tenha participado, este observador considera que, tendo deixado o Grupo Estado em 1999, passou-se já uma razoável quarentena que lhe dá a liberdade de entrar no assunto. O projeto que hoje se consolida e surpreende os leitores dessa forma negativa começou a ser desenhado em 1993, quando este observador, no cargo de editor executivo do Estado de S.Paulo, desenvolveu o projeto chamado Edição Contínua, pelo qual a estrutura e os processos do jornal seriam transformados para atender à necessidade de captar e processar informações 24 horas por dia, nos 365 dias do ano. Não havia ainda internet como a conhecemos, mas alguns profissionais já sabiam que o matrimônio da tecnologia da informação com as telecomunicações iria revolucionar o mundo, com especial impacto na mídia.

Foi desse projeto que nasceu o BBS Estadão, o primeiro serviço contínuo de informação e interatividade criado e mantido ininterruptamente por um jornal brasileiro. Uma linha telefônica ligada a um jurássico PC 286 realizava o milagre do primeiro noticiário online, ainda antes da internet de páginas coloridas e imagens animadas. Ao mesmo tempo, foi criado um serviço de informações por telefone que fornecia automaticamente boletins sobre esportes, meteorologia e condições de estradas.

Quando surgiu o browser Mosaic, estávamos entre os primeiros participantes de um workshop sobre imprensa na internet, em Raleigh-Durham, na Carolina do Norte. Foi nesse ponto, em 1994, que se originou um conflito dentro do Grupo Estado, que, a julgar pela recente mudança no portal, acaba de se definir: de um lado, postava-se Júlio César Ferreira de Mesquita, filho de Júlio de Mesquita Neto, a defender a tese de que tudo deveria se desenvolver em torno do título mais importante e mais tradicional do grupo; do outro, os filhos de Ruy Mesquita, um dos quais exigia tratamento igual para o Jornal da Tarde, outro dos quais afirmava que a Agência Estado, por sua vocação tecnológica, deveria ser o centro dos investimentos. Diretores que meses antes usavam o mouse de cabeça para baixo, rolando o cursor com o dedo, transformaram-se repentinamente em especialistas e surgiram nas reuniões ao lado de consultores que ofereciam séculos de experiência na novíssima tecnologia.

A mistura entre acionistas e executivos impossibilitou a resolução do conflito de interesses nos diversos foros que se sucederam, e o processo seguiu no ritmo da esquizofrenia. À frente do projeto Estadão Multimídia, segui a orientação de Julinho Mesquita no sentido de monitorar constantemente o interesse dos leitores e ao mesmo tempo adotar uma estratégia de inovar constantemente. "Desrespeitar" criativamente a tecnologia era nosso roteiro básico. Desde o princípio, nossa escolha foi domesticar a tecnologia, buscando parcerias que permitissem formar na própria redação a massa crítica capaz de exigir soluções técnicas para as demandas de conteúdo, e nunca submeter o conteúdo jornalístico a limitações ou preferências dos tecnólogos. A redação do Estadão online foi, desde sua criação, estruturada em grupos que incluíam sempre um diagramador ou arquiteto de informação, um técnico e um jornalista com habilidades para a reportagem e a edição.

Inicialmente sob o comando do jornalista Jorge Guimarães ? que foi o obstinado autor da primeira homepage do jornal ?, a equipe mesclava jornalistas e técnicos jovens com profissionais mais experientes. Afora o fato de haver indicado a aplicação do programa Coaching Writers, do Poynter Institute, como método de desenvolvimento de habilidades jornalísticas, Julinho Mesquita nunca interferiu no trabalho. Tudo que se fez ali foi de exclusiva responsabilidade dos profissionais.

E não foi pouco: a arquitetura imaginada por Guimarães e depois continuada sob o comando de Luiz Octávio Lima, permitiu digitalizar rapidamente todo o conteúdo das edições diárias, ao mesmo tempo em que eram recuperadas, em arquivos digitais, as edições anteriores do jornal e se construíam, como numa colméia, nichos para trabalhos especiais sobre temas específicos. Sabíamos que esses trabalhos seriam um atrativo para estudantes e pesquisadores e tínhamos apostado que os leitores mais qualificados e exigentes atuariam como educadores do novo público que seria atraído para a leitura do Estadão. Esses trabalhos ainda estão arquivados sob a nova estrutura do portal. Estão lá as reportagens especiais sobre Jorge Luís Borges (construída em forma de labirinto, como uma metáfora da própria obra do poeta), sobre Canudos, sobre Lampião, sobre conquistas da ciência, sobre moda, carnavais, cinema etc.

