Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > "TV SANGUE"

Esther Hamburger

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

FANTÁSTICO

"?Fantástico? destaca sotaque regional", copyright Folha de S. Paulo, 25/12/02

"Como quem não quer nada, em meio a uma sequência de crianças fazendo compras em supermercados e lojas de brinquedo, foi ao ar no ?Fantástico?, especial de Natal do último domingo, o que pode vir a ser a expressão de uma grande novidade.

Do estúdio no Rio de Janeiro, Regina Casé apresentou Titina, que por sua vez, de Carnaúba, interior do Rio Grande do Norte, mostrou aos telespectadores um jeito próprio de celebrar o Natal.

Em seu primeiro trabalho televisivo, Titina interagiu com festeiros de Carnaúba, mostrando as diversas etapas do ritual de fazer o chouriço, doce cozido a partir do sangue de um porco sacrificado.

A iguaria, remanescente de nossas raízes coloniais portuguesas, é o prato principal da Chouriçada, festa natalina com direito a forró, na pequena cidade nordestina.

Produzido no contexto de um projeto conhecido como ?regionalização?, que, além de Regina, conta com a coordenação de Hermano Viana e Guel Arraes, o programete transpirou a energia da equipe da TV Cabugi, afiliada local da Globo, que trabalhou de maneira independente.

Tocada pela violência que seria cometida, Titina abriu o quadro chorando sobre o corpo do animal. E terminou, em traje de baile, se lambuzando com a pasta escura, cozida com tempero. A associação de sangue e açúcar vingou.

O Ibope do ?Fantástico? subiu durante a apresentação, o que sugere que sotaques locais combinados com alguma espontaneidade e sensualidade discreta são capazes de se destacar, especialmente no panorama carregado de baixaria que povoa a programação de domingo da TV aberta.

O formato vai além do projeto de regionalização da produção televisiva, atualmente em discussão no Congresso Nacional, porque busca a constituição de uma rede enraizada. A reportagem local ganha transmissão nacional, combinada com versão mais longa a ser exibida somente na região. (Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP)"

 

DISCURSO DA TV

"?Seja feliz! Isto é uma ordem!?", copyright Folha de S. Paulo, 29/12/02

"Imagine a seguinte situação. Você está por aí, digamos, passeando num shopping, depois de ter ido à festa da firma, à ceia de natal na sala da sogra, que foi melancólica, e ainda não criou coragem para enfrentar o prestigioso Réveillon no apartamento bonito daquele casal de amigos, que promete ser cansativo. Então, de repente, surge do nada, diante da sua fatigada figura, um comandante militar com cara de sargento prestes a gritar ?Sentido!? e passa a vociferar, a dois palmos dos seus olhos, entre perdigotos balísticos e um certo hálito de vampiro, um comando que é meio difícil de entender: ?Seja feliz! Isto é uma ordem!?. Você não consegue acreditar naquilo direito, está atordoado, não faz a menor idéia de onde saiu aquela figura, aquele militar histérico, pensa que caiu dentro de um filme de guerra, pensa que está diante do general Patton no meio da sessão da tarde, e ele, o general Patton, com sua cara rubra, borbulhante, e seu traje cáqui, impecável, repete, aos brados: ?Seja feliz! Isto é uma ordem!?.

Pronto. Fim da cena imaginária. Você não precisa mais se imaginar nessa situação absurda. Pode descansar, soldado. Passemos, agora, já mais relaxados, a pensar um pouco sobre a cena construída no parágrafo anterior. Comecemos pelas perguntas mais simples: será que a tal cena faz sentido? Será possível que alguém seja feliz por obediência? A felicidade pode ser produzida por um comando, por uma ordem?

Claro, qualquer um responderá que não. A idéia de felicidade, por mais precária que seja entre nós, supõe um grau mínimo de liberdade. A gente é feliz quando faz o que quer, mesmo que ninguém consiga saber direito o que quer e o que deseja. Feliz é quem sabe o que quer e o que deseja (querer e desejar são níveis diferentes do ser) e se concilia com isso. A idéia de felicidade, portanto, nos parece incompatível com a condição do reco que bate continência e grita ?Sim-senhor!?. Pode até haver algum tipo de prazer em deixar-se dominar, mas não há felicidade nisso. A felicidade, pensamos, e pensamos com razão, não se impõe.

