Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >   TECNOLOGIA

Esther Hamburger

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

TV & TECNOLOGIA

“Aparelhos de TV contrastam com programas”, copyright Folha de S. Paulo, 21/01/04

“No fim do ano comprei uma televisão nova. Ossos do ofício. Pude experimentar os mais diversos recursos.

Alguns modelos permitem brincar com o formato da imagem. Achatam personagens alongando o quadro de forma a atingir as proporções de cinema. Há um zoom não muito dirigido, mas um zoom. é possível assistir mais de um canal ao mesmo tempo, ver pequenos replays, fazer câmera lenta etc.

Design moderno e funções sofisticadas, os televisores vão ganhando funções simples de edição. Mas vão também se aproximando formalmente da idéia original de tela, o suporte da pintura, o quadro emoldurado na parede.

As TVs atuais parecem querer enobrecer aquele aparelho que o velho Fellini, ironicamente, classificava como um eletrodoméstico. A tela plana tornou praticamente obsoleta a boa forma convexa, substituindo-a por linhas retas, elegantes e afiadas.

Os aparelhos ?widescreen? prometem superar o formato quadrado da TV convencional -mesmo que ainda sejam poucos os programas transmitidos nas proporções adequadas.

As telas de plasma, leves painéis pouco espessos talvez representem o auge nessa trajetória. A imagem que esses aparelhos do futuro transmitem é nítida. Elegantemente dependurados na parede, esses televisores fazem às vezes de quadros que interrompem e iluminam paredes, transmitindo a sensação de transparência.

Com aparelhos modernos, a TV se esmera em realizar o apelo que as pinturas pré-perspectiva já prometiam e que os primeiros manuais de televisores americanos na década de 50 renovaram: ?uma janela para o mundo?.

Infelizmente o aprimoramento dos aparelhos contrasta com a mesmice da programação. A pretensão do invólucro trai a despretensão do conteúdo. Na posição de telespectadores, fazemos o que podemos. O investimento em aparelhos novos aguça as exigências dos sentidos.

O verão está cheio de tentativas. Dezembro foi recheado de balões de ensaio. Janeiro começou pleno de estréias. Há exceções, como o quadro de Regina Casé sobre São Paulo no ?Fantástico? (o último vai ao ar no próximo domingo, aniversário da cidade). Mas entre ?reality shows?, programas de auditório, minisséries e seriados, infelizmente há pouca coragem de investir em novos formatos de qualidade. Seria bom se no novo ano a produção de conteúdo acompanhasse o ímpeto das renovações tecnológicas.”

 

UM SÓ CORAÇÃO

“?Erik Marmo está melhor?”, copyright Folha de S. Paulo, 21/01/04

“Há alguns dias, o diretor Carlos Manga, um dos principais da TV Globo e responsável pela minissérie ?Um Só Coração? [maior sucesso da emissora no gênero desde 1999], reuniu o elenco para um desagravo ao ator Erik Marmo. Par romântico da atriz Ana Paula Arosio na TV, Marmo vem sendo muito criticado.

Folha – O que o senhor fez?

Carlos Manga – Reuni o elenco, chamei o Erik e li uma crítica terrível, sem as pessoas saberem para quem era. Acabei e disse: ?Essa crítica foi feita na década de 50 ao diretor Carlos Manga. O mesmo que está aqui sentado tomando conta de uma das coisas mais lindas da televisão brasileira, que é a minissérie que vocês estão fazendo. Então, Erik, a gente não pode se deixar levar por uma crítica.? Ele se sentiu muito melhor, o elenco ficou emocionado e eu cumpri o objetivo de incentivar um ator que está começando a vidinha dele, né?

Folha – O que dizia a crítica?

Manga – ?Mais uma mangaba do cinema nacional! Esse pessoal pensa que está vivo mas já morreu!? Era uma coisa absurdamente violenta. Nem viam mais os meus filmes [Manga fez 25], falavam mal de todos. Parei de fazer cinema. Hoje virei cult. Todo mundo pede para eu falar, fazer palestra sobre os filmes. Agora não adianta mais! ?Tô? com 76 anos, meu amor, ?tô? com o pé na cova, ora bolas!

Folha – Que nota você daria para o Erik?

Manga -No começo da minissérie eu daria 6,5. Agora eu daria…oito. Ele foi melhorando e agora está ?beeem? melhor do que no início. ?Beem? melhor. E ele está dentro de um Butantã, só tem cobra trabalhando. O menino já entra amedrontado em cena, né, coitado! Agora, em compensação, a minissérie tem verdadeiros fenômenos. Tem a Cassia Kiss, o Tarcísio Meira, que está exuberante, tem a menina, a Ana Paula Arosio.

Folha – O que você acha das críticas que são feitas à TV, de que sobra rosto bonito mas falta talento?

Manga -A TV Globo renova muito o seu visual. Uma emissora como a nossa, que tem tanta dramaturgia, se não tiver um casting grande não há quem suporte. Nós estávamos com nossos atores um pouco cansados, sempre os mesmos. A juventude tinha que ocupar espaço. é evidente que no meio disso tudo tem umas e outras que querem mostrar mais a bundinha, mostrar mais o peitinho. Claro que tem. Mas as maçãs ruins a gente aos poucos vai jogando fora da cesta. Eu só não concordo é com as críticas radicais. Tudo o que é muito radical não presta. Como era o PT do Lula? E hoje, o que teve que fazer? Ele virou tanto que ficou ruim. Tinha que virar um pouquinho menos, né querida? Tudo o que é exagerado não é bom, sabe? Inclusive bunda (risos). é uma coisa que todo homem gosta. Mas tá tão usada, tão usada, que agora mulher começou a ficar bonita é de frente novamente.”