Conhecimento desprezado

Nossa estratégia era ampliar o universo de leitores diários, para não apenas obter resultados diretamente através da edição online ? e com isso buscar a receita de publicidade e patrocínio ? mas renovar, ampliar e fidelizar o público de edição impressa. Um quadro na sala estimulava a equipe a debater temas como política, economia, religião, ciência ou curiosidades, abertamente, para evitar o entranhamento de conflitos que poderiam prejudicar o trabalho. Todos podiam estudar inglês. O jornalista destacado para cobrir a Copa da França começou a tomar aulas de francês quase um ano antes, e nesse período se encarregou de negociar direitos, planejar e editar uma enciclopédia de futebol com a história de todas as Copas. Periodicamente, discutíamos a própria história do Estadão para que jornalistas, técnicos e diagramador não perdessem de vista os referenciais da casa.

Ainda antes de se tornar um portal, associado às outras homepages do Grupo Estado, o Estadão Multimídia foi tema de pelo menos três teses acadêmicas, uma delas numa universidade européia. Em todos esses trabalhos destacava-se o cuidado na criação de um conteúdo que fosse ao mesmo tempo atualizado e confiável como fonte de consulta.

Com um orçamento que nunca foi significativamente maior do que os orçamentos de uma editoria do jornal, e sempre muito menos expressivo do que os recursos à disposição da Agência Estado, por exemplo, foi possível consolidar um produto que chegou a merecer a aprovação de mais de 80% dos usuários. Sabíamos que não estaríamos competindo com provedores de acesso e que deveríamos partir de uma posição subsidiária à da edição impressa, até a maturação da tecnologia. E quando o antigo site evoluiu para se transformar no Portal Estadão, já tinha expertise para oferecer conteúdo até mesmo para serviços ainda incipientes mas de grande futuro como o SMS (Short Message Service ? o serviço de mensagens curtas via celular), que cresce exponencialmente.

Ainda antes da privatização da Telesp, tínhamos um projeto de linhas dedicadas exatamente igual ao serviço em banda larga que hoje é oferecido por operadoras como a Telefônica. Logo após o surgimento do PDF, propusemos a oferta de pacotes do Estadão naquele formato, para impressão remota em outros estados ou até mesmo no exterior. Dezenas de reuniões depois, essas oportunidades acabaram esquecidas na confusão de interesses entre acionistas em funções executivas.

Quase dez anos depois de iniciado, o projeto mostra uma cara que é o avesso de seus propósitos originais. Mostra uma cara de "esperteza", com uma lógica que explicita o interesse de manter o usuário preso à linha pelo maior tempo possível ? provavelmente baseada na esperança de que essa tática irritante valorize a publicidade. O mercado já deu mostras de repudiar essas manobras marqueteiras.

A equipe que ergueu aquela obra foi dispensada sem qualquer explicação. São profissionais que conheci jovens, alguns recém-saídos da universidade, cuja formação acompanhei, e que compuseram uma equipe qualificada, unida, dedicada ao melhor do jornalismo e da tecnologia. Falávamos de uma internet que fosse ao mesmo tempo um ambiente de bons negócios e um espaço para a melhoria da cidadania, um ponto de encontro das expressões coletivas da inteligência. Sabíamos, desde a guerra da Bósnia, que a internet realmente era a tangibilização do sentido ? até então abstrato ? de humanidade. Os leitores, os melhores deles, respondiam a esse estímulo. Nosso conteúdo era material de consulta obrigatória em muitas escolas, conforme pudemos aprender de centenas de e-mails nesse período.

O Grupo Estado preferiu mostrar que nada mudou, que seus gestores acreditam poder navegar no mundo digital com bússolas de caravelas. Que a expressão "liberal" apenas define uma espécie de reserva moral do conservador. Empresas que vivem perdendo oportunidades não sobrevivem no atual ambiente de negócios em constante mutação. Suas marcas acabam contaminadas pela imagem de rigidez e conservadorismo impregnada por seus donos ou gestores. Empresas que não valorizam seus talentos, que investem no desenvolvimento de profissionais e depois se livram deles, como quem recicla um computador, estão dizendo ao mercado que não se importam com a criação do conhecimento.

Por essas e outras, a crise na imprensa não tem hora para acabar.

(*) Jornalista

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