Não obstante, a felicidade nos é imposta como obrigação. Digo isso a propósito da massa cada vez mais avassaladora da publicidade natalina e da programação ?felicidificante? que toma conta da TV quando chegam as festas de fim de ano. As criancinhas produzidinhas multiculturaizinhas e devidamente multiétnicas entoam em torno da árvore de Natal a velhíssima canção ?hoje é um novo dia de um novo tempo? etc. A moça linda chora porque ganhou um anel. Roberto Carlos geme num acorde perfeito maior. Os astros têm dentes alvos modelados na ortodôntica indústria do entretenimento e sorriem seus sorrisos pré-fabricados. Os embrulhos de Natal e os votos de feliz Ano Novo se confundem num único e ininterrupto imperativo: ?Seja feliz! Isso é uma ordem!?.

É incrível como o discurso que reprime se esconde por trás do discurso que vende a felicidade como a mais preciosa das mercadorias. O discurso da TV, que é o discurso do comércio disfarçado de informação e diversão, que procura estabelecer os padrões de comportamento, obriga o telespectador a ser feliz. Como se fosse um general ou um feitor de escravos, de chicote na mão. Um comandante que ordena: ?Goze, seja feliz, seu verme inútil e tristonho!?. O inferno, quem diria?, é feito de votos de felicidade comercial. Que não são votos, mas ordens: ?Compre, embriague-se de mercadorias. E depois ache tudo ótimo, inenarrável, um orgasmo como nunca você experimentou antes!?. Só há felicidade na obediência e no consumo.

Isso tudo já foi dito antes, mas não importa. Para 2003, eu tinha sonhado apenas com um pouco mais de melancolia. E de liberdade. E que o general da publicidade ficasse gritando sozinho, feito um Patton enlouquecido e ineficaz."

 

"TV SANGUE"

"Sangue lavou a programação em 2002", copyright O Estado de S. Paulo, 29/12/02

"Olhando para trás pode-se afirmar que 2002 foi sangrento na TV. O gênero policialesco – aquele que não se satisfaz em noticiar e, por isso, remexe os detalhes de crimes ad nauseum para prender o público na frente do vídeo – tomou conta de quase todos os canais, transformando tarde e noite num festival de desgraças. Repórter Cidadão, Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta – que geraram até um filhote (Direitos Humanos, na Record) – tiveram um ano e tanto. Já o público, nem tanto.

Seguindo a tendência, o barraco ao vivo consolidou-se para piorar a situação do telespectador. Esses programas que, a pretexto de ajudar pessoas humildes, carnavalizam suas tragédias expondo-as a humilhações grotescas, foram tão aprimorados por João Kleber (Rede TV!) e Márcia Goldschmidt (Bandeirantes), que fizeram o Programa do Ratinho parecer brincadeira de criança.

A permanência e a ampliação do horário desses programas vêm mostrar que o compromisso das emissoras continua a ser só com a audiência. Ou seja, a filosofia que permeia os escalões de decisão nas redes abertas continua sendo a de que elas dão o que o público quer, por isso ele engorda o ibope de cada dia. Portanto, se as partes estão satisfeitas a ordem é prosseguir repetindo a receita.

O sucesso comercial desse modelo indica que, em 2003, a TV deve continuar nessa linha, a não ser que o novo governo passe a tratar a televisão como uma concessão pública e, por isso, sujeita a se comportar de acordo com a missão descrita no artigo 221 da Constituição Federal.

Mas nem tudo foi ruim este ano. A Copa do Mundo e as eleições gerais deram oportunidade para a TV testar todo o seu potencial em termos de jornalismo.

No caso das eleições, a TV fez a melhor cobertura de sua história. Se o telespectador se arrependeu de seu voto, não pode culpar o veículo porque não faltou informação em todos os canais.

Na área do entretenimento houve uma evolução. As séries A Grande Família e Os Normais, da Globo, acenderam uma luz no fim do túnel do humor brega e preconceituoso. Com bons textos, elenco de primeiro escalão e uma direção competente esses programas mostraram que é possível fazer graça sem apelação e, o mais importante, reconheceram que há vida inteligente do outro lado do vídeo.

Experimentações – difíceis de ocorrer nessa área – aconteceram e merecem ser registradas. Ao abrir espaço em sua grade programação para um show de auditório – Alô, Alô, de Fafy Siqueira – , a TV Cultura afasta de si a imagem de ?educativa? e ao mesmo tempo ensina ao mercado que ?popular? não é sinônimo de baixaria. E a Record ousou ao ceder a faixa nobre para a série A Turma do Gueto, produzida fora da emissora e que, mesmo não tendo conseguido um bom resultado técnico, deu vez à periferia que apareceu na TV em condições menos inferiorizada.

Nos resta esperar que esses exemplos sejam absorvidos e as emissoras se sintam estimuladas a experimentar mais neste novo Brasil."

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