 

TECNOLOGIA

“Pioneiros promovem evento para debater rumos do software”, copyright Valor Econômico, 21/01/04

“Alguns acreditam, outros estão otimistas, há os cautelosos, mas idéias e projetos são comuns a vários daqueles que historicamente pensam sobre os caminhos do software no Brasil.

Edson Fregni, um dos pioneiros da indústria de informática no Brasil, atualmente diretor-executivo responsável por internet no ABN-Amro, diz que o software é pensado no país desde os anos 60, com os primeiros computadores fabricados localmente, como o Sisne (sistema Nexus), produzido pela Scopus, capitaneada por ele.

A diferença entre aqueles tempos e a atualidade, pondera Fregni, foram as formas de pensar os sistemas. Inicialmente, foram olhados tecnicamente; num segundo momento, como negócio – software desenvolvido pelas empresas para uso próprio, para uso do cliente, para ser empacotado e vendido.

Um terceiro nível, mais contemporâneo, é olhar para o software como instrumento para o desenvolvimento do país. A reserva de mercado, diz Fregni, foi uma experiência importante, porque estimulou o surgimento e o desenvolvimento da engenharia de computação, de grandes indústrias produtoras e consumidoras de software.

?Basta olhar para a competência da automação bancária para se ter noção da importância histórica da reserva.? Segundo ele, apesar da criação da Softex, e da instituição, pelo CNPq, em 1993, do Programa Softex 2000, de estímulo às exportações, ?não decolou a visão da importância do software como ferramenta do desenvolvimento nacional?.

Apesar disso, Vanda Scartezini, atual assessora especial da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, onde coordena a área de tecnologia da informação, faz um balanço positivo do setor. Em primeiro lugar, aponta para o seu amadurecimento. Destaca a união das associações de classe em torno de uma linha filosófica de trabalho conjunta. Isso permite, por exemplo, segundo ela, perguntar, qual a contrapartida que a Microsoft pode dar ao país.

Vanda considera relevante, também, o resultado do estudo feito pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mostra a existência de uma expectativa positiva em relação ao Brasil. ?Saímos bem na foto, o que entusiasma um setor que tinha certo complexo de inferioridade?, observa. Um terceiro ponto é que, há razoável fortalecimento do software nos Estados, vários dos quais definiram o setor como prioritário. ?Temos, de fato, competência em software.?

Arthur Pereira Nunes, titular da Secretaria Adjunta de Informática, vinculada à Secretaria de Política de Informática e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia, lembra o déficit comercial produzido pelo setor. Segundo o Banco Central, o Brasil importa, anualmente, US$ 1,1 bilhão, e exporta US$ 100 milhões, portanto um saldo negativo de US$ 1 bilhão. Se fossem considerados os serviços associados àquelas compras, sobre os quais não há informações disponíveis, os valores das importações seriam muito maiores.

?A indústria de software tende a continuar crescendo, aqui, como no resto do mundo. Quando o PIB brasileiro cresce, a indústria de informática cresce mais, transformando o software num problema da balança comercial?, afirma Nunes, que até o início do ano era presidente da Softex e, durante bom tempo, foi secretário-executivo da extinta Associação Brasileira da Indústria de Computadores (Abicomp).

Para o setor se expandir sem piorar a balança, diz Nunes, , é preciso que os grandes importadores também encontrem caminhos para exportar. Afinal, cerca da metade dos importadores são usuários finais. Para resolver o impasse, há três alternativas, observa Nunes. Partir para um processo de substituição seletiva de importações; reduzir as compras externas implementando políticas de software livre para aumentar o conteúdo de mão-de-obra local via soluções brasileiras; estabelecer mecanismos de estímulos às exportações.

Pelo lado das exportações, reconhece Nunes, o Brasil não tem imagem de produtor de tecnologia, o que é uma barreira objetiva. Para superá-la, um dos caminhos seria negociar com grandes importadores para que atuassem como canais de software brasileiro no mercado internacional. Outro, que demanda mais tempo, é conquistar o mercado externo através de vendas técnicas. Um terceiro, é o fabricante de software ter boa presença no mercado interno, o que dá base para exportar.

Nunes não descarta o exercício do poder de compra do Estado como importante instrumento de fortalecimento da indústria local. Ele informa que a questão está sendo costurada no âmbito dos ministérios da Ciência e Tecnologia, do Planejamento, da Fazenda, entre outros.

Para Fregni, em matéria de software, o país viveu uma recessão conceitual na última década. ?Hoje, está em questão resgatar um modelo em que se acredite, porque estamos num vácuo. Precisamos responder algumas perguntas: é o modelo indiano que nos serve? Software livre é o caminho? Estamos em busca de uma linha de pensamento viável, e uma visão integrada sobre os rumos do software nacional leva tempo para se formar e se consolidar?, diz Fregni.

Esses temas serão discutidos a partir de hoje no fórum ?Pensadores do Software no Brasil?, que reunirá grandes nomes do software nacional durante a Fenasoft Software Week. Para Fregni, ?a indústria de software é uma grande oportunidade para um país como o Brasil?.”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem